As grandes guerras ditaram a subserviência do Continente Europeu aos interesses do Tio Sam. Por culpa própria, sobre a divisão, destruição e desleixo de uma Europa desigual entre si, a dependência do poder norte-americano (e de outras potências internacionais) tornou-se uma inevitabilidade de ordem fatal, reduzindo a Europa a um quadro de tinta velha, descascando sobre o tempo, como vestígios de uma glória outrora resplandecente, relegada ao esquecimento.
Agora, somos a Europa das fronteiras abertas – importando o espelho do nosso fim – e da dependência energética, não fosse o legado de Merkel a normalização do absurdo. Somos a Europa da incessante e fastidiosa burocracia de Bruxelas, imóvel à efervescente inovação multipolar, mas implacável no sufoco do seu pequeno microcosmo. Somos a Europa da dormência de Fukuyama, do Santo Graal desmilitarizado do Fim da História, que não só faltou às lições da Crimeia e de Donbass em 2014, como ainda preservou a sua ingenuidade perante a nova ofensiva russa de 2022. Somos a Europa da pré-adolescência existencial – do paradigma das palhinhas de plástico, num resto de mundo crescentemente poluidor e desresponsabilizado – face à insustentável leveza das verdadeiras preocupações sociais.
Sobretudo, e por falta de outras palavras, somos a Europa dos líderes frouxos. Um triste – e orgulhosamente condescendente – conjunto de descoordenados, desordenados, desvirtuados e desconcertados. Tantas reuniões, tantas cimeiras, tantos grupos de trabalho, tantos discursos, tantos apelos, tanto dinheiro mal gasto dos contribuintes europeus, para continuarem, sem a mínima margem de exceção, ignorantes ad aeternum aos sábios e sexagenários avisos proferidos por De Gaulle, cuja atualidade reverbera no século XXI.
Ao mesmo tempo, entre democratas e republicanos, Kennedy’s e Reagan’s, com mais ou menos ética, com maior ou menor abertura internacional, com ou sem recurso à CIA, a verdade é que a política externa americana sempre olhou para a Europa – e, para que fique claro, de forma legítima e racional – não como o eterno e tradicional aliado intercontinental e transatlântico que, por cá, vangloriamos em popa – não tivesse Burke diferenciado, corretamente, os males da Revolução Francesa das virtudes da Revolução Americana -, mas como uma peça de relevo no jogo geoestratégico, económico, ideológico-cultural e político.
Neste aspeto, Trump não é a exceção, mas a hipérbole da regra.
Uma regra que só não ditará a imortalização da longa e histórica decadência da Terra das Civilizações se, ao acompanhar os inúmeros desafios que assombram o Continente Europeu, surgirem líderes que não temam a digna e justa luta militar, cultural, económica, estratégica, política e civilizacional, procurando revitalizar a preponderância e centralidade dos verdadeiros interesses europeus, diferentes na soberania de cada país, mas iguais na sua construção multipolar e estratégica. Porque, se Von der Leyen, Rutte, Scholz, Macron, Starmer e (a cereja no topo do bolo) António Costa são tudo o que a Europa nos tem para oferecer na defesa firme do nosso futuro intergeracional… Então estamos conversados.