De mês a mês, diversos órgãos de comunicação social — em particular, a Visão, o Público e o Expresso — presenteiam os seus leitores com profundas e revolucionárias investigações sobre o crescimento da tenebrosa extrema-direita portuguesa. De agitadores profissionais a influencers digitais, as figuras e os movimentos descritos, apesar da intencional hipérbole pseudo-jornalística, parecem ser sempre os mesmos, sem grandes diferenças que sobressaiam entre a investigação publicada em maio e a investigação publicada em outubro.
Pela conhecida inexistência de peças de investigação (por esses mesmos órgãos de comunicação) que se foquem na doutrinação académica e social que decorre nos seios do pensamento intelectual pós-modernista, voluntario-me para demonstrar aos leitores do Observador as diferentes mobilizações e atividades da extrema-esquerda portuguesa que resultam do cenário descrito, que marcaram o dia 7 de outubro, e que não serão devidamente reportados por quem os habitualmente legitima.
Começando pelo caso mais partilhado nas redes sociais, o coletivo revolucionário Guilhotina, com mais de 10 mil seguidores nas redes sociais, publicou um artigo da autoria de Francisco Ulrike (também redator na Voz do Operário), descrevendo o 7 de outubro como uma “celebração”, “marco histórico da luta anti-colonial” e “operação heróica”. Descreve, também, não só o Hamas, como a Jihad Islâmica, o Hezbollah e o Ansar Allah (Houthis) como “forças de resistência anti-colonial que combatem o terrorismo de Israel e do Ocidente”. Ao mesmo tempo, é evocada uma mobilização para o Marquês de Pombal, sobre o lema “Glória aos mártires da resistência palestiniana! Longa vida às Al Qassam!”
Num registo ligeiramente mais polido, mas sem descartar o apelo à violência, o Coletivo pela Libertação da Palestina, com mais de 20 mil seguidores nas redes sociais, convocou duas manifestações para o Norte do país, evocando o motto: “Nós não precisamos mais da vossa empatia, queremos a vossa raiva”. Identificados na referida publicação estão, por exemplo, o coletivo LGBT “Braga Fora do Armário” (a piada faz-se sozinha) e o movimento de estudantes da Universidade do Minho, denominado “Ocupa.um”. No respetivo manifesto de mobilização é referido que “o reconhecimento da Palestina é uma manobra de diversão (…) larguemos os discursos cobertos de mofo que condenam os movimentos de libertação e de resistência (…) queremos a radicalização das ações e que ninguém pare até que toda a Palestina seja livre, do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo.”
Outro grupo de correspondente índole (ainda que de menor expressão), o Occupy for Gaza Portugal, convocou uma concentração no El Corte Inglês de Lisboa, manifestando-se contra o livro O Enigma de Israel, de Henrique Cymerman, considerando que “Resistir é Existir” e que “hoje não é só um dia de luto, mas um dia de luta”.
Se aos olhos dos estimados leitores estas demonstrações de apoio ao terrorismo islâmico são, apenas, o artefacto da caricatura de excitação juvenil (não sendo representativas da falência de determinados aparelhos sociais e institucionais), deixo, de igual forma, outras iniciativas que poderão despertar o interesse dos demais e contrariar essa ideia.
Num comunicado sobre o 7 de outubro emitido pelo Observatório de Estudos da Palestina (OPal) — iniciativa conjunta do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE e do Centro em Rede de Investigação em Antropologia do ISCTE, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (o CEI-ISCTE, segundo dados de 2024, conta com 3 grupos de investigação, 112 membros de equipa, 15 projetos de investigação, 72 publicações e 4 programas doutorais) — é escrito: “No dia 7 de outubro, completam-se dois anos desde o início do genocídio contra o povo palestiniano”. Para surpresa do leitor, não é feita uma única referência ao massacre e às vítimas israelitas. Em vez disso, é mobilizada a participação académica na vigília organizada pelo grupo “Estudantes pela Palestina”, não só enquanto espaço de reflexão, mas sobretudo como “espaço de comemoração”.
Na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, as pupilas de Boaventura e Pureza encontraram, também, uma forma de manifestar o simbolismo alternativo do 7 de outubro.
Intitulada “Hamas e as Políticas de Ocupação”, a open class — inserida na unidade curricular de Terrorismo e Contra-Terrorismo do curso de Relações Internacionais — contém, a título de exemplo, um segmento focado na “forma como os órgãos de comunicação social e redes sociais moldaram a narrativa do 7 de Outubro”, encabeçado pela professora Sofia José Santos, personalidade publicamente ligada ao Bloco de Esquerda de Coimbra. Não estive presente na palestra, mas não posso deixar de imaginar o alcance intelectual necessário para tornar a objetividade de um massacre na subjetividade de estilo jornalístico.
Para que fique claro, da mesma forma que condeno sem hesitação quem vê no 7 de outubro uma escapatória para o sofrimento de Gaza, justificando milhares de mortes civis num cálculo de infinita proporcionalidade subvertida — prática comum do lobby israelita —, também afirmo que a legitimação do terrorismo islâmico — feita pela extrema-esquerda em todos os conflitos do Médio Oriente desde o Século XX — não pode passar impune.
Não há mortes menos importantes que outras, e se durante 364 dias do ano é feita referência ao massacre dos palestinianos inocentes, que seja reservado ao 7 de outubro o importante e pesado luto pelos israelitas massacrados e raptados pelo fundamentalismo islâmico, a quem a paz nunca foi, nem nunca será, opção.