Ao deambular pelo zapping televisivo, encontrei-me, novamente, português. Nós — os portugueses — reagimos com entusiasmo, indignamo-nos como jacobinos, barafustamos sem penitência, vociferamos por Deus e pelo Diabo, até que, findado o zurzir… esquecemo-nos, com alívio, do que sucedera. Somos círios de breve cadência, apóstolos de sazonal indignação… Alcibíades de estreita coluna! Somos tudo e o seu contrário. Nem todos, claro; uns mais do que outros, é certo — mas as generalizações, ainda que padecendo de graves falhas, servirão para alguma coisa.
Desta vez, entre os que desapareceram no nevoeiro da efemeridade (a maioria sem nome), os portugueses decidiram esquecer Tiago Casais, o motorista que, em outubro de 2024, foi encharcado em gasolina e brutalmente incendiado dentro do seu autocarro no desenrolar dos violentos protestos após a morte de Odair Moniz. Tiago deu uma nova entrevista a um dos principais programas da televisão nacional.
Por azar, entre os portugueses que se esqueceram, estavam os decisores políticos que haviam jurado nunca o fazer. Aquando dos acontecimentos, o presidente do “povo”, Marcelo Rebelo de Sousa, apressou-se a telefonar à mãe de Tiago; mais tarde, tiraria uma selfie simbólica com o mesmo. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, ausente em viagem quando tudo se desenrolara, limitou-se a uma video-chamada com o debilitado motorista. Já a ministra da saúde, Ana Paula Martins, e a ex-ministra da administração interna, Margarida Blasco, fizeram uma visita única a Tiago no hospital.
Findadas as atuações (que nem ao mais provinciano teatro serviriam), o Estado Português — a não esquecer, nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa sobre este mesmo assunto, “o garante do triunfo do bom-senso” — fez o que melhor sabe fazer: prometeu o que não cumpre, cumprindo, apenas, o desamparo. Em 1 ano e 2 meses, apenas 2 dos 12 suspeitos foram brevemente detidos, regressando, com inquietante celeridade, às ruas. Os moradores do Bairro da Cidade Nova, conhecendo os delinquentes, recusaram-se a identificar os suspeitos por receio de represálias. Não foi atribuída qualquer ajuda monetária por parte do Estado, nem Tiago foi notificado sobre desenvolvimentos no processo (incluíndo a libertação dos 2 suspeitos) ou abordado por qualquer personalidade do Estado ou do Governo, segundo o mesmo.
O silêncio foi a única diligência que não falhou.
Ao mesmo tempo, e tal como aconteceu nos E.U.A. (com os incendiários e mortíferos motins motivados pela morte de George Floyd), a comunicação social auto-rejubilou-se no cínico altar da defesa dos incompreendidos, procurando o preto no branco que, no País das Maravilhas, Alice jamais encontrou. Para uma parte da opinião pública, motivada pela selectividade ideológica de quem faz — ou não transmite — notícias, tudo o que não encaixe na “narrativa” é sublimemente limado até caber ou, no mais comum dos casos, descartado por excesso de arestas. Tiago não serve — nem nunca serviu — ao comentador do racismo estrutural, ao investigador de estudos africanos ou ao político de extrema-esquerda. Não serve, também, à grande maioria dos portugueses, aos veteranos das manifestações (que vão desde a Avenida da Liberdade aos teclados da vaidade) ou às supérfluas causas dos influencers digitais. Poderá, certamente, servir aos populistas; mas, se tal acontecer, será, apenas e somente, por culpa dos demais.
É precisamente nesse vazio — no esquecimento do português comum — que a impunidade se move. Não, os criminosos que tentaram assassinar Tiago não são uma abstração sociológica, nem uma resolução de estrutural vitimização — são criminosos. Não foi a “tensão do momento”, o “contexto” ou o “clima social” que os motivou ou influenciou. Foram pessoas concretas, identificadas (e previamente conhecidas da Polícia Judiciária), sob plena capacidade mental, que tomaram a orquestrada e deliberada decisão de destruir a vida de alguém que apenas estava a fazer o seu trabalho. Fizeram-no com cobardia e ódio (porque o ódio não se reduz à supremacia branca), com barbárie terceiro-mundista, com o patrocínio ideológico da facção dominante da comunicação social, e voltarão a fazê-lo se o pretexto surgir (tal como tentaram fazer, ainda que sem sucesso, a outros motoristas no decorrer dos tumultos).
Tivesse o autocarro permitido o arranque sem fecho das portas laterais, e fosse Tiago, para sua digna e própria sobrevivência, obrigado a avançar sobre os criminosos, conheceríamos, talvez, um novo Hugo Ernano (o militar da GNR que acabou condenado por uma bala perdida, matando, acidentalmente, uma criança na perseguição ao pai criminoso). O desfecho mudaria de forma, mas nunca de destino: em todas as versões desta trágica história, em Portugal e com o aval dos portugueses, Tiago sairia derrotado e os criminosos permaneceriam em liberdade — o presente é a designação solene que damos àquilo que toleramos.
Quantos Tiagos serão necessários para os portugueses — eu, os leitores do Observador, a restante população… todos! — despertarem da passividade que nos anestesia? Quantas vidas terão de arder, literal e repetidamente, para nos lembrarmos que a eterna indiferença em nada se diferencia da lembrança esporádica e oportunista? Quantas manifestações anti-fascistas, anti-racistas, anti-capitalistas, anti-sionistas, anti-progressistas, anti-imigracionistas, nacional-socialistas, climático-alarmistas, pró-futebolísticas… terão de existir para que um dia os portugueses possam finalmente sair à rua — aos milhares e entre gerações — pela defesa dos verdadeiros injustiçados? Das pessoas reais que lutam todos os dias na clandestinidade social?