A realidade que vivemos como próxima ou que nos é trazida pelos meios de comunicação parece evidenciar que um espectro de inquietação e violência ronda o mundo traduzindo-se em manifestações, na grande maioria de carácter económico-corporativo com alguns “ensaios” de reivindicações políticas. Estado já definido como uma “guerra civil mundial”, aos bocados, a atingir picos extremos: no Médio Oriente, as pessoas matam-se umas às outras por causa de uma parcela de terra ser Israel ou Palestina; na parte do Leste Europeu ou Europa Oriental, de modo semelhante, com centenas de milhares de vítimas…

A realidade é que estamos vivendo uma época marcada por vários desafios: crise humanitária, crise política, crise económica e uma forte negação em relação ao estado crítico em que o planeta Terra se encontra, pelo que a Esperança, como uma vertente no campo da psicologia,  tem-se tornado objeto de estudo contemporâneo,  para que o desenvolvimento humano se possa tornar  melhor , pois não podemos viver sem esperança e precisamos que ela se propague.

Encarando a Esperança a partir da teologia cristã, tenhamos presente a promessa de Cristo   [Jo: 14,1-2] : “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em Mim. Na casa de Meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar”. Em resumo, Jesus pede aos Seus discípulos, que creiam nele e em Deus, e anuncia que Ele irá preparar um lugar para eles (para nós) na Casa do Pai.

As virtudes são hábitos, isto é, formas de habitar o mundo. A teologia distingue entre as virtudes cardinais (Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança) e as virtudes teologais [Esperança, Fé e Amor (ou caridade)] em que as primeiras, como o adjetivo indica, são virtudes principais ou fundamentais e as virtudes teologais não são humanamente adquiridas, mas infundidas divinamente. Como escreveu Tomás de Aquino na sua Summa Theologica: “Essas virtudes são chamadas Divinas, não como se Deus fosse virtuoso por causa delas, mas porque, por causa delas, Deus nos torna virtuosos e nos guia para Si mesmo”, no fundo traduzindo participações na vida divina.

A palavra “esperança” tem origem no termo latino spes, que significa “confiança em algo positivo”. Em resumo, a palavra “esperança” e o verbo “esperar” têm raízes comuns no latim, ambas relacionadas à ideia de confiança, expectativa e desejo de algo positivo que se espera que aconteça, mas a verdade é que a esperança perdeu presença no espaço público e no pensamento contemporâneo e só ela poderá dialogar com o futuro, aproximá-lo.

No conceito católico, a Esperança é uma virtude teologal que se manifesta na confiança em Deus e nas suas promessas, podendo considerar-se que se apresenta desde o princípio da pregação de Jesus, no anúncio das bem-aventuranças, transmitindo-nos que a sabedoria está com os anunciadores da esperança e não com os que apregoam a tragédia.

A Esperança não é uma simples expectativa, mas uma certeza fundada na fidelidade de Deus, uma luz que brilha nas trevas, apelando a confiar nas promessas de Cristo. Uma força viva que ilumina cada passo que se dá, impulsionando a seguir em frente, mesmo quando o caminho parece difícil.

No Antigo Testamento, a Esperança está  viva no povo de Israel enfrentando o deserto e as lutas da vida, por algo maior que os esperava; em Jó, que perdeu tudo, permanecia a confiança esperançosa : “Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra” [Jó: 19, 25].

No Novo Testamento, a Esperança assume um novo significado pois é concretizada na pessoa de Jesus Cristo, que,  em [Jo: 16,33], explicita a verdadeira razão para a nossa esperança: “No mundo tereis tribulações, mas tende confiança: Eu venci o mundo”.

A oração, a meditação nas Escrituras e a participação nos sacramentos são os meios pelos quais podemos cultivar a Esperança fazendo-a ganhar um brilho novo. Estamos vivendo, como Igreja, o Jubileu de Esperança, um tempo de graça e renovação, um convite para olhar para as promessas eternas que se desdobram diante de nós, lembrando-nos que a nossa Esperança não está fixada nas realidades passageiras deste mundo, mas na vida eterna, sendo a nossa existência uma verdadeira aprendizagem da esperança.

Com o olhar para o futuro, uma busca por um mundo melhor e a restauração de tudo aquilo que está em declínio, o sonho por um mundo transformado é a Esperança, colocada acima do medo, que guia o ser humano na procura do que deseja, enfrentando as adversidades da vida, o medo e a angústia, direcionando forças e desejo para outras possibilidades e alternativas, admitindo que as saídas para um futuro melhor não estejam cerradas (definitivamente).

Todavia não pode/deve esquecer-se que em Berlim, em maio de 1933, num ato simbólico, quase  profético, no dia 10 de maio os estudantes nazis atearam fogo a mais de 25.000 livros considerados “não-alemães”, já pressagiando a era de censura política e de controlo cultural que estava para  vir; a queima de livros foi um evento simbólico, prelúdio para a perseguição mais ampla e violenta que se seguiria. O monumento que lembra o acontecido apresenta a célebre frase do poeta Heinrich Heine escrita em 1821: “quando se começa a queimar livros acaba-se queimando pessoas”. E assim foi!

O recurso ao mito para “explicar” é uma prática antiga, onde narrativas simbólicas são usadas para dar sentido em contextos onde a razão e a ciência não constituíam meios validos de compreensão. Na reflexão sobre a natureza enigmática do conceito de Esperança há uma longa tradição de recorrer ao mito do jarro de Pandora para refletir sobre a natureza enigmática deste conceito.

Assim, na mitologia grega, os titãs Prometeu e seu irmão Epimeteu foram encarregados por Zeus de criar os seres vivos e distribuir os dons que garantissem a sua sobrevivência, o que foi feito com uma generosidade, relativamente aos humanos, que irritou Zeus e o levou a retirar-lhes o fogo, como vingança.

Prometeu, desafiando a ordem de Zeus, roubou o fogo do Olimpo e entregou-o à humanidade. Zeus puniu Prometeu, servindo-se de uma figura feminina, Pandora, criada especialmente para seduzir qualquer mortal, e que foi enviada à terra dos homens com um jarro misterioso que não deveria ser aberto. Pandora não conteve a sua curiosidade e decidiu abrir o jarro que Zeus havia deixado para ela, do qual emergiu um conjunto de males que atormentariam a humanidade. Ao tentar fechar o jarro, Pandora percebeu a presença de uma pequena ave no fundo: uma representação alegórica da Esperança, uma expressão da misericórdia de Zeus, que queria punir a humanidade, mas não a destruir dando-lhe o recurso da Esperança para a ajudar a sobreviver na adversidade, mantendo a Esperança fechada, em segurança, para a salvaguardar. O Homem tem agora o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui, que se acha à sua disposição: ele o abre quando quer.

A respeito do referido mito, Nietzsche (1) interpretou que a Esperança, longe de ser um “bem” remanescente em meio a tanta miséria é em si o pior dos males, pois não faz senão prolongar o estado de sofrimento dos homens.  A permanência da Esperança no jarro iria determinar uma permanente frustração à humanidade, conhecedora da presença da Esperança, mas sem que esta se convertesse em realidade, prolongando o tormento humano, portanto um “dom” que, em verdade, seria o pior dos males porque seria ele que faria com que não se enfrentassem todos os outros males, porque se estaria sempre esperando que as coisas um dia iriam melhorar.

Entre o mito e a Parábola dos Talentos (2) [Mt:25, 14 – 30] há uma travessia de esclarecimento. No fundo do jarro de Pandora ficou fechada a Esperança. Para uns, dom último e tesouro resguardado; para outros, ironia cruel, ao prometer sempre um amanhã que nunca chega. Neste abismo de sentidos, move-se a inquietação humana diante do tempo e do sofrimento: é a Esperança consolo ou ilusão?

Na Parábola dos Talentos ressoa uma variação desse drama. Três servos recebem talentos – dons, oportunidades, vida. Dois ousam o risco do “esperançar”: fazem render, multiplicam, agem. Um, porém, enterra o talento. Tem medo. Talvez espere, mas não esperance. Enterra a possibilidade, guarda intacto o dom, como quem sela um jarro, temendo a perda mais do que ansiando o crescimento. E é exatamente este que, por não ter transformado a dádiva em ação, é condenado.

O servo que enterra o talento não é um ímpio. É um esperador. Mas a Esperança evangélica não se deixa enterrar. Não é latência, é fermento. Não é espera passiva, é movimento em direção ao Reino. Como o grão que só dá fruto quando morre na terra, o talento deve ser confiado ao tempo e à ação – mesmo com risco, mesmo sem garantias.

Neste ponto, o “esperar” e o “esperançar” se bifurcam. O primeiro é paralisia com verniz de fé; o segundo, compromisso com o possível. A Esperança que Cristo encarna e propõe é sempre verbo: é fidelidade criadora, é atitude diante da promessa, não letargia diante da incerteza. Enterrar o dom é desconfiar da fecundidade da vida. É recusar o futuro que Deus  chama a construir com Ele.

Do jarro selado ao campo cultivado, a Esperança cristã exige abertura, risco e ação. É “esperançar” com os pés no mundo e o coração na promessa.

O poder da Esperança está na liberdade última de escolher com que atitude serão enfrentados os cenários que ultrapassam a vontade. É um dom gratuito de Deus, que leva à união com Cristo, uma âncora para a alma fortalecendo a fé, impelindo à ação, dando   segurança e estabilidade em meio às tempestades da vida

Ocorre considerar o que escreveu Paulo Freire: (3)

⁠É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…

Portanto, “Esperançar a Esperança” é um convite à ação, à construção ativa da própria Esperança mais do que simplesmente “ter esperança” há que a construir ativamente, em vez de apenas “esperar que algo aconteça”. Esperançar é levantar-se, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…

Estamos, em Igreja, vivendo a época do Jubileu de Esperança que visa ser uma experiência de graça para toda a Igreja, convidando os fiéis a redescobrirem a fé e… a Esperança num mundo marcado por desafios.

Sob o sinal da Esperança, o apóstolo Paulo infunde coragem à comunidade cristã de Roma [Rm: 5, 5], com o objetivo principal da edificação da igreja e a correção de falsas interpretações do Evangelho. A imprevisibilidade do futuro faz surgir sentimentos por vezes contrapostos: desde a confiança ao medo, da certeza à dúvida. Muitas vezes, pessoas desanimadas olham, com ceticismo e pessimismo, para o futuro como se nada lhes pudesse proporcionar felicidade. O Jubileu deverá ser, para todos, um convite   à ação, à construção ativa da própria Esperança mais do que simplesmente de reanimar a esperança! A Palavra de Deus ajuda a encontrar as razões para isso; deixe-se o Espírito do Senhor guiar para o otimismo que é a fé em ação.

Numa época em que se afigura, por vezes, prevalecer o sentimento de que a humanidade está encurralada, sem saída, caminhando para o fim, “ A esperança é uma âncora. Uma âncora que se joga com a corda e afunda na areia. E nós temos de estar agarrados à corda da esperança. Bem agarrados”, como dizia o Papa Francisco, convidando os fiéis a serem testemunhas da “esperança cristã” num mundo onde predominam a desesperança e a desconfiança, porque o ser humano vive neste mundo pela Esperança.

NOTAS
1 Friedrich Nietzsche, um dos filósofos emblemáticos dos finais século XIX defendeu a tese de que a decadência do Ocidente começou quando o discurso filosófico, veio substituir a harmonia representativa  da ambivalência da essência humana, por um discurso das aparências, enganador e ilusório, que transforma a realidade autêntica em metáforas ocas, anunciando  uma nova era centrada na exaltação da vontade de poder, apanágio do homem verdadeiramente livre, o super-homem, que não conhece outros ditames além dos que ele próprio fixa e a quem caberá  dirigir a «massa», anónima e ignorante.
Hitler apropriou-se de certas ideias de Nietzsche, como a vontade de poder e o conceito de super-homem, para justificar a ideologia nazi. Vendo a democracia como um sintoma da decadência moderna, pois “nivelando por baixo”  enfraquecerá os indivíduos fortes, as ideias de Nietzsche parecem ter sido usadas para justificar tanto posições políticas contemporâneas de direita e de esquerda, dependendo da interpretação de seus conceitos.
2 Ou Parábola das Minas, [Lc: 19, 11- 26]
3 Paulo Neves Freire (1921 – 1997) foi um educador e filósofo brasileiro, considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado Pedagogia Crítica.
Apoio bibliográfico
Almeida, N. M. (2017). Busca do Sentido da Vida e Reconciliação Cristã. Roma: Universidade Pontificia Salesiana.
Balthasar, H. U. (2012). Inferno ou Paraiso – o que podemos esperar? Lisboa: Universidade Católica Editora.
Francisco, P. (2024). Esperança: a autobiografia. Lisboa: Penguin Random House.
Halík, T. (2017). Paciência com Deus. Prior Velho: Paulinas Editora.