Perante a Ucrânia,  Gaza e o conflito com o Irão, talvez pareça haver pouco espaço para mais uma guerra. E, no entanto, o conflito mais mortífero deste século não foi nenhum dos que têm ocupado o nosso saturado espaço mediático. Esse infeliz título pertence à guerra do Tigray, travada entre 2020 e 2022 no Norte da Etiópia, que terá provocado mais de 600.000 mortos e milhões de deslocados. A brutalidade deste conflito é difícil sequer de adjetivar. Em 2021, os Estados Unidos classificaram como uma limpeza étnica os atos cometidos contra os tigrínios no Tigray Ocidental, e foram registados massacres e atrocidades de ambos os lados. A guerra acabou por terminar em novembro de 2022 com o Acordo de Pretória. Agora que o conflito na Etiópia regressa, evitar que o Tigray se transforme novamente numa tragédia exige precisamente que alguém olhe para ele.

Menos de quatro anos depois do Acordo, a principal novidade não são os renovados confrontos per se, mas a reorganização, ou melhor, inversão, das alianças regionais. As milícias Fano de Amhara, que combateram ao lado das forças federais contra a Frente de Libertação do Povo do Tigray (TPLF)  de 2020 a 2022, integram agora, juntamente com a própria TPLF, uma nova aliança de sete grupos armados contra o governo federal de Abiy Ahmed. Isto significa que as alianças que sustentaram a guerra anterior estão a ser redesenhadas.

E o impacto desta reorganização vai muito para além das fronteiras etíopes. O Corno de África é uma das regiões de maior valor estratégico do mundo, contendo algumas das terras mais férteis do planeta. As reservas de ouro do Sudão alimentam há anos o conflito e os minerais abundantes na Eritreia e na Etiópia são peças cada vez mais importantes para as economias ocidentais mais desenvolvidas. E é também por aqui, na margem ocidental do Bab el-Mandeb, que passa uma parte substancial do comércio marítimo entre a Europa e a Ásia, uma rota que, com a guerra no Irão, se tornou absolutamente decisiva. Não surpreende, por isso, que a região se tenha tornado um dos principais palcos da disputa por influência entre os parceiros mais próximos do Ocidente no Médio Oriente. Da Turquia à Arábia Saudita, dos Emirados a Israel, estas rivalidades encontram hoje no Nordeste Africano um dos seus principais pontos de ebulição.

A geopolítica no Corno de África é complexa (para o dizer de forma diplomática), mas talvez nenhum país o ilustre melhor do que a Etiópia. A TPLF foi fundada em 1975 para defender a minoria tigrínia dos abusos do poder central em Adis Abeba, sobretudo durante a ditadura Derg. Liderou a ofensiva que derrubou o regime em 1991 e, apesar de os tigrínios representarem apenas cerca de 6% da população, tornou-se durante quase trinta anos a força dominante da política etíope. Esse domínio terminou em 2018, com a ascensão do atual primeiro-ministro Abiy Ahmed, oriundo dos Oromo, o maior grupo étnico do país. Abiy desmantelou de forma quase imediata a influência dos tigrínios no Estado federal.

Em paralelo, Abiy procurou emendar as relações com os seus vizinhos, nomeadamente com a Eritreia, que se tornou independente da Etiópia em 1993 e que, desde a guerra de Badme (1998-2000), vivia com Adis Abeba num clima de tensão permanente. Os esforços de normalização das relações entre os dois países valeram inclusivamente a Abiy o Prémio Nobel da Paz de 2019.

Mas os bons augúrios foram rapidamente desfeitos. Em novembro de 2020, depois de a TPLF atacar o Comando Norte do exército etíope, as tensões entre a TPLF e o governo federal evoluíram para guerra aberta. A Eritreia, de pazes feitas com Adis Abeba, interveio ao lado do governo federal, movida, em parte, pela animosidade histórica contra a TPLF pela guerra de 1998. Abiy teve ainda o apoio das milícias Fano da região de Amhara, que aproveitaram o conflito para assegurar o controlo do Tigray Ocidental, há muito disputado entre amharas e tigrínios. Adicionalmente, os drones fornecidos pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), mas também pela Turquia e pelo Irão, foram decisivos para fazer recuar as forças tigrínias.

Não obstante o fim da guerra ter sido bem recebido, o acordo deixou por resolver muitas das questões estruturais subjacentes. A Eritreia, que desempenhou um importante papel de apoio a Adis Abeba, não foi sequer consultada durante as negociações, o que deixou Asmara com a sensação de ter sido usada e depois descartada pelo seu suposto aliado. O estatuto dos territórios que Amhara ocupou durante a guerra ficou em suspenso, com os tigrínios que foram expulsos dessas zonas a serem forçados a viver há anos em campos de refugiados. A implementação avançou apesar de tudo, mas estas questões acabaram por esvaziar o acordo.

Depois de, em maio deste ano, a TPLF ter reassumido o controlo sobre a região do Tigray, o último prego no caixão do Acordo de Pretória veio no passado dia 20 de setembro, com o anúncio da Aliança das Forças dos Povos Etíopes pela Sobrevivência. A aliança junta sete grupos armados, entre os quais a TPLF, o Movimento Nacional Fano de Amhara e o Exército de Libertação Oromo (OLA), além de movimentos das regiões Somali, Afar e Benishangul-Gumuz, e tem o objetivo declarado de derrubar Abiy. O anúncio desta nova aliança serviu de gatilho para o ressurgimento dos combates no Norte da Etiópia, com confrontos entre forças tigrínias e Fano, de um lado, e o exército federal, do outro, nas regiões de Afar, Tigray e Amhara. Os Fano e a TPLF, que há quatro anos combatiam entre si, lutam agora lado a lado. Esta parece ser, de resto, uma marca característica deste renovado conflito: disputa-se, em grande medida, na mesma área geográfica e entre os mesmos atores, mas as dinâmicas de alianças e apoios transformaram-se radicalmente em menos de quatro anos. As tensões étnicas e territoriais que historicamente opuseram estes grupos não desapareceram, mas ambos aliam-se agora para combater o seu inimigo comum: o governo de Abiy Ahmed.

A mesma lógica pode ser estendida à Eritreia. O presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, foi um aliado decisivo de Adis Abeba contra a TPLF, mas agora aproxima-se cada vez mais da TPLF, colaborando com os seus antigos inimigos por partilhar com eles a desconfiança em relação ao governo de Abiy. A mudança pode, à primeira vista, parecer surpreendente e até contraintuitiva, mas torna-se mais clara se atendermos àquilo que sucedeu após o Acordo de Pretória. Nos anos seguintes, Abiy endureceu a retórica em relação ao vizinho, movido pelo desejo de devolver à Etiópia o acesso ao Mar Vermelho que o país perdeu com a independência eritreia. O primeiro-ministro etíope não podia ter sido mais claro nas suas intenções quando, em 2025, afirmou que recuperar o porto de Assab (na costa eritreia) era “uma questão de tempo”. Para Afwerki, esta ambição é uma ameaça direta à soberania do seu país, e foi um dos grandes motores por detrás da mudança de alianças. Aos olhos de Asmara, as milícias etíopes tornaram-se a forma mais eficaz de manter o governo federal fraco o suficiente para não constituir uma ameaça séria à Eritreia.

E é precisamente aqui que reside o verdadeiro perigo desta nova escalada, com o conflito a poder deixar rapidamente de ser apenas etíope. No momento em que escrevo, os combates estão a intensificar-se e alastram já a várias frentes ao longo das fronteiras do Tigray com Amhara e Afar. Não atingiram ainda os níveis da guerra de há quatro anos, mas a trajetória é clara, e é isso que torna este momento tão urgente. Sobretudo porque o renovar das tensões surge numa altura em que o Corno de África está particularmente instável, com as fronteiras entre os diferentes conflitos regionais cada vez mais difíceis de traçar.

A noroeste, a guerra no Sudão, que opõe as Forças Armadas Sudanesas (SAF), apoiadas pela Arábia Saudita, Turquia e Irão, às Forças de Apoio Rápido (RSF), herdeiras dos Janjaweed, é o exemplo mais evidente. O principal patrono das RSF são os EAU, os mesmos que há quatro anos apoiaram Abiy contra a TPLF e que continuam a ser um dos seus parceiros mais próximos, sendo este o patrono comum que liga os dois conflitos. À medida que as rotas que passavam pela Líbia, de que os EAU dependiam para abastecer as RSF, se foram tornando menos viáveis depois dos ataques egípcios e turcos e da pressão saudita, o território etíope tornou-se uma importante plataforma logística para as RSF.

Daí que, para as SAF, enfraquecer o governo federal etíope seja também uma forma de cortar o oxigénio às RSF, e uma escalada no Tigray oferece precisamente essa oportunidade. Abdel Fattah al-Burhan, líder das SAF, e Afwerki querem, cada um por razões próprias, uma Etiópia mais fraca, e os sinais desse alinhamento já são visíveis. A 4 de setembro, Burhan esteve em Asmara com Afwerki, poucos dias depois de Hemedti, o líder das RSF, se ter alegadamente reunido com Abiy em Adis Abeba. Um avanço da TPLF sobre o Tigray Ocidental contaria, por isso, com toda a probabilidade com o apoio da Eritreia e das SAF, regionalizando dois conflitos que têm sido, até agora, essencialmente internos.

Mas a Etiópia não se deixará relegar para um papel meramente passivo nesta disputa regional. Na sua busca por uma ligação ao mar, Abiy aproximou-se da Somalilândia, região separatista do Norte da Somália, independente de facto desde 1991 e com uma extensa costa sobre o Golfo de Áden, junto ao Bab el-Mandeb. O porto de Berbera, na Somalilândia, é uma possível porta de acesso às rotas marítimas do Mar Vermelho e do Índico. E não é um detalhe de somenos que 51% do porto seja controlado pela DP World, empresa estatal do Dubai. A importância de Berbera para a Etiópia insere-se, assim, numa teia de interesses emiratis muito mais ampla no Corno de África. A DP World desenvolveu o porto precisamente como porta de entrada para o mercado etíope e, em 2021, assinou com Adis Abeba um acordo para desenvolver o corredor terrestre entre Berbera e a Etiópia. É este o enquadramento em que devemos ler o reconhecimento da Somalilândia por Israel, em dezembro do ano passado, o primeiro reconhecimento formal por um Estado-membro da ONU. Israel tem usado a nova relação com Hargeisa para aprofundar a sua presença estratégica na região e alargar o chamado hexágono de alianças de Netanyahu, uma rede de parcerias pensada como contrapeso aos “eixos radicais”: um xiita, liderado pelo Irão, e um sunita, encabeçado pela Turquia.

A rivalidade crescente entre a Turquia e Israel é um dos principais motores destes realinhamentos. Em agosto, o Pacto de Meca formalizou a aliança entre a Turquia, a Arábia Saudita e o Paquistão. Semanas depois, Israel assinou com a Grécia o maior acordo de defesa de sempre entre os dois países. A Grécia e Chipre, dois dos países que Netanyahu inclui no seu hexágono, opõem-se frontalmente à doutrina turca da Mavi Vatan (Pátria Azul), que procura expandir a influência marítima turca sobre águas disputadas. No Egeu e no Mediterrâneo, como no Mar Vermelho, volta a aparecer uma lógica já transversal a este texto: “inimigo do meu inimigo, meu amigo é”.

A Turquia respondeu a estes movimentos reforçando o seu papel de principal patrono do governo somali e condenando a reivindicação de independência da Somalilândia. Embora nem sempre pelas mesmas razões, tanto Ancara como Riade partilham o interesse em preservar, em torno do Mar Vermelho e do Bab el-Mandeb, um espaço dominado por Estados centralizados e suficientemente estáveis para garantir a segurança das rotas marítimas. A Turquia parece procurar aproveitar o vazio deixado pelo recuo norte-americana do Corno de África, assegurando uma plataforma regional de projeção de poder. A Arábia Saudita, por seu lado, tem uma preocupação mais imediata, na medida em que o Bab el-Mandeb é uma das principais vias de exportação do seu petróleo (ganhando uma preponderância ainda maior após o bloqueio do Estreito de Ormuz) e a ofensiva dos Houthis mostrou quão depressa essa rota pode ser interrompida. Daí que a integridade territorial dos Estados da região se tenha tornado uma prioridade para ambos.

A visão dos Emirados parece assentar numa lógica diferente. Em vez de apostar exclusivamente nos governos centrais, Abu Dhabi foi construindo a sua influência a partir de baixo, isto é, através de portos, corredores comerciais e logísticos, exploração de recursos e relações diretas com atores locais, numa rede que se estende da Somalilândia ao Iémen, passando pelo Sudão e pela Líbia. O objetivo não será necessariamente a fragmentação destes vários Estados e Mohammed bin Zayed tem reforçado que os EAU visam desempenhar um papel estabilizador na região. Mas a verdade é que várias alianças e acordos celebrados por Abu Dhabi levam à criação de núcleos regionais e descentralizados de poder, assim como de redes económicas e comerciais que escapam ao controlo das capitais. É esta arquitetura fragmentada que entra em colisão direta com a visão que Erdogan e Mohammed bin Salman têm para a região, uma vez que a maior autonomia dos atores locais apoiados por Abu Dhabi leva necessariamente a uma menor capacidade dos governos centrais para controlar os territórios e as rotas marítimas de que dependem as estratégias turca e saudita.

A guerra do Tigray matou, entre 2020 e 2022, mais pessoas do que qualquer outra neste século e, ainda assim, passou pela imprensa ocidental quase sem deixar rasto. Repetir essa desatenção seria um erro maior agora, porque a guerra que se desenha já não é a mesma. Há quatro anos, a Eritreia e os Fano combatiam ao lado de Adis Abeba, e drones turcos e emiratis serviam o mesmo governo. Hoje, Asmara é acusada de apoiar a TPLF, os Fano combatem lado a lado com os tigrínios, e a Turquia, Arábia Saudita, Israel e os EAU competem de forma cada vez mais direta por influência na região . É precisamente esta evolução que torna o momento tão perigoso. Um conflito que, apesar de toda a sua brutalidade, foi sobretudo etíope arrisca-se a tornar-se o ponto onde convergem as guerras e as rivalidades de toda uma região.