O assassinato de Charlie Kirk, no passado 10 de Setembro, deixou profundamente consternados os Estados Unidos, bem como todos os que defendem a liberdade de expressão. Kirk expunha os princípios cristãos com a inteligente galhardia de um apóstolo que, mais do que vencer, procura convencer, através de argumentos racionais expostos com extraordinária lucidez e caridade.
Chamava a atenção a firmeza das convicções de Charlie, nomeadamente num mundo que privilegia o discurso céptico e relativista, mas não era menos surpreendente a sua capacidade de dialogar com qualquer pessoa, por mais antagónicos que fossem os pontos de vista do seu interlocutor. Fazia-o não ao modo fanático dos fundamentalistas, nem com a violência típica dos defensores do pensamento totalitário, mas de uma forma razoável e amável: por mais agressivo que se mostrasse quem o interpelava, havia da parte de Kirk uma genuína atitude de apreço por essa pessoa, mesmo quando a discordância ideológica era total. Disfrutava com aqueles diálogos, muitos dos quais estão disponíveis na net, e respeitava sinceramente os jovens com quem dialogava: era tão cordial que, mesmo que dele discordassem, ninguém ficava indiferente à sua tão cativante personalidade.
Embora Charlie não fosse católico, era um pensador genuinamente cristão, porque o seu discurso traduzia os princípios do Evangelho. Neste sentido, Kirk estava nas antípodas dos políticos que, como Joe Biden, formalmente se afirmam católicos, mas, depois, desmentem essa condição, promovendo e promulgando leis anticristãs, como as que legalizam o aborto e a eutanásia. Ante o silêncio cúmplice dos políticos ‘católicos’ que transigem com a anticristã ideologia de género, Charlie não teve medo de a enfrentar e desconstruir, não a partir de argumentos de autoridade, mas através da razão, evidenciando a contradição dos seus principais axiomas, que carecem de legitimidade científica.
A coerência de Charlie Kirk foi por muitos apelidada de fanática, fundamentalista e, até, conotada com o omnioso discurso de ódio, numa tentativa desesperada de silenciar, se não mesmo criminalizar, uma voz que, afinal, mais não era do que a expressão sensata do pensamento cristão, do saber filosófico ocidental e da tradição humanista. Na ausência de argumentos capazes de contradizer eficazmente o seu discurso racional, apoiado em evidências irrefutáveis, restava apenas o recurso à violência e ao crime: contra a força da razão, prevaleceu, mais uma vez, a razão da força.
É certo que Kirk também defendia teses políticas opináveis, pois não tinha dificuldade em se afirmar como conservador, mas o seu mais importante legado reside, sobretudo, na firmeza das suas convicções cristãs e na sua extraordinária capacidade para as expor em qualquer ambiente, também diante de audiências manifestamente hostis ao seu cristianismo religioso e ao seu humanismo filosófico.
O estilo do jovem Charlie recorda o discurso de São Paulo em Atenas. Enquanto esperava Silas e Timóteo, o apóstolo “afligia-se no seu interior, vendo aquela cidade cheia de ídolos. Disputava, portanto, na sinagoga com os judeus e com os prosélitos, e no foro todos os dias com aqueles que encontrava. Alguns filósofos epicúreos e estóicos conversavam com ele. Uns diziam: ‘que quer dizer este palrador?’ e os outros: ‘Parece que anuncia deuses estrangeiros’, porque lhes anunciava Jesus e a sua ressurreição.” (At 17,16-18). Só, num ambiente adverso, Paulo cumpre uma missão impossível: “enquanto os judeus exigem milagres, os gregos buscam a sabedoria,” mas ele prega “a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cr 1, 22-23). Não obstante a dificuldade de os converter, ou de os convencer, o doutor das gentes não desistiu e, através de uma sábia argumentação, logrou captar a sua atenção.
São Lucas refere que “Paulo, estando em pé, no meio do Areópago, disse: ‘Homens atenienses, em tudo vos vejo muito religiosos, porque, indo eu passando, e vendo os vossos monumentos sagrados, encontrei também um altar, sobre o qual estava escrito: Ao Deus desconhecido. Aquele, pois, que vós adorais sem o conhecer, esse vos anuncio.” (At 17, 22-23).
Na realidade, os habitantes de Atenas, mais do que religiosos, eram supersticiosos: sendo politeístas, temeram a omissão de alguma divindade e, por isso, acharam prudente levantar aquele altar ao Deus desconhecido, não fosse o dito reagir com fúria contra a impiedade ateniense, pois as divindades pagãs, conhecidas pelo seu mau-feitio, eram pródigas em terríveis maldições, sobretudo quando menosprezadas.
É absurdo, como é óbvio, adorar o que não se conhece, mas Paulo, para conquistar o auditório, em vez de o fustigar com uma impiedosa crítica, foi capaz de o elogiar, através de uma hábil interpretação daquela sua agoirenta atitude. Assim reagira Jesus de Nazaré à afirmação da samaritana de que não tinha marido, embora já tivesse tido cinco, e o homem com que então vivia nem sequer fosse seu marido … (Jo 4, 18).
Charlie Kirk conseguiu reunir à sua volta muitos milhares, senão milhões, de ouvintes, sobretudo jovens, que, mesmo eventualmente discordando das suas opiniões, o ouviam com atenção. Não era um tradicionalista, nem um anacrónico saudosista de outros tempos e eras, como se fosse uma espécie de ave rara, um unicórnio, ou um singular dinossauro que, surpreendentemente, escapara à extinção da sua espécie. Charlie era a primícia de uma nova geração de cidadãos dos Estados Unidos da América, a voz de uma juventude que já não acredita nos caducos princípios do ‘wokismo’. Refutava, de forma brilhante, os defensores do racismo, como também rejeitava, com veemência, os que supunham que odiava a dita comunidade LGBT, quando na realidade os amava, sem aprovar o seu estilo de vida.
Porque era jovem, era generoso e, até, imprudente: entregava-se totalmente às multidões e enfrentava qualquer pessoa que com ele quisesse debater qualquer tema. A sua juventude também se revelou na manifesta insensatez de não se precaver de um possível atentado: foi vítima da sua crença na bondade do género humano, pois supunha que todas as pessoas, também as que o combatiam tão ferozmente, tinham a mesma bondade que abundava no seu coração, de todo alheio ao preconceito e à malícia.
Quando os jornalistas do Charlie Hebdo foram barbaramente assassinados, a 7 de Janeiro de 2015, não tive nenhuma dificuldade em condenar esse vil atentado, colocando-me do lado das vítimas, como fiz no dolorosíssimo escândalo da pedofilia na Igreja. Mas nunca me identifiquei com o estilo agressivo desse semanário pretensamente humorístico, nem com o seu insistente desrespeito pelas identidades religiosas cristã e muçulmana, nem com as suas soezes blasfémias, nem com a ordinarice das suas caricaturas do sagrado, nem com a sua detestável maledicência e, sobretudo, com a sua miserável ofensa do santo nome de Deus. Por isso, embora condene absolutamente, agora como então, o vil atentado de que foram vítimas esses jornalistas, nunca fui, nem serei, com a graça de Deus, esse Charlie laico e decadente. Mas identifico-me com este outro Charlie, que é firme nas suas convicções e amável no trato com todos, sem excepção, no indefectível testemunho da certeza e beleza das razões da esperança cristã (1Pd 3, 15).