Os (possíveis) erros de Zelensky

Uma crítica frequentemente atribuída ao presidente Voloymir Zelensky é que ele não foi capaz de estudar o ambiente e a dinâmica da Sala Oval da Casa Branca, durante o último dia de Fevereiro passado. Talvez possamos dizer que ele foi tentar perceber demasiados espaços, ou confundiu um deles com vários.

Quero dizer com isto que, antes de se reunir com o Presidente Trump e o Vice-Presidente J.D. Vance, Zelensky encontrou-se com membros do Partido Democrata notoriamente hostis ao actual presidente dos EUA. Foi nos seguintes termos que o Senador Chris Murphy, numa publicação do X às 11:15 da manhã de 28 de Fevereiro de 2025, descreveu a sua conversa presencial com Zelensky: “Acabei agora de ter uma reunião com o Presidente Zelensky aqui em Washington. Ele confirmou que o povo ucraniano não apoiará um acordo de paz falso, em que Putin recebe tudo aquilo que quer e no qual não há garantias de segurança para a Ucrânia”. Um facto que, infelizmente, não foi divulgado em alguns artigos da imprensa norte-americana foi que, na mesma reunião, para além do próprio Murphy, também estavam presentes a Senadora Amy Klobuchar, uma Democrata do estado do minnesota, e o Senador Lindsay Graham, um Republicano da Carolina do Sul (e longe de ser um anti-Trumper).

Deparei-me, especialmente nos artigos da imprensa norte-americana, com muitas sugestões de que o presidente ucraniano tinha confirmado a Murphy (e, provavelmente, a outros Democratas) que jamais assinaria qualquer acordo baseado numa proposta de Trump. Na minha opinião, tudo o que Murphy fez foi continuar a despejar meditações de quem ainda não se cansou de aquecer as relações entre os EUA e um dos países mais lesionados da Europa de Leste. E, às tantas, sem uma prévia discussão sobre a forma como o encontro deveria ser publicitado. No entanto, se Zelensky concordou com as conclusões do senador democrata, então deu a entender aos membros da administração Trump, em especial o presidente e o vice-presidente, de que estava em solo americano a extorquir tempo a Trump e a Vance desnecessariamente.

Muito provavelmente, teria sido tudo muito mais calmo se o chefe de estado ucraniano tivesse dialogado presencialmente com a oposição à administração Trump e com políticos exteriores à sua administração, ainda que alguns deles filiados ao Partido Republicano, depois de se ter reunido com os verdadeiros anfitriões, que são o presidente e o vice-presidente dos EUA.

Um outro erro de Zelensky foi desvelado pelo secretário do tesouro dos EUA, Scott Bessent, durante uma entrevista à Fox News dada em Março de 2025. É importante referir que este oficial do governo também esteve presente na famosa e triste reunião da Sala Oval, a 28 de Fevereiro. Bessent culpou o presidente ucraniano de não ter tido assinado, até ao momento, um “acordo de parceria económica” que assinalaria o dia em que “a Ucrânia e os EUA entrelaçariam as suas expectativas económicas” e de estar “habituado a uma liderança americana que é fraca”. Isto num contexto em que, para o oficial governamental, nunca foi tão importante “enviar um forte sinal à Rússia” de que os EUA e a Ucrânia detêm “valores” e “interesses económicos comuns”, enquanto a administração Trump faz os possíveis para provar aos eleitores (e cidadãos) norte-americanos que as receitas provenientes dos impostos não estão nem serão utilizados em vão. Outro atropelo de Zelesnky foi ter recusado assinar um acordo de minerais em duas ocasiões precedentes: primeiro, numa reunião que teve com Bessent em Kiev; segundo, aquando da Conferência de Segurança de Munique, quando um acordo lhe voltou a ser proposto pelo vice-presidente J.D. Vance e pelo secretário de estado dos EUA, Marco Rubio. Para o secretário do tesouro, o que Zelensky tinha para contar e contestar poderia tê-lo feito num convívio de cerca de um quarto de hora na sala de jantar da Casa Branca, depois da reunião oficial. Mas já lá voltamos.

Os (possíveis) erros de Trump

No dia 19 de Fevereiro deste ano, o presidente Trump chamou ao presidente Zelensky, num posto seu na rede social Truth Social, um “ditador sem eleições”, com “valores muito baixos nas sondagens ucranianas” e nada mais do que um estadista qualificado “para tratar Biden como um violino”.

Mas, como escreve Yulya Bidenko, uma académica visitante do think-tank Carnegie Europe for International Peace, no seu artigo “How Ukraine Remains Resilient, Three Years On”, publicado a 25 de Fevereiro de 2025, os valores da taxa de aprovação do presidente ucraniano têm ascendido significativamente, tendo chegado, em Fevereiro deste ano, aos 57% (segundo uma sondagem do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev) ou aos 65% (segundo uma sondagem feita pelo Rating Group).

Para além de a lei ucraniana reconhecer a impossibilidade do desenrolar de eleições durante a vigência da lei marcial, a maioria do público ucraniano (63%), segundo uma sondagem de Outubro do ano passado feita pelo Centro Razumkov, opõe-se à marcação de um período eleitoral antes do fim da guerra.

O presidente Trump também pode ser criticado por ter mandando o secretário de estado norte-americano reunir-se com Sergey Lavrov, o ministro dos negócios estrangeiros russo, na Arábia Saudita, com o propósito do restabelecimento das relações diplomáticas com um país invasor, ao passo que o presidente Zelensky recebeu, da parte dos EUA, a 20 de Fevereiro de 2025, um oficial governamental com muito menos responsabilidades, que foi o enviado especial Keith Kellog.

Por um lado, acho compreensível achar que o presidente ucraniano, ao ter rejeitado não menos de três vezes uma proposta do governo norte-americano para estabelecer ou reforçar uma parceria económica destinada a dar recursos a duas partes interessadas em proteger e reconstruir um país fronteiriço com a Rússia, abusou do tempo e da paciência dos titulares do poder executivo dos EUA. Por outro lado, não me surpreende que Zelensky queira que um acordo tão importante seja assinado na presença do chefe de estado de um país invadido e do líder do país que “tem as cartas”. Isso para mostrar a Putin que a Ucrânia e os EUA se continuam a dar bem, apesar de membros da administração Trump não se recusarem a encontrarem-se frente a frente com funcionários e representantes do governo russo.

O jornalista britânico Con Coughlin, no seu artigo “Zelensky Agrees to Trump’s ‘Marshall Plan’ for Ukraine”, publicado no website do Instituto Gatestone a 5 de Março de 2025, sugere porque é que o presidente dos EUA não esconde nem hesita ter conversas algo acesas com o presidente ucraniano: “Trump acredita claramente que é importante para ele adotar uma linha dura com Zelensky, para demonstrar a Moscovo que ele está a agir como um “mediador honesto” para acabar com a guerra e trazer Putin à mesa para uma negociação séria. Se o líder dos EUA for visto como muito complacente com a Ucrânia, isso simplesmente confirmará a suspeita de longa data de Putin de que os EUA e os seus aliados — incluindo a Ucrânia — estão a trabalhar para minar o estado russo.”

O acordo de 28 de Fevereiro: desprovido de garantias de segurança?

Afinal de contas, o propósito principal da visita de Zelensky aos EUA, na última sexta-feira de Fevereiro, foi a assinatura de um acordo que permitiria aos EUA um acesso mais amplo a minerais de terras raras ucranianos. O conteúdo do acordo parece ter correspondido a um entendimento prévio de que os dois países, para terminar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, deveriam construir um “fundo de investimento conjunto” para financiar a reconstrução da Ucrânia do pós-guerra.

Coughlin, ainda no artigo referido acima, menciona que o documento do acordo é explícito quanto aos resultados revistos do envolvimento de Washington: “manutenção de um compromisso financeiro de longo-prazo com o desenvolvimento de uma Ucrânia estável e economicamente próspera”. Segundo o mesmo documento, a Ucrânia teria de contribuir com 50% das receitas futuras dos minerais, do petróleo e do gás natural explorados pelo estado ucraniano para o tal fundo de investimento, fundo esse que seria empregue para “promover a segurança, a proteção e a prosperidade da Ucrânia. Trump acabou por renunciar à demanda de que a Ucrânia pagasse 500 biliões de dólares em receitas de minerais para compensar pela ajuda financeira de 350 biliões de dólares que Washington tinha dado a Kiev para travar ou para resistir à invasão russa.

E chegámos a uma questão que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser feita pelos mais atentos e respondida pelos mais entendidos, influentes e poderosos: será que, se o acordo, ou um acordo semelhante capaz de o substituir, vier a ser assinado, deixará de haver razão para falar em garantias de segurança? A divergência entre Zelensky e a administração Trump poderá resumir-se a isto. Porque, enquanto o presidente americano acha que a presença de cidadãos dos EUA em solo ucraniano dissuade qualquer país de voltar a invadir a Ucrânia, o presidente de um dos mais torturados países da Europa de Leste parece entender que é preciso ir mais longe. Noutra oportunidade, podemos centrar-nos mais nisto.

De qualquer forma, acho que seria benéfico para o mundo ver um agressor como Putin desiludido ao perceber que a reunião de 28 de Fevereiro foi um episódio curto numa longa história da política externa norte-americana. Espero que a administração Trump sinalize ao “czar disfarçado de presidente” russo que a ordem mundial que ajudou a construir não permite que determinados países pequenos sejam inconsequentemente incomodados pelos maiores e mais vorazes.