Não posso provar que os polícias que assassinaram George Floyd são racistas; não tenho provas que o polícia que lentamente o asfixiou é racista e não o teria feito a alguém branco ou pertencente a uma etnia que ele possa pessoalmente sentir como “mais decente” ou “tolerável”. Tal exercício poderá apenas ser articulado por alguém íntimo dele, do seu círculo mais próximo e, mesmo assim, poderá ser especulativo e enviesado.

Digo isto pois impressões, crenças e ideologias pessoais não prestam contas à realidade; necessitamos de dados o mais concretos possíveis para os analisar e chegar às conclusões possíveis com os factos disponíveis ao dia de hoje. Existem pessoas que querem acreditar que sim, movidos pelas suas crenças e ideologias, tal como existem pessoas que querem acreditar que não, igualmente movidas pelas suas crenças e ideologias.

Entrando na máquina do tempo, aquando tocava em uma banda a qual tínhamos algumas letras contra o fascismo, racismo e outras desigualdades sociais, em muitos concertos pelo país, pelas redondezas do sítio do evento, múltiplas vezes tivemos a presença de gangs neonazis à espera de apanhar alguém que fosse ao concerto para poderem cometer algum tipo de crime por ideologia ou motivação racial. Por tal, os factos e a realidade fazem com que possa sem margem de dúvida afirmar que existem movimentos pró-ditadura em Portugal, mas jamais em tempo algum, posso alegar que Portugal é um país fascista. A não ser que a minha experiência pessoal e percepção servissem aquilo em que quero acreditar, apenas olhando para as partes  que apoiam a minha crença, servindo de porta giratória para uma fantasiosa e delirante certeza enciclopédica do que é a realidade (por mais errático que seja o meu pensamento).

A relativização do mal poderá tentar branquear a realidade com, a título de exemplo (geralmente é este o nível): “mas se calhar aconteceu todas essas vezes eles estarem por perto, não podem provar”. Não me vou alongar, mas algo me diz que se tivéssemos músicas a elogiar Salazar e em prosa cantando o quão elegantes eram os calções da Mocidade Portuguesa, eles estariam no público a torcer por nós e não em esquinas.

Por tal, experiências pessoais, intuições, posts de redes sociais, vídeos com opiniões pessoais, letras de bandas, vídeos do youtube, notícias de jornal ou ideologias de grupo de nada valem para a realidade se não estiverem de acordo com a veracidade dos factos e dados etiológicos, estatísticos, demográficos, epidemiológicos, e claro, com estudos o mais rigorosa e cientificamente bem executados (que são raros).

Os dados e a relativização do mal

A relativização do mal pode ser considerada como uma intencional ou inconsciente forma de atenuar, minimizar ou branquear um tópico, tentando reduzir a complexidade do assunto, a sua importância e até banalizar o crime. As pessoas fazem-no pelas mais variadas razões: para defender a sua crença ou ideologia, para conseguir um enquadramento com a informação que dispõem que faça do acontecimento algo compreensível, até como uma defesa a sentimentos de repulsa (por vezes do próprio).

George Floyd não foi só vítima de um assassinato em praça pública; é agora, após falecido, vítima da relativização do mal. Das mais variadas formas podemos ouvir frases tais como “mas quando o outro morreu ninguém fez nada” –– como se a falta de indignação por um crime justificasse a continuidade e tolerância por outros; “todas as vidas importam” –– obrigado pela informação, está escrito na Declaração Universal de Direitos Humanos e também na Constituição, todavia o ponto crucial neste caso é o excedente número de mortes de cidadãos de etnia negra, pela história, às mãos de certos polícias; “quando morreu o senhor de Cabo Verde ninguém disse nada, são uns hipócritas” — anuncia um partido de extrema-direita, fazendo o mesmo que sempre fizeram: relativizar o mal para maior visibilidade de marketing, continuar a seduzir os adeptos com as suas vacuidades pseudomoralistas e fora da realidade. Um pequeno detalhe em relação ao último caso: um crime devido a paixão e traição foi cometido por um indivíduo de etnia cigana (façam as contas porque evocam esse crime e não outro tão igual ao mesmo).

São três pequenos exemplos de como se relativiza o mal em prol de ideologias e crenças pessoais. E assim segue o branqueamento da possível casualidade escondida do crime e, a banalização do mal. Na África do Sul, durante o apartheid, era banal um negro morrer por muito pouco ou nada.

Não, uma pessoa morrer não justifica o silêncio continuo para com o crime; não, a morte de George Floyd às mãos da autoridade em praça pública não é o mesmo que um crime de amores e vingança — acarreta consigo um peso político, institucional e epidemiológico.

Com a relativização do mal, vem o conceito de Pós-verdade, ou seja, além de não haver o esforço intelectual (muitas vezes pelas razões mais sinistras) para tentar compreender os factos objectivos do tema, além de relativizar, proporcionar uma carga emocional ao tema, distorcendo a realidade a um ponto em que o que dito é falso, apenas popularmente apoiado devido à sua carga emocional e não pela realidade.

O terceiro exemplo acima sublinha o conceito de pós verdade — a falsidade da “hipocrisia” (que não é, pois são assuntos completamente diferentes tanto de qualidade como de significado), fazendo assim uma ilusória tentativa de comparação com o apelo à emoção. Para quem tem medo, desempregado, mal pago e/ou se sente injustiçado, com algumas possíveis frustrações na vida pessoal, encontrará no apelo à emoção uma verdade inabalável que acomode a sua vida emocional e que o faça sentir pertença a um grupo. E um grupo ideológico necessita sempre de um bode expiatório e de uma falsa ou realidade distorcida.

Mas absolutamente nenhum ilusionismo político, mediático, ideológico e social muda a realidade.

Direito à revolta?

A demonstração de revolta deve ser pacífica. Soa lindamente em teoria e em nota estritamente pessoal, estou plenamente de acordo. Napoleão poderia estar menos — deixo aqui a minha contribuição para a relativização, vá.

Claro que um negro, aprendendo a sua própria história de escravidão e subserviência ao branco (e ter de a aceitar como História e fazer exames no secundário acerca do mesmo) poderá não sentir a palavra como eu com vergonha, mas sim com secreta humilhação, a título de exemplo.

Mas não só a sua própria história. Na actualidade seria descontextualizar que um americano negro seja duas vezes e meia mais propenso a ser morto pela polícia? Atenção que estes dados não são em si de maneira nenhuma prova de nada em relação a racismo e/ou abuso policial. Apenas que são mais propensos. Os dados são claros. Identificar onde e a que nível.

Podem cometer mais crimes? Não. A maioria dos crimes são cometidos por indivíduos de etnia branca, todavia parece que o fantasma do eterno perpetuador recai sobre os negros.

O que necessitamos é equidade, igualdade e educação? Claro que sim. Há milénios que é o mais necessário, contudo não fica fácil quando escolas em bairros de maioria de etnia não-branca recebem em média menos 23 biliões de dólares de financiamento no total. Sim, leram bem. Diria até, leiam mais um pouco. E mesmo quando a equidade está em pé de igualdade entre etnias, continua a existir desvantagem para o negro.

Os dados não apontam para que só igualdade seja solução, continua a existir racismo.

Independentemente das variáveis nas estatísticas, quando o fantasma da história ainda pesa no inconsciente coletivo de uma etnia, será a racionalidade na revolta um decreto fácil de cumprir, pergunto? Seria para o leitor?

Será que independentemente das hipóteses de educação, a pobreza seja um impedimento a nível neurológico que se apresente como uma grande barreira para que a criança tenha a capacidade emocional de aprender, como ambientes tóxicos em crianças pobres pode afetar os genes e contribuir para uma herança intergeracional da pobreza? É.

Apenas comentei com evidência científica, quem sabe, talvez 1/20 da temática da pobreza a nível político, social e neurológico. A realidade parece complexa? É, muito.

Proponho a pergunta: até que ponto o racismo interfere com a pobreza e a desigualdade?

A culpa é do criminoso quando comete um crime? É.

Proponho segunda questão: o que mantém as condições para a continuidade do crime? A comunidade negra, a cigana? Brincamos? Ou será uma constelação de fatores políticos, evolutivos, económicos e sociais?

Não existem respostas fáceis a problemas extremamente complexos. Mas o racismo existe — facto. George Floyd foi assassinado em praça pública — facto. Uma fasquia da sociedade relativiza e assobia para o lado cantarolando respostas sem nexo — facto.

Ou então os dados e os factos não existem, a realidade não existe ou é moldada à satisfação do consumidor no hipermercado de ideias-feitas e tudo isto, utilizando a expressão de Rui Zink, é um complô larilo-judaico.

Estará na hora em parar de banalizar o mal com a relativização e intelectualização? Está há muito tempo.

Não contribui nada mais para a desinformação, descriminação, impede o ensino ao pensamento crítico e reflectivo e, invariavelmente, com suas respostas simples e clichés, contribuem para a infantilização da população, a qual o psiquiatra Ricardo Paiva Lopes designou como um mundo “gugu-dada”.

Despeço-me com as palavras de Karl Popper:

Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos uma tolerância ilimitada até aqueles que são intolerantes, se não estamos preparados para defender uma sociedade contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles.”