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Biologia

A ignorância e o abuso de “raça” no extremismo da política inimiga da Ciência e do Humanismo

Autor
  • Miguel Mealha Estrada
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As pequenas diferenças que se notam no Homo sapiens são fatores adaptativos à área geográfica onde vivem, que influencia a cor dos olhos, a pigmentação da pele, a altura, entre outros poucos elementos

Num mar de desinformação científica, o qual inclui a genética, assistimos cada vez mais à proliferação da iliteracia científica, muita com intuitos nefastos com o propósito de consolidar o populismo que cimenta as políticas extremistas, alimentando os mais vulneráveis com respostas falsas, não científicas e exponencialmente perigosas.

Mas, ideologias à parte, vamos dar uma olhada à realidade e ver o que nos diz a ciência. Como irão ver, o assunto é extremamente complexo.

Se olharmos para a história da taxonomia do conceito de ‘raça’, entramos num oceano de disparidades pseudocientíficas (embora tenhamos em conta o rudimentar conhecimento científico da altura, e por tal temos de dar um desconto). Já no começo da ciência europeia moderna, podemos atribuir no século XVIII o início da arte da taxonomia botânica, animal e humana ao botânico e médico Carl Linnaeus. Foi provavelmente o pai da taxonomia do mundo vegetal e animal.

Contudo ainda nos dias de hoje temos cientistas que abusam e deturpam a ciência perante as suas convicções ideológicas e políticas. Existem cientistas que são aliados à extrema-direita, deturpando a ciência à medida da sua crença. Mas talvez o pior sejam os cientistas bem-intencionados (felizmente cada vez menos) que continuam a usar uma terminologia taxonómica que sugere o conceito de ‘raças’, pelo único propósito de se referirem a um grupo, confundindo ainda mais a ciência.

Mas afinal o conceito de raça existe?

A realidade é que é absolutamente inútil tentar dividir a nossa espécie Homo sapiens em termos de raça. Tem sido demonstrado cada vez mais que subdividir o Homo sapiens em diferentes unidades raciais, numa análise objetivamente científica, é uma tarefa falaciosa e completamente inútil.

Mas porquê? Bom, aqui entra a complexidade da coisa.

A biologia molecular comparativa continua o seu estudo em foco geográfico para determinar diferenças entre populações, e não fazer algum atentado à taxonomia de ‘raça’. Isto é ciência.

Sem dúvida nenhuma que ainda existe debate dentro da ciência em relação às diferentes possibilidades de taxonomias entre populações e nos métodos científicos para atingir consenso. Isto é saudável, pois existe a necessidade, para compreender e estudar os nossos ecossistemas e biodiversidade, de uma linguagem que denomine um certo tipo de conhecimento.

Contudo o que os cientistas reconhecem que tais métodos não são aplicáveis para a classificação de variantes dentro das próprias espécies, que são as unidades fundamentais de análise quando examinamos e estudamos a estrutura da vida.

O Homo sapiens é o recém-chegado da nossa linhagem evolutiva. Em termos evolutivos, fisicamente as variações na nossa espécie são na realidade uma minoria em relação à totalidade do genoma, e só podem ser compreendidas através do prisma do nosso processo evolutivo e geográfico.

A variação entre espécies é extremamente crucial para a sobrevivência e adaptação da nossa espécie. Relembremo-nos que a evolução não se foca de maneira nenhuma com uma finalidade de atingir uma perfeição, e nem sempre se conforma ao fenómeno de adaptação para evoluir como se pensava. Já Charles Darwin sublinhava que o essencial à evolução não é propriamente adaptação, mas sim o conceito de variação, tanto entre espécies, como muito importantemente, intra-espécies. E porque é a variação numa espécie essencial à sobrevivência e evolução dessa espécie? Simplesmente porque a variação consegue oferecer a melhor solução a algum problema adaptativo. Se há um problema evolutivo, por exemplo, a nível de doença, se não existisse variação que pudesse oferecer a melhor resposta a esse problema, o problema ficaria com as ferramentas genéticas que existissem, muito provavelmente guiando-nos à extinção.

Vamos agora dar uma breve olhada em algumas problemáticas na replicação do ADN, pois é essencial compreender este aspeto. É precisamente este aspeto de replicação que é extremamente importante em como atua o conceito de variação entre espécies e se elimina cientificamente do vocabulário o termo de ‘raça’.

O ADN é a peça central à reprodução de organismos, que também nos elucida em relação à grande diversidade em que a vida no planeta evolveu. Contudo a nota preliminar e importante é termos a noção que a replicação do ADN não é sempre exata. Na realidade alguns defeitos e erros podem ocorrer e até com alguma frequência. Estes defeitos e erros têm a denominação de mutações.  

Vários fatores podem gerar este fenómeno. Vamos ver por exemplo o caso Seleção Natural: esta irá dar atenção a uma nova variante ou mutação em 3 sentidos diferentes. Pode ver a mutação como benéfica, em que então irá ficar em favor (e propagar) essa mesma nova mutação; pode ver essa mesma mutação como patogénica, e pelos seus mecanismos eliminar essa mesma mutação da população; ou poderá considerar essa mutação como neutra, à qual não dará importância.

Aqui entramos na área complicada na taxonomia da temática de ‘raça’. Qualquer subdivisão de uma espécie em subespécies não é geneticamente e em termos taxonómicos viável, pois não existem hipóteses de objetivamente e cientificamente em determinar a identificação de diferenciação de subespécies. Neste prisma o processo de reprodução não tem implicação, ou qualquer outro critério pois não passa de semântica subjetiva.

Na realidade, as pequenas diferenças que se notam no Homo sapiens são fatores adaptativos à área geográfica onde habitam, que influencia a cor dos olhos, a pigmentação da pele ou a altura entre outros poucos elementos.

A cultura também exerce um peso em certas diferenciações — contudo a falta dela, especialmente a científica, exerce um peso maior, quando a beleza da biologia e ciência cai nas mãos dos ignorantes, que usam a complexidade da biodiversidade para alimentar crenças populistas. Mais uma vez faz-se um apelo ao governo para que insista na educação científica da população, pois a falta dela certamente alimenta o extremismo, a ignorância, a intolerância e um atalho ao supermercado do pronto-a-pensar.

É desta ignorância que se alimenta a extrema-direita, pois é fácil compreender o mundo com a ignorância. Saber dá mais trabalho, mas compensa.

O conceito de ‘raça’ é um constructo social. Só existe uma espécie: Homo sapiens.

Especialista em Neurodesenvolvimento

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