Montenegro perguntou no debate quinzenal da passada sexta-feira — “Uma greve geral porquê? Uma greve geral para reclamar o quê?”. Bem sei que no mesmo país, nem todos vivem no mesmo país. Eu tenho 24 anos e vivo num país onde muitos jovens ouvem os governantes cantar uma promessa de futuro, mas os jovens sabem que até mesmo dizer que o futuro está adiado é um eufemismo. O futuro não existe. Muitos de nós saem da faculdade já com o futuro espezinhado, com promessas de estágios remunerados, mas não há vagas nem dinheiro, nem no Estado nem no privado. Vou dar o exemplo dos psicólogos, porque estou dentro do assunto. Oferecem-nos trabalhos de 40 horas por semana, alguns a receber 600 euros a recibos verdes. Pedem que tenhamos viatura própria, e nós, com 22, 23, 24 anos, acabados de sair de um mestrado, rimo-nos a perguntar aos nossos botões onde está o dinheiro para pagar esse carro, essa gasolina, esse estacionamento, esse seguro (e essa casa que supostamente já estávamos na idade de tentar arrendar) quando tantos acabaram de pagar um curso e ainda trabalharam ao mesmo tempo para o pagar. Dizem-nos que com essa viatura imaginária, o trabalho é andar entre Caparica, Amadora e Sacavém a visitar escolas e a apagar fogos de crianças, adolescentes e pais. Mas no SNS, os psicólogos ainda são um mito, apesar do tanto que se falou de saúde mental durante e após a pandemia. O SNS está a rebentar pelas costuras, só nos primeiros 9 meses deste ano, 25% das chamadas ficaram por atender, mas sabem o que é preciso para ser psicólogo e atender telefones na Linha do SNS 24? Eu digo. Não bastam os 5 anos de curso, licenciatura e mestrado, mais 1 ano de estágio profissional, é preciso ainda formações específicas que incluem 100 horas de terapia pessoal e 150 horas de supervisão com um psicólogo sénior. Alguém me quer informar sobre quem é que paga ao recém-formado as 100 consultas de psicologia a que o próprio tem de ir, mais as 150 horas de supervisão que tantos psicólogos séniores andam a cobrar porque também ninguém lhas paga? Conclusão: não há gente para atender os telefones e o SNS continua entupido. Aliás, até há gente para atender os telefones, mas parece que é preciso mais do que um doutoramento para lá chegar. Greve? Mas para quê?

Esta é apenas a minha experiência, podia acrescentar várias de tantos outros portugueses que as descreveriam certamente melhor do que eu porque ainda não lá cheguei. A do jovem casal de 35 anos a ganhar 1300 euros por mês cada um, que partilha casa com os pais e que não sabe até quando vai adiar o projecto de família; a da mulher de 55 anos que adia a saúde física e mental porque não tem médico de família, porque a consulta no SNS está marcada para janeiro de 2027, porque não tem um seguro de saúde que lhe permita suportar as despesas de ir ao privado; o avô de 78 anos, que entre os medicamentos, a renda e a alimentação, já lhe custa dar os 20 euros que sempre deu aos netos de vez em quando. São lamechices? Não, são as nossas vidas. O que significa ter a “economia do ano” num país com 2,1 milhões de pessoas à beira da pobreza?

Montenegro fala “de jovens engenheiros, informáticos que fazem questão de não assinar vínculos permanentes (…) livres para saltar de empresa em empresa”. Mas talvez Montenegro não saiba que não há apenas jovens informáticos, engenheiros, gestores… há jovens jornalistas, tradutores, psicólogos, professores, advogados, etc, confrontados com as exigências de um mundo cada vez mais tecnológico, cercado pela inteligência artificial. Nem todos os jovens têm o luxo de poder escolher saltar entre empresas robustas. Culpar PS ou PSD pelo descalabro a que chegámos? Sim e sim. Em 2025, num mundo que hipocritamente se quer mentalmente saudável, há quem pense na possibilidade de aumentar o “período normal” de trabalho para mais 2 horas diárias. Tudo, supostamente, em prol da liberdade do trabalhador, para ser o maior empreendedor da sua aldeia e para poder saltar alegremente de empresa em empresa. Montenegro vive num mundo que só existe para alguns.

Talvez a ideologia política seja uma espécie de fatalismo. Acreditamos naquilo que é a nossa vida, a nossa bolha, sem percebermos que a nossa vida pode ser mesmo isso, uma bolha. O Y. tem um emprego seguro até à reforma (e sabe que mesmo se o emprego fugir, está seguro financeiramente); teve uns pais, uma herança, que lhe puderam dar uma casa em Lisboa ou no Porto; saiu da faculdade e teve logo um emprego à sua espera; tem dinheiro suficiente para nem conceber ficar 1 ano à espera de uma consulta no SNS. Porque é que o Y há de entender a greve? Greve? A greve é para aqueles que vão ter de arranjar uma casa sem ajuda de ninguém; é para aqueles que voltaram para casa dos pais porque o dinheiro não chegava para a renda; é para aqueles que ainda não têm viatura própria aos 23 anos; é para aqueles, coitados, que ficam 18 horas à espera nas urgências. Greve? Greve é para os do outro mundo. Eu vivo na minha bolha. Greve? Eu também gostava de não entender a greve.