Sempre acreditei que os verdadeiros super-heróis não usam capa. E acredito, cada vez mais, que são as crianças a ter um papel primordial numa das batalhas mais importantes da nossa saúde: a prevenção e o controlo da hipertensão arterial.
A hipertensão arterial é um dos fatores de risco cardiovascular mais prevalentes, integra o grupo das doenças crónicas não transmissíveis, que representam um dos maiores desafios de saúde pública. Pelo seu caráter silencioso e assintomático, apresenta dificuldades de adesão ao tratamento, resultando em controlo insuficiente e consequente aumento de complicações cardiovasculares (enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral, doença arterial periférica). Assim, melhorar a literacia em saúde, promovendo conhecimento sobre a doença e estilos de vida saudáveis, é essencial.
Precisamos de novas formas de falar de saúde!
É neste contexto que nasce o projeto “Heróis contra a Hipertensão”, um programa educativo para crianças entre os cinco e os dez anos, com o objetivo de aumentar a consciencialização sobre a hipertensão arterial e incentivar práticas saudáveis desde cedo. Recorrendo a histórias, jogos e personagens, procura-se explicar, de forma lúdica, envolvente e acessível, o que significa ter pressão arterial elevada e como podemos preveni-la.
Inspirámo-nos nas divindades egípcias para criar heróis com identidade forte e valores universais: Hathor, Thoth e Anúbis — juntos, formam a sigla HTA. Cada um deles é guardião de um pilar essencial: escuta emocional, conhecimento e ação. Ao lado dos heróis surgem vilões como o Sr. Salgado ou o Capitão Stress, que simbolizam os maus hábitos que tantas vezes se instalam nas nossas vidas. Esta linguagem visual e narrativa facilita a compreensão e aproxima as crianças de conceitos que, de outra forma, seriam abstratos.
Mas por que razão apostamos nos mais pequenos? Porque sabemos que são curiosos, recetivos e influentes. Porque é nesta idade que se consolidam hábitos de vida, e porque as crianças têm uma capacidade única de levar a mensagem para casa. Ao levar um jogo ou um e-book para partilhar com irmãos, pais e avós, a criança transforma-se em mensageira da saúde, criando diálogo intergeracional e inspirando mudanças em toda a família.
O projeto tem várias etapas: e-books, jogos interativos, desafios para casa. E não queremos que fique por aqui. Propomo-nos a avaliar o impacto real destas ações — antes e depois das atividades — para perceber se efetivamente mudam escolhas e rotinas. O envolvimento das escolas, municípios e sociedades científicas será fundamental para dar consistência e credibilidade ao programa.
Falar de hipertensão arterial às crianças não significa desresponsabilizar os adultos. Pelo contrário. Significa dar-lhes aliados inesperados. Enquanto médicos e profissionais de saúde repetimos muitas vezes as mesmas recomendações, talvez seja uma voz pequena, em casa, a lembrar: “Avô, não te esqueças do comprimido.”
Acredito que todos podemos ser heróis contra a hipertensão. Uns com bata, outros apenas com vontade de mudar. Mas há algo de especial quando são os mais pequenos a liderar pelo exemplo. Apostar nas crianças é apostar no futuro. E talvez esteja nelas a força que nos falta para transformar a prevenção em realidade.
Patrícia Vasconcelos é assistente hospitalar graduada de Medicina Interna na ULS Amadora-Sintra, tesoureira da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e representante sul do Núcleo de Estudos de Prevenção e Risco Vascular da Sociedade Portuguesa da Medicina Interna. É uma das cronistas convidadas do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.
Antes de sair, temos três perguntas relacionadas com o artigo que acabou de ler. É um mini-questionário muito rápido e totalmente anónimo.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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