A igualdade é a grande moda do momento no mundo ocidental. Há poucos anos predominava em sociedades ditatoriais, onde serviu de argumento para matar milhões de pessoas. Agora chegou ao ocidente livre disfarçada de justiça social. Com ela, é a nossa liberdade que está em risco.

Havia um grande consenso nas sociedades livres ocidentais sobre o estado de direito, a aplicação da lei da mesma forma a todos e a ausência de coerção pelo estado como condições essenciais para a existência de liberdade. Este consenso baseava-se na ideia exposta por Locke de justiça fundada na equivalência moral do homem. Os protestos a que assistimos em Hong-Kong são para defender esta liberdade.

Nas sociedades livres a igualdade socioeconómica era rejeitada por não ser vista como moralmente justa. Locke defendeu a propriedade e viu a sua restrição como injusta e como uma limitação da liberdade. Mill definiu os limites do poder da sociedade sobre o indivíduo enquanto pedia mais (mas não iguais) oportunidades para todos. Hayek considerou a distribuição de rendimento como uma injustiça porque representava uma interferência inaceitável do estado na vida das pessoas (a ajuda a quem precisa pode ser baseada em compaixão).

A rejeição da igualdade socioeconómica explicava-se essencialmente pelo sentimento de injustiça que lhe está associada e pelo trade-off com a liberdade. Para impor a igualdade seria necessário restringir radicalmente a liberdade de acção e prejudicar o mérito e o esforço individual. É por isso que exemplos de igualdade objectiva como o direito a um só voto por pessoa com mais de dezoito anos é uma excepção.

Hoje, os ataques à liberdade em nome da igualdade, que antes eram vistos como próprios de sociedades autoritárias, passaram a ser considerados normais. Os exemplos são cada vez mais frequentes e aceites como se nada de grave se passasse.

As universidades de Oxford e Cambridge resolveram garantir que algumas dezenas de alunos em “desvantagem” por razões socioeconómicas pudessem frequentá-las porque tiveram um bom resultado nas provas de admissão, supostamente melhor do que seria de esperar dado o seu contexto económico e social mas não o suficiente para serem admitidos.

Como as universidades não vão aumentar o número de entradas de novos estudantes, os alunos “pobres” irão ocupar o lugar de outros mais bem preparados e capacitados que, como são da classe média, não têm a “sorte” de estar em “desvantagem”. Esta frase pode parecer insensível, especialmente perante os preconceitos dos dias que correm, mas não é mais do que a verdade.

A sociedade rejubila porque se está a dar mais oportunidades a alguns jovens – para manter a conotação ideológica da linguagem até se lhe chama igualdade de oportunidades, apesar de não representar qualquer igualdade mas sim uma expectável melhoria para os beneficiados.

E os que foram prejudicados e ficaram com menos oportunidades por causa desta decisão, apesar do esforço e dedicação que colocaram na sua ambição de entrar para aquelas universidades? Para os igualitários tudo isso é irrelevante. Se o nome e a cara dos prejudicados e os sacrifícios que fizeram fossem evidentes, e se tivessem de os enfrentar cara-a-cara, isso poder-lhes-ia pesar na consciência. Para evitar este incómodo, os defensores deste ataque à liberdade nem querem saber quem eles são e preferem simplesmente ignorá-los.

Este exemplo mostra uma enorme injustiça. Não é só a questão de que uma pessoa, ou um grupo de pessoas, possa escolher quem vai frequentar a universidade com base em critérios duvidosos e que frequentemente são “adaptados” para beneficiar algum membro da família ou da família de um amigo. Já vimos isto em muitas situações, como há algum tempo na habitação social da cidade de Lisboa, que se tornou uma fornecedora de casas para a classe média, artistas e outros amigos dos empregados políticos da câmara, que as arrendavam a bom preço, sempre em prejuízo dos que delas necessitavam.

O que não é aceitável é que jovens que são muito bons estudantes, que fizeram um grande esforço e muitos sacrifícios, sejam afastados da hipótese de frequentar uma boa universidade e ter boa formação, tendo as suas oportunidades reduzidas, por serem discriminados por outros que são “pobres”. Este igualitarismo é o mesmo que colocar os “pobres” em apartamentos de classe média e mandar as pessoas em que neles viviam procurar outra casa. É para este tipo de injustiças que a igualdade nos conduz.

Há muitos outros exemplos deste espírito igualitário que se impõe entre nós. Um, que a mim me chocou especialmente pela forma submissa como foi aceite, foi a proibição de uma editora publicar cadernos de capa azul para meninos e de capa rosa para meninas. Um caderno é algo pouco importante, o que é grave é um funcionário impor a cor aos cadernos para todas as crianças porque só ele sabe o que é bom para nós, pais e restante população.

Outros exemplos contemporâneos incluem os fundamentalismos dos ambientalistas como a proibição de que se coma carne, as tentativas de se limitar a liberdade de expressão nas universidades ou de se tentar impor que apenas alguns, como os artistas, possam dispor dessa liberdade.

A prepotência desta e de muitas outras decisões que estão a ser tomadas em nome da igualdade demostram o ataque repugnante à liberdade que eu julgava ser património das sociedades ocidentais.

Os igualitários vêem-nas como um avanço na justiça social porque a sua moral confunde justiça e igualdade. Para eles, justiça é haver igualdade socioeconómica, mesmo sem uma base moral consensual e com a limitação da liberdade individual. Na prática, a ética igualitária que agora é moda no mundo ocidental menospreza estes dois valores fundamentais, a justiça e a liberdade. Há poucos dias morreu Robert Mugabe, um lutador pela igualdade que também impunha a sua moral sobre a justiça e a liberdade (para além de desprezar a vida dos que mandou matar).

Todo este preconceito ideológico deveria ser inaceitável em sociedades descentralizadas, modernas e desenvolvidas, que aceitam as diferentes características da natureza humana sem tentarem forçar a imposição de padrões morais radicais.

A maioria das pessoas deixa-se enganar pela ilusão ideológica de que igualdade é sinónimo de justiça. É falso que promover a igualdade seja o mesmo do que querer ajudar os outros, sejam eles quem forem, ou que a igualdade seja equivalente a promover a dignidade da vida humana. É imoral prejudicar propositadamente outros para beneficiar quem queremos, e não o é apenas se for feito por razões de compaixão ou até eleitorais. É-o em todas as situações. Promover a igualdade é, na maioria dos casos, promover a injustiça e atacar a liberdade, sendo por isso uma fonte de imoralidade.

A facilidade com que a liberdade actualmente é menosprezada e trocada pela igualdade lembra as palavras de Tocqueville: “… Mas também se encontra no coração humano um gosto depravado pela igualdade que impele os fracos a querer trazer os fortes ao seu nível, e que reduz os homens a preferir a igualdade em servidão à desigualdade em liberdade”. Passados duzentos anos estas palavras são ainda válidas porque a procura de igualdade se tornou a promoção da injustiça e uma ameaça à liberdade.

O texto reflecte apenas a opinião do autor