1 Saiu-se bem, já se antecipava. O parlamento é o seu palco. Poucos se movem tão bem no jogo parlamentar como Luís Montenegro, a troika encarregou-se de o treinar, a verve fez o resto. E além disso – já se tomou nota – tem sorte: estreia-se no seu governo “verdadeiro” (o outro também foi um treino) com um PS desfeito; com Ventura a tomar o pulso a si mesmo e a valsar entre as suas duas peles, a de grande sabotador e a de líder da oposição; e uma extrema esquerda a quem já só resta o sempre generoso oxigénio da media, agora já com um ranço de 50 anos.

Ficou igualmente claro que na nova “aliança do meio” – que designação, credo – continua a simpatizar-se muito com o PS, a ignorar a direita e a detestar a direita radical do Chega. São escolhas. Só não sei se serão politicamente as mais acertadas. Sei apenas que não parecem.

2 É por estas e por outras preferências que a seis meses das eleições presidenciais não há um candidato de direita (nem de esquerda, de resto). Moram todos no centrão: convergiram para lá, com decisão, assertividade, convicção, as vezes até mesmo como uma espécie de volúpia apressada como se temessem ser “vistos” noutro lugar político que não aquele. Uma coisa esquisitíssima. Há meio século que o centrão impera muito para lá das grandes questões do Estado sempre (felizmente!) conduzidas por um naturalmente assumido consenso entre PS e PSD. Sim é verdade que também se lhe deve – ao centrão – algumas bem andadas etapas desta nossa história recente mas o que é demais é excessivo como diz o suposto sábio povo.

Montenegro devia pensar nisto e não, não estou a pensar no Chega. Há mais direita e nem uma nem outra se confundem.

3 Tenho a impressão que o breve intermezzo que se segue talvez venha a propósito: a direita nunca teve direito de cidade numa democracia com 49 de idade: a “democracia” da esquerda não a contemplava e menos a merecia. E por isso a direita que verdadeiramente existiu – com Sá Carneiro e com Passos Coelho – foi sempre à sua exclusiva custa e rodeada de “inimigos” como as ilhas pelo mar: a media sempre a execrou; as oposições ou lhe fechavam a porta na cara – eram votos de “segunda” ou por “engano” – ou praticavam a suspeita como regra; a rua regurgitava de gente com uma ira orquestrada contra qualquer medida. E o ar do tempo poluía-se automaticamente com falsas narrativas, certezas inventadas, fantasiosos temores. (Por vezes, tenho até outra impressão: a de que desde Abril de 74 grande parte da comunicação social me lembra a Torre de Pisa – e lembra com verosimilhança: há uma torre em Itália que nunca se endireitou, há séculos que existe inclinada para o mesmo lado. Mas isto seria outra história.)

4 O meu ponto é que ainda há uma parte do país que continua a olhar a direita como um estorvo ou uma intrusa. Qual Portugal? O da “esquerda-dona”. Dona da influência mediática, do pensamento, das escolhas, das nomeações”, da cultura”. E claro, dona do 25 de Abril, a direita que fique com o 25 de Novembro. (Que ignorância, santo Deus, do que foi um e o outro).

E depois, espantosamente, há ainda uma parte considerável de portugueses que “prefere” não ser de direita — sendo-o — e clamando ser de “centro”: mas o que é o centro como lugar e conceito se não estiver escorado politicamente à sua direita e em articulação com ela? A sua única razão de ser no xadrez político só é justificada por essa ligação à sua direita (ou a sua esquerda, mas agora é da primeira que falo.)E nada disto – mas é sempre preciso repeti-lo – tem nada a ver com o Chega, Ventura e os seus não cabem na geometria a que aludo: estão fora dela, ocupados em full time a dinamitá-la até atingir o único objectivo que os move: substituí-la. Ventura sabe que será sempre preciso ampliar mais e mais a direita radical, a que o seu partido professa e pratica, o que significa assassinar politicamente o PSD. Ou deixá-lo numa deliquescência irreversível.

5 Aparentemente Luís Montenegro sente-se politicamente confortável no seu “centro” e é de lá que parte para o centro esquerda, sempre enamorado por ele. E consequentemente com os olhos (quase )só ali postos. Exagero? Admito. Mas o exagero parte sempre de uma “verdade” que intencionalmente se amplia.

Em resumo, entre o centro do PSD e o seu enlevo com o centro-esquerda e a direita radical do Chega… quem está?

6 Vou ficar à janela à espera da Reforma do Estado, neste seu enésimo remake, mas baterei palmas se ela passar por mim.

No entanto, uma impressão (outra!): há gente na equipa de Gonçalo Matias para tratar da “simplificação”, da “digitalização”, da “articulação” e da “responsablização”. Grandes objectivos, nobres tarefas. Exigem tempo, discernimento, critério. Mas onde está, que não o vejo, o “alguém” que trate por tu a tóxica máquina do Estado? Que a conheça como a palma da mão e possua a fértil experiência de saber lidar com a administração pública e o seu cortejo de horrores burocráticos de vária e pesada natureza? Que se mexa como peixe e autoridade própria na água, nadando entre os tentáculos estatais, gastos, embrutecidos, anquilosados, fora de prazo? Há? Óptimo. Fiquei com isto na cabeça, posso até estar enganada, mas foi como quem de repente repara que falta uma peça num puzzle que se dava como pronto e afinal não estava acabado.

Seja como for acredito que o maestro titular desta com dificílima peça, Gonçalo Matias, conheça as complexas partituras que vai reger; tenha a agilidade dessa regência nos seus (múltiplos) andamentos, e tudo dirija como se de cada acorde dependesse a sua vida. E pedir muito? É. Mas… e que tem feito o Estado senão pedir-nos a pele, o osso e o dinheiro?

(No último fim de semana estive com um amigo do norte cujas terras estão há doze anos para ser divididas entre a sua família, mas a grande burocracia, os poderes intermédios e os pequenos corruptos locais não têm deixado. Quantos anos mais faltam para que deixem? )

PS: Há o mérito de se ser bom, depois melhor, depois o melhor. Passando a ter lugar cativo no relvado imaginário de uma espécie de onze nacional dos “melhores de todos”. É o caso de António Pires Lima. Testemunhei profissionalmente muito dos seus passos, entrevistei-o mais de uma vez, pude observar a marca que deixou como servidor da politica – deputado, autarca, dirigente, ministro; e reter o talento do empresário no que dirigiu, ampliou ou levou à glória. O prémio que recebeu ontem na Universidade Católica distinguindo anualmente a carreira de ex-alunos de Economia e Gestão foi o selo de garantia. Tenho a impressão de que não vale a pena acrescentar que “foi muito merecido”.