É hoje, o dia 1 de uma Nova Era.
Inaugura-se a estabilidade ou o caos? Ou melhor, quais são a estabilidade ou/e o caos possíveis? A democracia americana vai transformar-se numa plutocracia, com consequências globais?
O primeiro dia do segundo mandato de Donald Trump na Casa Branca é acolhido diferentemente, consoante o quadrante político, consoante a zona geográfica do mundo, consoante a região dos Estados Unidos. Não há indiferença. Há alegria, há raiva, há medo, há alívio, há indignação, há celebração.
Donald Trump é uma causa ou um efeito? O princípio de alguma coisa, o fim de outra?
O que sabemos é pouco, para prever o que virá. Todavia, há sinais, apesar da sua interpretação não levar a conclusões evidentes. Os próximos dias e semanas vão permitir perceber várias coisas:
- No sistema internacional – vão os EUA reduzir o apoio à ONU, sair da OMS, denunciar os Acordos de Paris?
- Nas relações com a Europa — qual o futuro da NATO, como funcionarão as tarifas aduaneiras, a pressão relativa à apropriação da Gronelândia vai até onde?
- No papel americano de “polícia do mundo”– serão a Ucrânia, Taiwan, Coreia do Sul, deixados à sua sorte?
- Na Energia — haverá um abandono das políticas energéticas que visam diminuir a dependência do petróleo?
- Nos EUA – vão ser desmanteladas as políticas de apoio à saúde previstas no Obamacare? Os impostos para os mais ricos vão baixar drasticamente? O Estado vai ser diminuído e controlado por homens e mulheres de mão fiéis ao Presidente, sem ter a Constituição por referência?
- Na política e na economia internacional – os valores de defesa da dignidade humana e de proteção dos direitos fundamentais deixarão de ser referência e o peso e a medida das interações passarão a ser transacionais, versus relacionais e o protecionismo substituirá, de forma agravada, o liberalismo económico?
- Na religião – um fundamentalismo religioso dito cristão irá tomar conta da América?
- Na cultura – a diversidade cultural estará em risco?
- Na ciência – os dados científicos serão substituídos, em muitas decisões, por visões que recusam o seu valor?
- Nas políticas migratórias — os EUA, que se formaram como país de imigrantes, vai deixar de o ser?
Tendencialmente, a resposta a todas estas questões é: sim. Sim, os EUA vão reduzir a sua presença enquanto atores interventivos da arena do sistema internacional. Sim, a Europa democrática vai deixar de ser um parceiro preferencial. Sim, vários pontos do mundo que contavam com o peso da presença americana vão ser deixados à sua sorte. Sim, vai haver um reflorescimento da indústria do petróleo. Sim, vão baixar os benefícios sociais, a dimensão do Estado e sim, vão ser concretizadas medidas de apoio aos mais ricos nos EUA. Sim, agora o que vale nas relações internacionais é, acima de tudo, a pergunta materialista “O que eu ganho com isso?” e uma visão de fronteira fechada. Ou seja, os valores da proteção da dignidade humana e do planeta serão preteridos, a favor das vantagens imediatas obtidas e os custos de transações comerciais com os EUA vão aumentar. Sim, uma interpretação do cristianismo (que não corresponde à doutrina da Igreja Católica) procurará afirmar-se como superior a outras religiões (como acontece com a Rússia ortodoxa de Putin, na Índia hindu de Modi ou no judaísmo do atual governo israelita). Sim, haverá uma tendência ao reducionismo da diversidade cultural, com orientação conservadora. Sim, desde os domínios da saúde ao clima, da geografia à astronomia, visões obscurantistas e que não tomam em conta o estado da ciência atual podem impor-se. Sim, desde o primeiro momento da nova administração americana, é provável que a hostilidade contra os imigrantes ilegais e as suas famílias (mesmo se em situação legal) se agrave, ferozmente.
E o que afirmar sobre estas possíveis tendências?
Haverá muitos a dizer: “Ainda bem!”. Quem serão esses e essas? Aqueles e aquelas que, em todo o mundo, preferem as autocracias às democracias, a dominação e a sociedade hierárquica à dinâmica relacional, aos valores da igualdade, liberdade e solidariedade.
Uma nova ordem internacional está em marcha, apoiada por dispositivos tecnológicos poderosos, que têm a capacidade, através das redes digitais, de determinar comportamentos pessoais e coletivos a partir de decisões tomadas por poderes políticos e económicos que não mostram nem o rosto nem as intenções. Novas ignorâncias pululam no espaço social global, potenciadas pela queda da autoridade intelectual a favor da opinião de grupos, clãs ou tribos, que se autoalimentam em circuito fechado e recusam a possibilidade de saberes partilhados e existentes, acima da opinião. Novos rostos assumem a liderança de processos de concentração da riqueza, em curso há décadas, e que transformam a ideia de mercado em monopólio, apesar da aparência de livre comércio.
No Ocidente europeu, anestesiado por modos de vida baseados no trabalho por conta de outrem, a putativa segurança de um Estado Social e o entretenimento, numa versão contemporânea do “Pão e Circo” – a ideia de despolitização do povo a favor da dominação oligárquica ou aristocrática – faz o seu caminho, numa estranha mistura (ou talvez não) com uma politização a partir dos extremos políticos.
Está a União Europeia, como projeto de paz, liberalismo político e económico e diversidade cultural, condenada pelo dealbar de uma nova ordem? Não. Mas o caminho para a defesa do projeto europeu é estreito, pois exige uma concertação entre os Estados europeus nos domínios fiscal, bancário, burocrático, industrial, da defesa comum, da imigração, nomeadamente, que parecem difíceis de atingir, apesar do Relatório Draghi dar indicações relevantes nesse sentido e a Comissão Europeia as querer seguir.
E a cada cidadão desta nossa Europa, cidadão crente nos valores da liberdade, solidariedade e igualdade, uma pergunta interpelante se coloca, desde hoje de forma mais evidente – serei um treinador de bancada, ou quero ser uma agente de promoção do modelo de vida em que acredito, para mim, para a minha família e para a sociedade?