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“Isto não é a União Soviética” (e recordar Raymond Aron) /premium

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1.993

Ninguém se iluda com a bonomia de Jerónimo de Sousa ou a simpatia de Catarina Martins. Eles lideram partidos revolucionários que são hoje a principal ameaça à liberdade dos portugueses.

1. “Isto não é a União Soviética.” O “isto” é Portugal. A afirmação foi feita por deputados socialistas e dirigida à ministra da Saúde do governo de António Costa. Repito, para que não fique qualquer dúvida: deputados do PS acusaram uma ministra do seu governo de querer tratar Portugal e os portugueses como se fossem habitantes da antiga União Soviética. Não foram os partidos de direita que o disseram. Nem sequer foi a “perigosa direita do Observador”. Aliás, pela parte que me toca, fico satisfeito que haja deputados socialistas a darem razão ao que muitos têm escrito várias vezes no Observador e noutros jornais portugueses. Mais vale tarde do que nunca.

A comparação com a União Soviética veio a propósito da tentativa, dirigida pelo Bloco de Esquerda e obedientemente seguida pela ministra de afastar os grupos privados da saúde. É igualmente simbólico, e muito preocupante, que esta frase tenha sido dita 45 anos depois do 25 de Abril e 28 anos depois do colapso da União Soviética. Mostra o estado da política portuguesa. Os deputados do partido do governo foram forçados a recorrer ao exemplo do império comunista, a mais longa experiência de servidão e miséria humana do século XX.

Este episódio também nos faz recordar que houve não uma, mas duas revoluções em Abril de 1974. A revolução democrática liberal, que esteve ameaçada durante o ano de 1975, e se consolidou durante a década de 1980 com as revisões constitucionais e a entrada de Portugal nas Comunidades Europeias. A segunda, a revolução comunista, prosseguida pelo PCP, os outros partidos da extrema esquerda (alguns deles deram origem ao BE), e alguns capitães do MFA, quase triunfou até ao 25 de Novembro de 1975. A revolução comunista foi derrotada, primeiro em Portugal e depois, em 1989 e em 1991, na Europa, mas não desapareceu.

Para justificar a sua entrada em São Bento, António Costa contou uma enorme mentira aos portugueses: disse que o PCP e o BE tinham derrubado os seus “muros de Berlim” e já não eram revolucionários. Costa sabia muito bem que não era verdade, mas precisava de justificar o apoio parlamentar necessário ao seu governo minoritário. Os dirigentes comunistas do PCP e neo-comunistas do BE continuam a ser o que sempre foram: revolucionários que querem derrubar a nossa democracia liberal. Ninguém se iluda com a bonomia de Jerónimo de Sousa ou a simpatia de Catarina Martins. Eles lideram partidos revolucionários que são hoje a principal ameaça à liberdade dos portugueses. Como nos disseram os deputados socialistas, se puderam fazem de Portugal uma pequena “União Soviética.” Neles nada mudou desde 1975. E Costa, em 2015, deu-lhes um certificado de bom comportamento sem eles terem mudado.

Percebemos como começam as alianças com os partidos revolucionários, mas nunca sabemos como vão acabar. Em 2015, o PCP e o BE eram apenas instrumentos úteis para o PS formar governo. Quatro anos depois, são partidos revolucionários mais confiantes e mais influentes. Esse aumento de influência foi alcançado à boleia do governo socialista. Os entendimentos com partidos revolucionários têm consequências. Não são inofensivos. Mário Soares, que percebia de revoluções, nunca se aliou a eles quando esteve no poder.

A aliança com forças revolucionárias e radicais está a dividir o PS, mesmo que isso ainda não seja claro. No poder, é mais fácil esconder as divisões. Mas os socialistas estão a dividir-se. A grande maioria dos militantes socialistas quis ir para o governo em 2015, mas não quer fazer uma revolução comunista. Começam a perceber que esse perigo existe. E, em privado, já reconhecem que Costa levou os neo-soviéticos para o poder.

2. Quando existe um governo com ministros que defendem políticas soviéticas para a saúde, vale a pena ler o livro de Carlos Gaspar sobre Raymond Aron, publicado no fim de 2018, Raymond Aron e a Guerra Fria. A geringonça fez deste livro uma obra muito relevante do ponto de vista político.

Carlos Gaspar escreveu um excelente livro sobre um pensador fora de série. Não é uma biografia de Aron, mas uma excursão sobre o pensamento de Aron em relação aos grandes temas da Guerra Fria, onde se inclui a revolução portuguesa de 1974 e a ameaça comunista às democracias liberais do Ocidente. Tendo em conta a natureza ideológica do confronto entre os Estados Unidos e a União Soviética, o livro oferece um excelente retrato de Aron como intelectual e como um pensador liberal. O que constitui de resto um exemplo para os dias de hoje.

O argumento do livro é claro e muito bem construído, com uma escrita elegante e acessível. Carlos Gaspar conhece com detalhe e erudição o trabalho de Raymond Aron. Um dos pontos mais interessantes do livro é a identificação entre o autor e Aron, mais implícita do que explicita, mas óbvia. Gaspar é um homem de centro esquerda, da área socialista, tendo trabalhado com os Presidentes Mário Soares e Jorge Sampaio. No entanto, a sua admiração pelo liberalismo racional e pelo realismo político de Aron transparece claramente no livro. Embora Aron estivesse longe de ser uma figura típica da direita francesa (apesar do seu Gaullismo céptico e crítico), foi quase sempre detestado (e mesmo perseguido) pelas esquerdas, devido às suas posições anti-soviéticas e anti-comunistas durante a Guerra Fria. Tornou-se assim uma referência, senão mesmo um herói, para as direitas francesas e europeias.

 O livro apresenta Raymond Aron como um herdeiro intelectual da boa tradição do Iluminismo: “O pedagogo da sageza é um intelectual clássico, um humanista europeu na tradição de Montesquieu, Burke e Weber.” Aron, o “liberal”, “nunca deixou de tomar partido contra as ideologias do terror.“ Assim, continua Carlos Gaspar, “foi antinazi antes de ser anticomunista e empenhou-se sempre na defesa da liberdade contra a tirania, da democracia pluralista contra as revoluções totalitárias e dos Estados nacionais contra a dominação imperial.” Aron foi um intelectual liberal no século das ideologias totalitárias.

O liberalismo de Aron condenou-o muitas vezes ao isolamento intelectual e político, especialmente num país como França, dividido “entre uma direita estatista e uma esquerda refém do mito da revolução.” Tal como outro grande intelectual liberal do século XX, Isaiah Berlin, Aron nunca teve medo de ir “contra a corrente”, afastando-se ou criticando as suas famílias políticas. Como muitos na primeira metade do século XX, começou na esquerda, da qual se afastou definitivamente no final da II Guerra Mundial. Escolheu, assim, o Le Figaro, e não o Le Monde, como o jornal das suas crónicas. Mas depois também se afastou da direita nacionalista, defendendo a independência da Argélia.

 A riqueza do pensamento de Raymond Aron não o limita à tradição liberal. O realismo é fundamental para entendermos a sua visão sobre a ação política. Aron vai buscar o seu realismo a Max Weber e ao conceito de ética da responsabilidade. O facto de um homem de esquerda ter escrito um livro a elogiar o percurso intelectual de Aron no contexto da Guerra Fria mostra a ética de responsabilidade de Carlos Gaspar. Mostra ainda a possibilidade e a necessidade de se construírem consensos entre a esquerda e a direita moderadas sobre princípios fundamentais das sociedades ocidentais, num tempo em que os radicalismos crescem. Julgo que este é o maior contributo do livro de Carlos Gaspar. Quando se aproxima o Verão, um tempo de férias e leituras, comprem e leiam o livro de Carlos Gaspar. Vão gostar.

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