1 Confinados e fechados, as semanas parecem uma eternidade e a memória pode começar a falhar. Mas convém que não falhe. No início da crise, para atacar o egoísmo dos países do norte da Europa, as nossas esquerdas e o governo disseram que não se podia culpar os países do sul pelo Covid-19. Não tinham qualquer responsabilidade, diziam os nossos camaradas, pelos danos económicos causados pela pandemia. Pelo contrário, eram vítimas do vírus. Por isso, os países do norte, com mais recursos, deveriam mostrar solidariedade em relação ao sul. A doação de dinheiro seria a demonstração da solidariedade europeia. Os empréstimos seriam uma manifestação de egoísmo (grants not loans). Mais, as doações deveriam ser incondicionais, sem qualquer condicionalismo político, económico ou financeiro.

Deixemos a Europa e regressemos a Portugal. Quais são as provas de solidariedade das esquerdas e do governo com os portugueses e com as empresas nacionais? Com a TAP, já se viu. Doações nem pensar. Dar dinheiro só funciona se for o governo alemão a dar ao governo português. Agora, o governo português dar dinheiro a uma empresa portuguesa, nem pensar. Com as empresas portuguesas, para usar as palavras sonoras do ministro dos transportes, “a música é outra.” E mesmo empréstimos à TAP, só com condições. Ficamos assim a saber que, ao contrário dos países do sul da Europa, a TAP não foi uma vítima do Covid-19, e não merece solidariedade alguma. A propósito das companhias áreas, o governo holandês já emprestou dois mil milhões de euros à KLM, sem exigir a nomeação de representantes do governo para o Conselho de Administração. Parece que com as empresas nacionais, a solidariedade do governo holandês é mais forte do que a do governo português.

No caso da Galp, as esquerdas atacaram os bónus e os dividendos. Mais uma vez, os executivos e os acionistas da Galp, ao contrário dos países do sul, não foram vítimas da pandemia. Devem pagar por ela. Ouvimos os mesmos argumentos com o Novo Banco. Tal como com a TAP e com a Galp, uma empresa portuguesa, neste caso um banco, deve pagar um preço por qualquer ajuda que venha do governo.

Esta duplicidade de critérios mostra qual é o conceito de solidariedade europeia para as esquerdas em Portugal. O governo português quer receber dinheiro de Bruxelas, sem condições e sem juros, para depois o emprestar a empresas portuguesas com condições e com juros. Dito de outro modo, o governo português não quer que a crise seja usada como uma desculpa para os países do norte reforçarem o seu poder na União Europeia. Mas as esquerdas querem usar a crise para reforçar o poder do Estado sobre a sociedade civil e as empresas privadas.

Para as esquerdas, Merkel e Rutte têm a obrigação de serem solidários com Costa e com Sanchez. Mas o governo português já não deve qualquer solidariedade aos bancos e às empresas portuguesas. Como cidadão português, quero a solidariedade europeia, mas não quero que ela pare em São Bento. Quero que a Europa seja solidária com os portugueses. Agora se a ‘solidariedade europeia’ servir apenas para o governo ter acesso a mais recursos que permitam reforçar o seu poder sobre os portugueses, então prefiro que não haja qualquer solidariedade. Espero que a União Europeia não ajude o governo a enfraquecer a sociedade portuguesa.

2 O que se passa com Marcelo Rebelo de Sousa? Foi patético no modo como lidou com a celebração do 1 de Maio pela CGTP. As suas palavras sobre a injeção de liquidez no Novo Banco, prevista no contrato de venda do banco e aprovada pela DG da Concorrência em Bruxelas e pelo BCE em Frankfurt, foram desastrosas. Pela primeira vez, desde que foi eleito para Belém, Rebelo de Sousa está claramente a perder contra António Costa. O Presidente da República ou recupera rapidamente ou terá um final do primeiro mandato e uma campanha eleitoral penosos. Ficará entalado entre um eleitorado de direita desiludido com o seu mandato e a maquina infernal do PS e das esquerdas a queimá-lo em lume brando. E será Costa a controlar o nível do lume.