Jovens

JMJ: do Panamá a Lisboa, passando pelos EUA /premium

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Jovens brancos, católicos, pró-vida, troçam de um velho indígena norte-americano, veterano da guerra do Vietname – a notícia que, afinal, era uma fake news.

Era um segredo que já ninguém ignorava, mas, mesmo assim, foi muito bom saber que as próximas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) vão acontecer em Lisboa, em 2022. A imprensa já tinha feito transpirar a notícia, que se confirmou com a ida ao Panamá dos presidentes da República, da Conferência Episcopal Portuguesa e da Câmara Municipal de Lisboa.

Depois de já ter estado, em 2017, em Fátima, para a celebração do centenário das aparições marianas e para a canonização dos santos Francisco e Jacinta Marto, o Papa regressa a Portugal em 2022. Se se tiver em conta que Francisco ainda não visitou outros países europeus de tradição católica – como a vizinha Espanha – uma segunda estadia em Portugal é, certamente, um grande privilégio para a nossa nação. Mas é também, como afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, o reconhecimento da importância de Portugal como “plataforma giratória para todos os continentes” e, em especial, “para África”, nomeadamente por razão da lusofonia, que une na mesma língua os povos de Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

As JMJ são o principal evento católico mundial, mas também, possivelmente, a maior concentração de jovens do mundo inteiro, pois nenhum outro acontecimento mundial reúne tantos jovens como as JMJ: em Czestochowa, em 1991, eram cerca de um milhão e meio; e, em 1995, em Manila, mais de quatro milhões! As JMJ, que acontecem de três em três anos, alternando-se os continentes em que se realizam, devem-se a São João Paulo II, o papa que mais apostou nos jovens e na sua capacidade missionária.

Como escreveu Bárbara Wong, cada JMJ é uma ocasião excelente para “descobrir uma Igreja multicultural e multirracial”, porque se encontram “jovens de todos os lados a falar todas as línguas, de sorriso aberto, de gargalhada fácil, viola a tiracolo, conversas fluidas por partilharem a mesma fé e o mesmo chão” (Público, 28-1-2019).

Como a cultura dominante no Ocidente é, na actualidade, anticristã, os jovens católicos são agora menos do que em outras épocas, mas mais esclarecidos, convictos e empenhados. São raparigas e rapazes como os outros, mas fazem a diferença pela sua alegria, pelos seus ideais, pela sua solicitude para com os mais necessitados e pelo seu humanismo. Se as juventudes partidárias se organizam em função do poder, é a caridade que atrai e polariza os jovens católicos.

Foi essa sua atitude que se evidenciou recentemente, a propósito de algumas fake news postas a circular por uma certa imprensa. Com o título “Um grupo de adolescentes católicos troça de um indígena norte-americano”, noticiou-se que “um grupo de jovens, usando bonés com o lema de Donald Trump” ofendeu verbalmente “um indígena norte-americano”, veterano da guerra no Vietname. Segundo a mesma fonte, esses adolescentes, alunos de Covington, um colégio católico no Kentucky, “participavam numa marcha contra o aborto, em Washington, que coincidiu com uma manifestação promovida por um grupo de descendentes dos primitivos índios dos Estados Unidos”.

As imagens, a ilustrar a notícia, não podiam ser mais sugestivas: um homem já entrado em anos e com aspecto decadente, com a fisionomia típica dos peles-vermelhas, toca um tambor junto a um sorridente jovem branco, que está rodeado por muitos outros adolescentes, também alunos do mesmo colégio católico.  Diz-se que os estudantes, proferindo lemas e canções pró-vida, achincalham o índio que, com ar sofrido, persiste no seu batuque. Assim sendo, era inevitável a conclusão: os jovens católicos pró-vida são de uma arrogância insuportável! Foi tal o escândalo que o colégio ameaçou castigá-los e o respectivo bispo diocesano deplorou o censurável comportamento daqueles liceais.

Graças às redes sociais, o melhor antídoto contra o unanimismo da imprensa politicamente correcta, foi possível desmentir a notícia dos ditos católicos arrogantes, valha a redundância. Com efeito, ao contrário do que foi dito e profusamente divulgado, não foram os estudantes que tomaram a iniciativa de importunar o velho indígena, mas foi este que os foi provocar, colando o seu ensurdecedor tambor aos ouvidos de um deles. O referido índio, que afinal não é nenhum veterano do Vietname, quis assim provocar uma reacção agressiva por parte daquele adolescente, o que teria sido ideal para o escândalo que se estava a cozinhar: jovem com todos os defeitos possíveis – branco, católico e pró-vida – agride um pacífico e pobre velho índio, vermelho por fora e por dentro, que era, como toda a gente decente, anticatólico, pró-aborto e o diabo a sete.

Na forjada reportagem também se afirmava que os jovens católicos tinham proferido palavras de ordem contra os manifestantes indígenas, tais como “Construam o muro!” e outras imbecilidades. Mas, mais uma vez, a verdade é outra: foram as alegadas vítimas da ‘intolerância católica’ que proferiram insultos contra os jovens pró-vida, como “Go back to Europe! This is our land!” e lindezas do género. Afinal, não foram os católicos pró-vida que foram racistas, mas os anticatólicos pró-aborto.

É edificante notar como o jovem católico, apesar de incomodado pelo provocante manifestante pele vermelha, manifestou uma grande serenidade e autodomínio: apesar do irritante soar do tambor, mesmo ao lado dos seus ouvidos, não reagiu com impaciência ou ira, mas padeceu o assédio do falso veterano de guerra com um sorriso de heroica caridade, como compete a quem, por exigência do mandamento novo, está obrigado a amar também os seus inimigos. Inteirados sobre o que verdadeiramente tinha acontecido, tanto a escola como o bispo retractaram-se depois do que tinham julgado ser um comportamento indigno de estudantes cristãos.

É nestes jovens católicos, que não têm medo de afirmar, com coragem e alegria, a sua fé, que saem à rua para defender os direitos dos mais necessitados, como são os não-nascidos, e que não respondem com ódio ao ódio dos seus inimigos, que a Igreja e o Papa Francisco tanto confiam: neles reside a esperança de um mundo melhor. Deus queira que as JMJ de Lisboa, em 2022, convertam esta expectativa numa certeza e, de novo, Portugal seja o instrumento para levar a todo o mundo a boa nova da paz e do amor de Cristo.

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