Nos últimos anos, Portugal habituou-se a viver numa instabilidade política quase permanente. Governos que caem a meio da legislatura, eleições sucessivas e uma sensação geral de que nada avança. A política tornou-se um jogo de sobrevivência partidária, em vez de um exercício de responsabilidade pelo futuro do país. E quem mais sente os efeitos desse impasse são os jovens.
Vivemos tempos em que a juventude portuguesa, mesmo depois de anos de formação, continua a sair tarde de casa, a ganhar salários baixos e a olhar para a emigração como única saída viável. Esta não é uma geração desmotivada ou incapaz – é uma geração esgotada por esperar. E enquanto a política anda à deriva, os jovens continuam a adiar os seus projetos de vida.
A urgência de agir nunca foi tão clara. Um estudo do Centro de Estudos da Federação Académica do Porto revela que mais de 73% dos jovens ponderam emigrar após concluírem o ensino superior, sobretudo em busca de salários mais elevados e melhores condições de vida. Esta tendência, a manter-se, pode representar uma perda líquida superior a 95 mil milhões de euros para a economia portuguesa nas próximas décadas, um terço do Produto Interno Bruto do país. Não se trata apenas de números – trata-se do futuro de um país que se dá ao luxo de formar os seus melhores, para depois os perder.
Precisamos de estabilidade nas políticas publicas. Não apenas de evitar novas eleições, mas para garantir que haja um caminho claro, coerente e continuado para quem quer viver e construir a sua vida em Portugal. É urgente que os partidos se entendam num pacto de regime que assegure políticas consistentes para os próximos anos, com foco real na juventude. Sem esse compromisso, continuaremos a desperdiçar talento e a perder o futuro antes mesmo que ele comece.
Esse caminho tem de começar com medidas concretas e transformadoras. É tempo de acabar com políticas simbólicas, como a devolução de propinas e redirecionar esse investimento para onde faz realmente falta: apoiar os estudantes que mais precisam quando mais precisam, investindo em ação social direta e indireta.
É também fundamental resolver de vez o problema do alojamento estudantil. Um quarto no Porto supera os 400€ por mês e é para muitos um obstáculo para concretizar o sonho de estudar. É necessária uma resposta ambiciosa e estruturada, através do investimento público com um novo plano de alojamento no Ensino Superior e sem dogmas ideológicos, através de parcerias com o setor privado e social que garantam camas no imediato.
Temos também de ser ambiciosos na mudança da jornada de trabalho. Reduzir a semana para quatro dias não é uma utopia, é uma inevitabilidade. O setor do ensino superior deve estar na linha da frente dessa mudança. A semana de quatro dias no ensino superior irá conciliar o estudo com a vida pessoal e a combater os problemas de saúde mental que afetam tantos estudantes. Ademais, é socialmente positiva pois permite aos que vivem mais longe por não terem possibilidade de arrendar um quarto percam menos tempo com deslocações.
Por fim, não podemos esquecer o dia a seguir ao ensino superior e a sangria de talento que enfrentamos. Temos de combater a crise da habitação e subir os salários de forma transversal. Para subir os salários precisamos de um novo modelo económico, o que demorará algum tempo mas também de diminuir o hiato fiscal, ou seja, a diferença entre o que a empresa paga e o jovem recebe. O IRS Jovem vai nesse sentido, mas uma medida que seria ainda mais impactante seria a isenção de contribuições sociais nos primeiros anos de trabalho para contratos sem termo. Portugal pode perder 61 mil milhões em contribuições sociais devido à emigração jovem qualificada, assim esta isenção seria um migalha orçamental face à crise que podemos enfrentar.
As políticas de juventude não podem ser relegadas a rodapés eleitorais: devem tornar-se prioridade nacional. Valorizar o ensino superior e garantir a emancipação da juventude não é apenas uma questão de justiça geracional é estratégico para o futuro do país. A estabilidade política é o primeiro passo. Mas tem de ser acompanhada por coragem, visão e compromisso.