Podia ser o nome do Congresso do Livre, já que também é uma catástrofe que acaba por dar origem a um espectáculo emocionante.

Joacine Katar Moreira anda com azar. Numa semana, na Assembleia da República, não a retiram de uma fotografia em que ela não gosta de se ver; noutra semana, no Congresso do Livre, querem apagá-la de uma fotografia em que ela faz questão de aparecer.

Aquilo que se assistiu naquele Congresso foi estalinismo naïf. Trata-se de estalinismo, na medida em que há a purga de um dirigente caído em desgraça, só que é naïf, uma vez que Estaline teria tido a perspicácia de o eliminar antes de se pôr a brincar ao photoshop.

É preciso dizer que a ignorância histórica não é apenas dos líderes do Livre. Joacine Katar Moreira também fugiu do guião deste tipo de julgamentos. Quando subiu ao púlpito, não confessou, nem fez a habitual auto-crítica. De facto, deve haver problemas de comunicação no Livre, se ninguém lhe disse que era isso que se esperava dela. Em vez disso, desatou aos berros. Parecia uma daquelas pessoas que, quando conversam com estrangeiros, continuam a falar na sua própria língua, mas aos gritos, a achar que assim vão ser entendidas. Como dessas vezes, não funcionou. Pelos vistos, com JKM, o Livre não é um partido verde no sentido da ecologia. É verde por causa da raiva. É menos Greta e mais Hulk. Joacine faz sempre questão de se referir a si mesma como “deputada única”. Só que, ao contrário do que se julgava, não é por ser a única deputada do Livre. É por ser uma deputada incomum, se pensarmos que, dos 230 representantes eleitos na AR, só ela proporciona aquele show.

Entretanto, o Livre adiou a decisão sobre a retirada de confiança a Joacine. Ou seja, é gente que nem sequer tem confiança para decidir sobre se têm confiança ou não. Orgulham-se muito de ser paritários, mas depois vai-se a ver e é só coninhas. Era de esperar que, num Grupo de Contacto com 15 membros alguém se chegasse à frente com uma decisão.

Os dirigentes do Partido não quiseram decidir o futuro de Joacine à frente das câmaras. Ora, isto levanta uma questão pertinente: se, para a apresentarem, não se importaram de aparecer a dançar naquele teledisco, em que tipo de performance artística de vanguarda é que a vão despedir, ao ponto de terem vergonha de o fazer o em público?

Para alguém de fora, o que se está a passar no Livre, apesar de desagradável, parece normal: uma agremiação que deixa de se identificar com um dos seus representantes e, por isso, quer terminar a ligação. Sei bem o que isso é, sou sportinguista.

Sucede que o Livre faz gala de ser diferente e agora está preso àquela grelha de interpretação que trouxe para a política portuguesa, que avalia qualquer interacção entre duas pessoas como um conflito entre opressor e oprimido. Portanto, para quem fez campanha para eleger a primeira cabeça de lista negra, o Livre não está só a terminar a ligação com alguém com quem deixou de se identificar. Nã, nã. O Livre está, obviamente, a expulsar uma mulher negra por ser mulher e negra. Andou tanto tempo a dizer que Portugal é racista e sexista e finalmente conseguiu prová-lo. Parabéns!

Mas, sendo o Livre um partido bonzinho, até a praticar uma sacanice se esforça por ser inclusivo, invertendo aqui um estereótipo racial e de género: desta vez, é a mulher negra que faz porcaria e os brancos de classe média é que têm de ficar a limpar.

Por outro lado, não conseguiram evitar uma torpe demonstração de racismo estrutural. A facilidade com que o Partido pôs Joacine Katar Moreira a correr dali para fora reforça o cliché de que os negros são bons em atletismo.