“A estratégia “consistente” do Ministério da Agricultura é, assim, “de longo prazo”: Castro Almeida reiterou que este problema não se resolve “em dois ou três anos” e que não passa por “pagar as operações de limpeza, mas sim tornar a limpeza interessante do ponto de vista económico”.
Tive o cuidado de ir verificar a citação, que está correcta, e não tenho a pretensão de que o Senhor Ministro estivesse a responder às minhas propostas públicas para que os contribuintes paguem o serviço de gestão de combustíveis finos a quem o produz, como forma de induzir maior competitividade nas fileiras económicas que hoje gerem combustíveis finos (resina, pastorícia, gestão florestal comercial, conservação da natureza, caça, enfim, há um grande número de actividades económicas que fazem gestão de combustíveis finos, internalizando os custos dessa gestão).
Acontece que estas actividades, nas actuais circunstâncias, não chegam para fazer uma gestão de combustíveis finos (ervas, matos, raminhos, cascas, caruma, pinhas, etc.) que nos permita ter controlo sobre o fogo. Há pelo menos 200 anos que, em Portugal, se discutem formas de tornar economicamente mais interessante a gestão dos terrenos marginais, sem que os resultados se possam considerar razoáveis. Por economia de argumentação, vou deixar de lado as actividades que dependem da filantropia, como a conservação da natureza e falar das outras.
Aumentar a competitividade implica conseguir ter preços mais interessantes para os produtos que se colocam no mercado, ou ser mais eficiente ao ponto de conseguir colocar produtos e serviços no mercado a preços que o consumidor final aceita.
Para negar qualquer possibilidade de pagar um serviço socialmente útil, como faz o Senhor Ministro, seria preciso que a alternativa que apresenta tivesse um mínimo de solidez.
Pessoalmente, não vejo como pode o Governo português influenciar os preços do mercado internacional (uma das maneiras de dar valor à gestão florestal) e não percebo o que pretende fazer diferente do que tem sido feito há décadas para aumentar a eficiência das actividades que gerem combustíveis finos (a outra maneira de dar valor à floresta) e vou tentar explicar
Eu sei que há um clamor dos produtores de madeira contra o duopsónio (os próprios dizem que não são apenas dois compradores, há mais dois ou três) que caracteriza o mercado da madeira de eucalipto (falo deste por ser aquele em que seria mais fácil transferir valor para os produtores primários, em princípio, mas o que digo é válido para a madeira pinho, a resina, a cortiça, enfim, qualquer um dos produtos que exportamos a partir da produção florestal), teoricamente seria possível convencer as empresas de celulose a pagarem melhor a madeira, porque as fábricas são rentáveis.
O problema é que estas empresas concorrem em mercados internacionais em que se esforçam por sobreviver, sendo, por isso, escravas do preço dos produtos finais que chegam ao consumidor, como o papel, mesmo que não produzam papel, e só pasta, como no caso da Altri.
Sendo certo que já hoje importam madeira, e que essa importação de madeira impacta negativamente as suas contas, corremos o risco de as empresas preferirem fechar centros de produção, se o custo da madeira se tornar incomportável.
Depois de explicado o mais simples, por decorrer de conceitos simples de economia, isto é, por que razão a indústria não paga melhor a madeira que compra (não dá valor à floresta, para usar as palavras do Senhor Ministro), passemos brevemente pela habitual resposta sobre inovação, com dois exemplos concretos.
O primeiro, mais frequente, é a tineta de que as centrais de biomassa podem representar uma forma de valorização da gestão de matos, ideia com barbas, com uma longa história de fracassos, mas que ainda assim não morre.
A primeira central concreta que iria produzir electricidade a partir de matos foi a de Mortágua, que no seu mix de combustíveis usava talvez 2% de matos (e por vontade não económica de demonstrar que tinha utilidade para o que supostamente tinha sido feita), e as outras dificilmente usarão mais, porque as centrais precisam de materiais densos com elevada intensidade energética, e o fogo consome materiais finos, essencialmente ar e água, de baixa intensidade energética.
O segundo exemplo era um ovo de Colombo, penso que em Oliveira do Hospital, com um grande apoio da Universidade de Coimbra, que em vez de queimar matos para produzir electricidade, ia fazer bio refinação dos matos para obter bio petróleo, projecto em que não se queimaram matos, mas se queimaram uns milhões de euros.
O mais estranho não é que se invista nisto e o investimento nem sempre resulte, é da natureza da inovação falhar mais vezes que acertar, o estranho é que tudo isto se fez sem que ninguém quisesse saber que os matos são essencialmente ar e água, o que quer dizer que têm o mesmo problema do papel higiénico, um grande volume para um baixo valor, o que implica elevados custos de transporte, isto é, mesmo que no laboratório se produzisse (e penso que produziu) bio petróleo, não há qualquer hipótese da bio refinação ser mais rentável que o pastoreio pelo simples facto de, na comparação, as cabras terem uma vantagem enorme nos custos de transporte já que vão ter com a matéria prima, ou seja, não há novo negócio competitivo que vá gerir o mato.
O que eu gostava, Senhor Ministro, é que me explicasse como, como é que o Governo vai conseguir dar valor ao que as pessoas, isto é, os mercados, não dão valor e de onde lhe vem a certeza que esse caminho é melhor, mais simples e mais eficaz que alinhar os incentivos públicos com os mercados, pagando o serviço público de interesse geral que está implícito no pagamento parcial da gestão de combustíveis finos que é hoje feito pelas empresas que actuam no sector, percorrendo exactamente o mesmo menu de medidas que todos os seus antecessores percorreram, sem que conseguissem os resultados que se pretendia.