Defender que o aumento da taxa de inflação é temporário é cada vez mais difícil. Podemos não estar (ainda) perante efeitos de segunda ordem, em linguagem de economista, e que significa basicamente aumentos dos custos salariais bastante acima da produtividade. Mas há todo um conjunto de aumento de custos e de pressões do lado do consumo que dificilmente podem ser vistos como podendo ter efeitos transitórios.

A subida dos preços do petróleo e do gás não tem impacto apenas no preço da electricidade dos consumidores. O seu efeito mais importante é nos custos de produção. O colapso das redes de distribuição, por um lado, e a rápida recuperação da economia, por outro, está a levar a um nível de ‘stocks’ historicamente baixo, desencadeando uma subida acentuada dos preços das matérias-primas. Mais uma vez com efeitos nos custos de produção.

Em Portugal, os preços na produção industrial aumentaram 19,9% em Dezembro de 2021, comparativamente com igual mês do ano anterior. Diz o Instituto Nacional de Estatística que “a intensidade deste aumento continua a refletir o aumento dos preços das matérias-primas e, em particular, da energia, sem a qual a variação do índice foi 10,5%”. Estes preços à saída da fábrica vão inevitavelmente refletir-se nos consumidores.

Somemos a tudo isto o Fundo europeu de Recuperação e Resiliência, com 750 mil milhões de euros para se gastar em quatro anos, até Dezembro de 2026. E estamos a acelerar ainda mais as economias, que já estavam em recuperação rápida, uma vez que os apoios dos estados durante a pandemia permitiram manter a capacidade produtiva e os confinamentos aumentaram a poupança. Paralelamente, os bancos centrais mantiveram as máquinas de fazer dinheiro a funcionar, com as compras de dívida pública e taxas de juro negativas.

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É difícil imaginar um choque expansionista mais significativo do que aquele em que estamos envolvidos. E um choque que está a ser dado quando a oferta se está a recompor da pandemia, na produção e na distribuição, e os preços da energia disparam.

Perante este cenário, já sobre 2021 Ricardo Reis escrevia esta sequência no Twitter salientando que é muito raro todas as teorias apontarem no mesmo sentido, de que a inflação iria ser elevada, como foi. O que fez, e faz, com que os bancos centrais, especialmente o BCE, sejam então tão prudentes?

As reacções dos mercados financeiros à mudança de discurso da presidente do BCE Christine Lagarde, quando não colocou de parte a subida dos juros no início de Fevereiro, mostram bem de que têm medo pelo menos alguns governadores dos bancos centrais da Zona Euro. No radar dos investidores começam a surgir os Estados com a mais elevada dívida pública, a Grécia (200% do PIB em 2021) e a Itália (154%), países que experimentam já uma subida da taxa de juro da sua dívida pública. Sim, Portugal também está a enfrentar uma subida nos juros da dívida pública, mas não é referido em artigos como este do Financial Times (só para assinantes). Não será por acaso que o governador do Banco de Portugal Mário Centeno, apesar de já não ser ministro das Finanças, anunciou que o défice público português terá ficado abaixo dos 3% em 2021.

Claro que o que se está a passar traz à memória o pesadelo que foram os anos de 2010 a 2012 na Zona Euro, com o problema a começar na Grécia e a acabar em Espanha, passando pela Irlanda, Portugal e Chipre. Ninguém quer que, de repente, os investidores comecem a ter medo de emprestar dinheiro aos países mais endividados do euro. E actualmente a Zona Euro, como um todo, está mais endividada do que em 2010 – o ano passado terminou com 100% do PIB, em 2010 era de 86%, seguindo dados da Ameco.

Nos Estados Unidos, a preocupação está centrada nos mercados bolsistas, um pilar fundamental para a economia norte-americana progredir. Um colapso do mercado de capitais ameaça seriamente a recuperação da economia norte-americana.

Os bancos centrais estão naquela situação daquela música de Ney Matogrosso: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Se não fizerem nada, correm o sério risco de ver a inflação aumentar ainda mais e terão de subir muito mais as taxas de juro, com a possibilidade de desencadearem uma recessão. Se fizerem alguma coisa, correm o risco de serem apanhados pelos mercados financeiros em fuga dos países endividados, gerando um problema de falta de financiamento que vai requerer a sua ajuda e gerar recessão.

É sem dúvida um cenário que mete medo, a curva é tão apertada que o BCE tem mesmo de ser especialmente prudente. Para não matar o doente de inflação com a doença de falta de financiamento.