1 21h21m. “Ministra da Administração Interna demite-se”. 22h36: “Câmara de Coimbra vai retirar cerca de três mil pessoas por risco de cheia”. Num momento em que uma das principais cidades portuguesas se preparava para evacuar milhares de pessoas, por receio que os diques do Mondego colapsem, o país sabe que o primeiro-ministro está mais preocupado em procurar um novo ministro da Administração Interna, em vez de estar focado na resolução desta crise meteorológicas. Os danos na confiança nos eleitores da AD são tão evidentes que não é preciso referir mais nada.

A derrota nas eleições presidenciais e as falhas na antecipação e prevenção do comboio de tempestades que tem assolado o território nacional fizeram o Governo de Luís Montenegro perder o estado de graça. Mas convém que o primeiro-ministro não perca o controle da situação. A saída de Maria Lúcia Amaral num timing completamente errado não augura nada de bom.

Num momento em que a crise meterológica ainda não passou — a ministra Maria Graça Carvalho (Ambiente) já tinha avisado na semana passada que esta quarta-feira (dia 11 de fevereiro) seria marcado por um agravamento da chuva e já temos uma nova tempestade a caminho —, em que há mais de 30 mil cidadãos sem eletricidade (só em Leiria são 27 mil) às 16h desta terça-feira, em que os apoios ainda não chegaram de forma generalizada às populações e às empresas, em que a própria legislação especial do lay off simplificado não é clara e em que a normalidade está longe de ser reposta — por tudo isto, a saída de Maria Lúcia Amaral dá um mau sinal para o Governo e para o primeiro-ministro.

Não só porque Luís Montenegro fica obrigado a assumir a pasta, expondo-se politicamente à gestão da crise meteorológica, como o melhor para o Governo seria esperar que Maria Lúcia Amaral saísse daqui a uns meses.

2 Em política, o que parece, às vezes, é mesmo. Nem o spin do Governo consegue esconder que há uma semana o mesmo Executivo recusava a saída da ministra da Administração Interna em plena crise. E o que parece é que Maria Lúcia Amaral forçou a sua saída e não esteve disponível para fazer o papel de pára-raios de Luís Montenegro — papel que Constança Urbano de Sousa fez com grande sacrifício pessoal durante vários meses após o fogo de Pedrógão Grande em 2017 no qual morreram 66 cidadãos, demitindo-se poucos dias depois de um novo incêndio na zona centro ter provocado mais 50 vítimas mortais.

A situação de Lúcia Amaral e de Urbano de Sousa têm pontos em comum, nomeadamente a falta de perfil de comando operacional e até ausência de competência para comunicar em situações de crise. Mas há uma grande diferença: a saída de Constança Urbano de Sousa foi obviamente comunicada pelo gabinete do primeiro-ministro (António Costa, no caso) — como costuma acontecer com a demissão de qualquer ministro —, enquanto a demissão de Maria Lúcia Amaral foi comunicada por Marcelo Rebelo de Sousa. Aliás, até à hora da publicação deste artigo não se conhecia nenhuma declaração de Luís Montenegro nem do seu gabinete sobre o tema.

O próprio comunicado do Palácio Belém era suficientemente equívoco sobre a quem a ministra da Administração Interna teria pedido a demissão — a Montenegro ou a Marcelo? A situação só foi esclarecida com declarações do Presidente da República cessante, informando que a demissão lhe tinha sido comunicada pelo primeiro-ministro.

3Chegados aqui, só há uma forma clara de Luís Montenegro recuperar o controlo político da situação: mostrar resultados. E mostrar resultados até 9 de março — dia em que António José Seguro vai tomar posse como novo Presidente da República. É a única forma de Montenegro conseguir esvaziar a pressão que Seguro colocou, e bem, em cima dos seus ombros na noite da sua eleição.

O Governo anunciou a 2 de fevereiro um pacote de apoios para as pessoas e empresas de 2,5 mil milhões de euros e a criação da uma Estrutura de Missão liderada pelo autarca Paulo Fernandes. Tudo muito bem. Já passaram nove dias e onde estão os resultados? Quem é que já recebeu os apoios prometidos, qual o valor pago e executado, quantas casas já foram reconstruídas? Ou quantas empresas já aderiram ao lay off simplificado? Quantos empregos foram preservados? Estas respostas são necessárias.

Como é fundamental que as 35 mil pessoas sem eletricidade esta terça-feira tenham uma perspetiva clara de quando a normalidade será reposta. Desse universo, 27 mil residem no distrito de Leiria e muitas estão sem eletricidade há várias semanas. Ouvimos as explicações da ministra Maria Graça Carvalho — de longe, o melhor membro do Governo na gestão desta crise — sobre como é difícil fazer chegar os geradores a zonas isoladas. Mas as pessoas têm de ter uma perspetiva temporal clara sobre quando isso acontecerá.

O mesmo se diga sobre um planeamento, com calendário temporal claro, para a reconstrução das infraestruturas energéticas, rodoviárias e ferroviárias que foram afetadas pelo mau tempo. Muito provavelmente o investimento financeiro necessário será muito acima dos 2,5 mil milhões de euros já anunciados — o que levará provavelmente ao regresso de um pequeno défice orçamental e veremos se a projeção do crescimento do PIB não fica em causa. Por isso mesmo, não há dúvida que a importância económica dos distritos de Coimbra e de Leiria para o país obriga a esse esforço orçamental suplementar.

4 É por tudo isto que o foco deve ser a reconstrução, reconstrução e nada mais do que a reconstrução. Não é altura para remodelações mais alargadas. Tendo em conta que Maria Lúcia Amaral quis sair é apenas altura para uma substituição cirúrgica.

O Observador noticiou nas últimas horas que Luís Montenegro não vai fazer essa remodelação, para já. E parece-me a decisão acertada. Em primeiro lugar, porque Montenegro não pode fazer uma remodelação em posição de fraqueza política e como forma esvaziar novas exigências de António José Seguro, um Presidente da República com uma legitimidade política super reforçada.

A preocupação de Montenegro deve ser, única e exclusivamente, gerir a crise, ajudar pessoas e empresas a encontrar um novo rumo e selecionar um (a) sucessor (a) para a pasta (maldita) da Administração Interna que nada tenha a ver com o perfil de Maria Lúcia Amaral ou da sua antecessora, Margarida Blasco. Competência, capacidade de liderança política e de comunicação — este é o perfil certo.

5 Enquanto o Governo está a viver o seu pior momento desde a tomada de posse, o Partido Socialista não está a ver bem o filme em que o país está metido. E está a confundir a vitória de António José Seguro com uma mudança do ciclo político no Parlamento. É caso para dizer: calma!

Já depois de se ter colado à vitória de Seguro na primeira volta, convocando eleições internas para se relegitimar, José Luís Carneiro voltou a cometer o mesmo erro esta terça-feira quando afirmou aos órgãos do partido que é “bom” que o PS tenha alguém da sua área política e que conta com Presidente eleito para “o Governo possa responder às propostas que o PS tem vindo a fazer ao longo destes meses.”

Carneiro está a dizer que o novo Presidente da República tem de ajudar o PS a desgastar o Governo. Recado tão expressivo é coisa rara hoje em dia. Duvido muito que António José Seguro vá por aí.

Seguro pediu a todos os partidos políticos com assento parlamentar (e não só ao Governo) que contribuam para uma política de compromisso — e isso inclui, obviamente, o PS.

Vários dirigentes da primeira linha do PS, a esmagadora maioria costistas, não estão a ver bem o filme. Pensam que vão regressar ao poder com alguma rapidez e que o próximo ciclo político será socialista.

Repito: aconselharia alguma calma e prudência. Este ciclo político não mudou e, o Parlamento, continua exatamente na mesma. AD, Chega e IL têm 157 deputados, enquanto que os restantes partidos à esquerda só conseguem 73 deputados. O PS quer alterar estas contas parlamentares? Tem de esperar pelas próximas eleições legislativas que, como o Presidente António José Seguro afirmou na noite da sua vitória, são daqui a três anos.