Disseram-nos que os eleitores estavam cansados, talvez nem fossem votar. Afinal, tivemos uma das eleições mais participadas dos últimos anos. Disseram-nos também que os portugueses não queriam mudar, que estavam satisfeitos ou conformados com o estado do país e com a maneira como têm sido governados. Afinal, o PS e a extrema-esquerda, as forças políticas que estiveram em maioria e influenciaram a governação em 22 dos últimos 30 anos, sofreram a maior derrota de sempre, e ficaram reduzidos à sua expressão mais simples.
Disseram-nos mais coisas. Por exemplo, que Luís Montenegro estava a fazer tudo bem ao imitar o PS no wokismo e na manipulação dos pensionistas, que ninguém queria saber da Spinumviva, e que Montenegro ia ser premiado como Cavaco Silva em 1987. E eis que Montenegro obteve o segundo pior resultado em 45 anos de alianças entre o PSD e o CDS (o pior foi também de Montenegro, o ano passado). Em 2015, depois de quatro anos de restrições e más notícias, Pedro Passos Coelho teve 38,6% dos votos. Em 2025, depois de um ano de benesses e boas notícias, Montenegro não passou dos 32%.
Disseram-nos isto os políticos mais velhos, que viram tudo e sabem tudo. Os especialistas de comunicação, que da política têm a ciência. Os comentadores de televisão, sempre de acordo entre si. Estavam todos errados. E como poderiam estar certos? Em trinta anos, a oligarquia política abusou sem limites da sociedade portuguesa. Primeiro, enrolou o país numa rede de impostos altos, burocracias e maus investimentos que o pôs a divergir das economias que crescem na Europa, e fez o investimento escolar escoar-se na emigração. Depois, através de uma cascata de casos e operações (Marquês, Tutti Frutti, Influencer, Spinumviva), revelou que o poder político, precisamente pelos obstáculos que levanta à economia, se tornou o mais rendoso negócio que há em Portugal. Finalmente, a oligarquia permitiu-se a mais grave experiência social da história portuguesa, ao abolir as fronteiras e deixar, em apenas sete anos, os migrantes estrangeiros passarem, brusca e caoticamente, de 5% para talvez 20% da população, pondo em causa a coesão social. Como era possível a população ter votado de outra maneira?
Keynes confessou um dia que quando os factos mudavam, mudava de opiniões. Não devemos ter essa expectativa em relação à oligarquia portuguesa. O que está aqui em causa não são opiniões: é o poder, é a influência, são os lugares, são os negócios. A oligarquia não vai aprender, porque não pode aprender. Estou a dizer que os oligarcas são estúpidos ou estão loucos? Não. Estou a dizer que nunca, enquanto lhes for possível, vão renunciar às fontes da sua preponderância e da sua riqueza.
Reformar é liberalizar e democratizar. Isso significaria, para os oligarcas, o fim do poder e das rendas de que beneficiam: não mais Tutti-Frutti, não mais Influencer, não mais Spinumviva. É por isso duvidoso que a grande maioria potencialmente reformista que agora existe na Assembleia da República possa ser mais do que um motivo para o tipo de psicodramas e demagogias que vimos no último ano. O afunilamento imediato do debate para a “revisão constitucional” prova que ninguém quer que aconteça nada. Como já se percebeu, a solução desejada é pôr os restos do PS a amparar os restos do PSD. A oligarquia continuará a insistir que a única alternativa ao actual sistema é o “fascismo”. Esperam, com esse velho espantalho, esconjurar qualquer mudança. Mas de facto, aquilo que ameaça o sistema, como se viu nestas eleições, é a democracia, é a liberdade, é o voto livre dos portugueses. Preparemo-nos para um dia destes os oligarcas passarem a tratar a democracia e a liberdade como o novo “fascismo”.