Tsipras ganhou. Mentiu aos gregos, causou um terceiro resgate, reduziu o governo a uma delegação de Bruxelas, e inspirou a maior abstenção eleitoral de sempre. Mas que importa? Ganhou. Vai a nossa oligarquia resistir a este exemplo?

Não vai. Às vezes, diz-se que não temos um Syriza em Portugal. Pois não. Mas isso não quer dizer que não tenhamos quem faça de Syriza. Aos olhos da Europa, do Daily Telegraph de Londres ao Ekathimerini de Atenas, não há dúvidas: o PS de António Costa, por mais diferente que seja a sua história, joga agora na liga do Syriza de Tsipras. Que define o Syriza? A asserção de que é possível permanecer no euro sem consolidar as contas públicas e aumentar a competitividade da economia. Que diz António Costa? Exactamente a mesma coisa. Para ele, o único problema de Portugal é este governo, que teria usado a troika para encobrir a decisão de empobrecer o país. Foi o que repetiu nos debates com Passos Coelho. Costa fez assim da eleição de 4 de Outubro um referendo equivalente ao referendo de Tsipras de 5 de Julho. Não haja ilusões: uma vitória de Costa seria interpretada pelos investidores internacionais como um repúdio do ajustamento e das reformas. Não deixaríamos de o constatar pelos juros da dívida pública no dia seguinte.

Mas dir-me-á o leitor: António Costa não é “tonto”. Quer apenas ganhar as eleições. Uma vez no governo, teremos outro Costa, realista e razoável. Talvez, mas acontece que o caminho não é apenas algo que fazemos: é também algo que nos faz a nós. Costa optou por uma oposição à maneira do Syriza. Se ganhar assim, irá precisar, para justificar uma viragem no governo, do mesmo género de drama e pressão externa que Tsipras arranjou para cobrir a sua reviravolta. O país pagará. Mas se em vez disso, Costa optar pela negação fria do que prometeu na oposição, o custo não será menor.

O Syriza dividiu-se. Vai o PS manter-se unido sob um Costa “austeritário”? E sem maioria absoluta, com quem vai governar e fazer passar cortes e reformas? Com o PCP e o BE? Mais uma vez, alguém dirá: não há problema, a direita ajuda. Acontece que uma vitória de Costa, nestes termos, teria muito provavelmente um efeito perverso. Na passada semana, Costa jurou que em nenhumas circunstâncias viabilizaria o orçamento de um governo minoritário da coligação, seja esse orçamento qual for, e sejam quais forem as consequências para o país. Ou o país lhe entrega o poder, ou ele entrega o país ao caos. Vai a direita, se for vencida neste ambiente sujo de chantagem, conformar-se com um papel de auxiliar bem comportada do governo de Costa? Ou, pelo contrário, será tentada a aprender com Costa? Porque é que o PSD e o CDS, perante um PS minoritário, não haveriam de fazer tudo para lhe dificultar a vida, de modo a poder suceder-lhe numa muito próxima eleição? É duvidoso que algum líder da direita consiga levar o PSD ou o CDS a ajudar o PS. Chegaremos assim, por outra via, à situação da Grécia. Todos os caminhos de Costa vão dar a Atenas.

António Costa tem a sua carreira política em jogo. Decidiu, por isso, ganhar estas eleições a todo o custo. Tsipras mostrou-lhe como se faz: prometer tudo na oposição, para depois, uma vez no governo, explicar que a Europa afinal não consente. Como uma espécie de imperador Nero da democracia, está disposto a deitar fogo ao regime só para entrar em São Bento. Uma vitória sua a 4 de Outubro começaria a apagar a diferença principal entre Portugal e a Grécia. Até agora, houve em Portugal uma maioria parlamentar estável e coerente para sustentar a consolidação orçamental e as reformas estruturais necessárias para manter o país no euro. Como ninguém quer sair do euro, essas condições internas teriam de ser substituídas, como na Grécia, por condições externas, isto é, por um diktat de Bruxelas. O PS pode não querer ser o Syriza, mas ninguém deixa de ser o Syriza só porque quer.

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