Nem uma semana depois de The Economist ter considerado Portugal a melhor economia de 2025, o Governo anuncia o maior investimento de sempre na Defesa. Nós somos aquele trabalhador que recebe uma avaliação de desempenho positiva e, depois de agradecer ao chefe, o primeiro telefonema que faz é para o stand da Porsche. De repente, achamos que somos ricos, quando o que a revista diz é que a nossa economia teve o melhor desempenho avaliando apenas 5 indicadores. É como o lateral-esquerdo do Tondela ganhar a Bola d’Ouro porque os critérios de escolha são o número de cruzamentos para o segundo poste entre os 20 e 25 minutos da primeira parte; altura média das meias em relação ao joelho; episódios de cãibras em jogos disputados à chuva; faltas por agarrão nos calções ao médio interior direito adversário; e número de lançamentos de fora executados no meio-campo defensivo. O problema é que desempenho é muito parecido com despenho.
Para esse investimento histórico, o Ministério da Defesa vai aceder a um empréstimo de 5.8 mil milhões de euros. O que é esquisito, se pensarmos que, no ano passado só executou 55% do orçamentado. É o equivalente a não gastar dinheiro na mercearia, mas depois pedir emprestado para ir jantar a um 3 estrelas Michelin.
A grande questão aqui é este investimento em defesa ser “histórico”. Tudo o que é “histórico” deve ser registado, lá está, na “história”. E, para o fazer no grande canhenho onde estão compilados os registos castrenses ao longo dos anos, este episódio tem de ser inscrito junto ao último grande evento militar que se pode reputar de “histórico”. Que é, por uma coincidência bizarra, o roubo de armas de Tancos.
Em 2017, um paiol do exército português foi assaltado como um vulgar Opel Corsa por um bando de ladrões que o esconderam numa cova no pomar da avó de um deles. O material nunca foi totalmente recuperado. Ou, o que é mais grave, foi devolvido a mais, o que leva a concluir que o Exército nem sequer tinha um inventário completo das armas em armazém. Passados apenas 8 anos, as mesmas Forças Armadas que não conseguem proteger armas obsoletas de uma quadrilha de pilha-galinhas, preparam-se para adquirir 5.8 mil milhões de euros em material bélico de última geração, incluindo fragatas, artilharia de campanha, veículos médios de combate, viaturas táticas, munições e sistemas antiaéreos, satélites de alta-definição e drones. Ou, como dizem os gatunos portugueses, é Natal.
Mais satisfeitos que os bandidos, só os mecânicos. Geralmente, metade do equipamento militar português está em manutenção, por falta de peças.
Tenho de corrigir o que disse de início. Confirma-se que somos o trabalhador que recebe uma avaliação de desempenho positiva do chefe e vai logo ao stand da Porsche, com a agravante de nem sequer ter carta de condução.