Talvez seja um privilégio, mas a relação que tive com a minha mãe, e que tenho com a minha mulher, é incomparável. Mesmo sendo pai de quatro rapazes, continuo a ver no papel da mulher — e da mãe — algo que me impõe respeito.

Não por idealização, mas por constatação. São, na prática, o exemplo mais concreto de resiliência, resistência e altruísmo que conheço. E por isso, sim, têm lugar de rainhas na minha hierarquia pessoal.

Mas esse respeito não me impede de discordar de uma tendência crescente: a transformação da maternidade numa narrativa de sofrimento quase absoluto. Há um discurso dominante que insiste em descrever a mãe moderna como um ser oprimido pelo peso das tarefas, pela ausência de tempo próprio, pela exigência de equilibrar tudo. É uma leitura legítima, mas tornou-se generalizada e, em muitos casos, exagerada.

Hoje vi o desabafo de uma mãe empresária: dizia que leva a filha à escola, que chora, ri, cuida, ralha… Quase como um acto de heroísmo. O curioso é que, no relato, o pai não existia. Havia pai, mas não presença. E é aqui que o discurso se desequilibra: quando o heroísmo se cola à condição de mulher, e não à de mãe.

Não aceito essa ideia. Não aceito que o peso da parentalidade pertença só às mães. Não aceito que o pai continue a ser retratado como figurante. Não o sou, e conheço muitos que também não o são.

Respeito as histórias de desigualdade que marcam o passado e, em muitos casos, ainda o presente. Mas o feminismo – que nasceu para procurar equilíbrio – perde quando passa a medir superioridade. O pai ausente existe, sim. Mas o pai presente também. E este raramente cabe no discurso dominante.

A parentalidade não é um campo de reivindicação, é um pacto de responsabilidade. Quando há desequilíbrio, não é por causa do género. É por arrogância, por desinteresse ou por falta de compromisso. Homem ou mulher, quem se demite da sua parte, falha. Mas quem cumpre, não precisa de ser tratado como herói – basta ser justo.

Simone de Beauvoir escreveu que “não se nasce mulher: torna-se mulher.” O mesmo vale para os pais. Não se nasce pai: torna-se. A diferença está em quem escolhe estar.