“O Bom, o Mau e o Vilão” é um clássico dos filmes de cowboys, marcado por uma icónica banda sonora de Ennio Morricone. Para quem não se recorde, o filme narra a história de três aventureiros que, durante o período da guerra civil americana, procuram uma arca com ouro roubado. O filme faz um retrato psicológico complexo e tipificado das três personagens principais: O Bom – Blondie (Clint Eastwood) é um pistoleiro com sentido de honra; O Mau – Angel Eyes (Lee Van Cleef) é impiedoso e não olha a quaisquer meios para atingir os seus propósitos; e O Vilão – Tuco Ramirez (Eli Wallach) é impulsivo, rancoroso e um mentiroso compulsivo.
O filme explora temas de lealdade, traição e a natureza do bem e do mal. O enredo, com confrontos, voltas e reviravoltas, é marcado pela astúcia e habilidades de cada um dos protagonistas, para manipular toda e qualquer situação a seu favor.
O clímax da história culmina no icónico duelo no cemitério, onde os personagens confrontam as suas diferenças e as suas motivações. No final, a busca pelo tesouro revela mais sobre a natureza humana do que sobre a riqueza material, deixando-nos a reflectir sobre a verdadeira essência do “bom”, do “mau” e do “vilão”, num mundo onde as linhas entre eles são frequentemente esbatidas.
Neste filme intemporal, podemos traçar um paralelo bastante real com a actualidade, onde Volodymyr Zelensky brilha como o “Bom”. Ele é o herói destemido, que levanta a bandeira da liberdade e da dignidade no meio da guerra, lutando pela soberania da Ucrânia. A sua coragem inabalável e a busca por apoio diante da opressão, lembram-nos que a verdadeira riqueza reside no ser, assente na humildade, justiça e na humanidade.
Por outro lado, Vladimir Putin assume-se como o “Vilão”, um governante sombrio que busca expandir o seu domínio, desafiando as fronteiras da paz. Utiliza a intimidação e a força bruta para impor a sua vontade e o que quer ter, ameaçando não apenas a Ucrânia, mas pondo em causa a essência da coexistência pacífica entre as nações. A sua ambição, insaciável e voraz, torna-o na figura do vilão.
E entre esses dois mundos, surge Donald Trump, o “Mau”, uma figura complexa e gananciosa que, embora não empunhe a espada da opressão, caminha por um caminho repleto de ambiguidade. A sua retórica e recentes tomadas de decisões, criam incerteza nas alianças e nas esperanças de muitos. Ele é o factor imprevisível na geoestratégia global, sendo que só a sua presença, per si, provoca inquietação e desconfiança, complicando, as já de si, difíceis competências da diplomacia.
No recente encontro entre Zelensky e Trump, as nuances dessa analogia tornaram-se ainda mais evidentes, como se cada personagem do épico western ganhasse vida num cenário contemporâneo. Zelensky, o “Bom”, encontrou-se com Trump, o “Mau”, num momento decisivo para a Ucrânia. A reunião, realizada na Casa Branca, era a busca de Zelensky por um apoio em tempos de incerteza. Ele procurava não apenas recursos, mas também um reconhecimento que fortalecesse a sua posição diante da agressão russa.
Trump, por sua vez, assume o papel do “Mau”, cuja ambiguidade, ganância e pragmatismo comercial e mercantilista tornam a situação muito delicada. Embora, a sua presença ofereça uma oportunidade de apoio, a sua postura agressiva e mal-educada, acompanhada pelo seu vice-presidente, criaram um véu de desconfiança que complica o reforço de uma aliança que já viveu melhores dias. A interação entre eles foi carregada de tensão, como se a procura de Zelensky por uma nação amiga estivesse sujeita aos caprichos de um aliado que pode não ser totalmente confiável.
A reação da Rússia é como a sombra do “Vilão”. Putin, observou, com toda a certeza, o encontro com um olhar atento e calculista. A Rússia, que via a aproximação entre Zelensky e Trump como uma ameaça à sua hegemonia, relaxa agora. O Kremlin e os seus porta-vozes, ao se posicionarem satisfeitos sobre a forma como o encontro entre Trump e Zelensky se deu, revelam a sua disposição em perpetuar a tensão e a intimidação, tentando desestabilizar a confiança que Zelensky construiu. Assim, neste enredo intricado, o encontro entre Zelensky e Trump tornou-se um capítulo decisivo na luta entre o bem e o mal, e onde a figura do vilão continua impune.
A juntar a estas personagens do filme, podíamos ainda ir buscar o Capitão Harper, o capitão bondoso que comandava um campo de prisioneiros do Exercito da União. O Papa Francisco assume-se no filme como Capitão Harper, actuando como uma âncora moral num mundo frequentemente marcado por interesses em conflito e agendas pessoais, procurando unir as nações em torno de causas comuns, como a crise climática, a pobreza e os direitos humanos.
Assim como em “O Bom, o Mau e o Vilão”, onde a presença de figuras de autoridade influenciam os caminhos que as personagens vão escolhendo, a liderança espiritual do Papa teria a capacidade de, como autoridade, moldar percepções e mediar conflitos em tempos de crise. Mas no presente, a debilidade do Papa, neste contexto de crescente instabilidade global, torna-se num factor mais, que complica a dinâmica entre as nações e as relações internacionais, pois a falta de uma voz forte e unificadora resulta num vazio de liderança. Sem uma liderança moral que possa promover o diálogo e a reconciliação, os estados sentem-se mais inclinados a agir de forma unilateral, exacerbando as tensões existentes e potencializando a instabilidade global.
Neste momento em que a Ucrânia, através da Europa se tenta rearmar, as tensões intensificam-se, a ausência de uma liderança papal robusta, resulta na perda de um importante contrapeso diplomático.
Como figurantes, temos a Europa, que finalmente compreende sua vulnerabilidade. O duelo entre Zelensky, Trump e Putin expõe as dependências da Europa (à energia da Rússia e à defesa dos EUA). Como no duelo final de qualquer filme de cowboys, onde apenas os bem armados sobrevivem, a Europa percebe agora, que a sua sobrevivência depende de uma transformação das suas políticas de defesa.
A necessidade de uma economia de defesa robusta surge, não como uma escolha, mas como um imperativo existencial. O velho continente, antes adormecido sob o guarda-chuva protector dos americanos, vê-se agora forçado a forjar as suas próprias armas e a desenvolver os seus exércitos.
A indústria de guerra europeia nasce assim não do desejo de conflito, mas da necessidade de paz através da força. Os investimentos em defesa, antes vistos com desconfiança, tornar-se-ão na nova moeda da soberania e garantia para um futuro onde a Europa se possa defender por conta própria. Este esforço não apenas fortalece a capacidade militar, mas também impulsiona a inovação tecnológica, gerando empregos e estimulando o crescimento económico.
Neste novo cenário, a Europa busca não a guerra, mas a paz através da dissuasão. A capacidade de se defender eficazmente torna-se a melhor garantia contra a agressão, permitindo que o velho continente, e todos nós, mantenhamos a nossa integridade e valores num mundo cada vez mais incerto.
Assim, a crise atual transforma-se num catalisador para a reconfiguração de uma Europa mais forte, mais unida e mais preparada para enfrentar os desafios do futuro.