Depois de três votações inconclusivas forçados por uma primeira-ministra que começou por votar «Remain» no Referendo de 2016 e, por mera sede de ficar na história, defende agora um acordo ilegível para a esmagadora maioria das pessoas a fim de consumar o divórcio do Reino Unido com a União Europeia; depois de uma dúzia de soluções avulsas atiradas ao parlamento mais antigo e menos proporcional do mundo, nenhuma das quais obteve clara maioria; depois, finalmente, de se esgotar um primeiro adiamento da decisão a que se comprometera e de ter começado agora mais uma rodada de conversações da primeira-ministra Theresa May com os principais representantes da UE, está tudo na mesma e nem sequer há ainda novo acordo quanto ao adiamento da decisão de se afastar do resto da Europa unida: talvez até ao fim da semana ou talvez nunca…

Confirma-se, pois, que a UE foi feita para construir e aprofundar gradualmente esta experiência política, económica e financeira extraordinária que já dura há mais de 60 anos, mas não para ser abandonada! A não ser invocando um desmesurado e insensato soberanismo, batendo com a porta sem saber o que fazer a seguir, como os mais duros parlamentares favoráveis ao «Brexit» – mas ainda assim minoritários – dizem pretender. Verifica-se com alguma surpresa que a tão cantada democracia britânica não só não tem solução para tudo como pode deixar muito a desejar enquanto representação político-partidária.

Vê-se hoje que, para além da desunião entre as nações constituintes do reino pretensamente unido, para já não falar da República da Irlanda, actualmente o maior sucesso da UE, os sentimentos europeístas e anti-europeístas atravessam os dois grandes partidos ingleses: não se trata, portanto, de uma questão de direita versus esquerda. Se esses partidos fogem à realização de um segundo referendo, não é por causa de interesses britânicos que não se sabe aliás quais são, mas sim por motivos de mesquinha sobrevivência desses dois partidos que têm partilhado o poder há cem anos!

Do lado da UE, sobretudo da França, que já se tinha oposto outrora à entrada do Reino Unido na Comunidade Económica Europeia, a única dificuldade é permanecer calma e, como o nome indica, unida perante a incapacidade britânica de tomar uma decisão ruinosa para ela mas também, evidentemente, para a UE, com grande gáudio de potências iliberais como são a China, a Rússia e, neste momento, os próprios Estados Unidos, os quais não hesitarão em chamar para o seu círculo a Grã-Bretanha se esta vier à ceder à irresponsável tentação soberanista, sobretudo no caso de subir ao poder alguém como Boris Johnson!

É, pois, natural e desejável que a UE torne tão difícil quanto possa a ruptura inglesa e galesa, já que os outros «reinos» votaram «Remain», particularmente num momento internacional da maior insegurança, para mais com os desvios igualmente iliberais dos governos e dos movimentos populistas europeus, tanto de direita como de esquerda, se é que há na prática alguma diferença real entre eles do ponto de vista democrático.

As expectativas são, pois, de grande ansiedade e, se muitos albergam ainda a esperança que a Grã-Bretanha recue na sua decisão, é necessário impedi-la de ir de adiamento em adiamento até à queda de Theresa May; forçá-la se necessário a realizar as eleições europeias e mandar os seus deputados para o novo Parlamento Europeu; e, ao mesmo tempo, cortar-lhe as possibilidades de perturbar o funcionamento da União que a permanência nas instâncias decisórias da UE lhe abre de novo ao prolongar a indecisão!

Há quem diga que isso é cercear a soberania britânica e talvez o seja. Porém, a responsabilidade – ou melhor, a irresponsabilidade – é toda dos governos britânicos desde o dia em que o antigo primeiro-ministro, David Cameron, jogou com a «bomba atómica» do referendo a fim de domesticar –pretendia ele – a facção soberanista do seu próprio partido, mas a «bomba» rebentou-lhe nas mãos e continua ainda a ameaçar mais estragos enquanto a luta pelo poder no Partido Conservador segue sem solução à vista, como Theresa May verificará daqui a pouco tempo!

Prova-se, pois, como sucede igualmente em Portugal, que as lutas internas dos partidos e coligações podem ser o oposto de uma pretensa unidade. Basta ver o preço que Portugal tem pago e, quem sabe, continuará a pagar a fim de manter unidos os três bocados da «geringonça». Neste sentido, atrevo-me a dizer que a única coisa boa do «Brexit» foi expor à vista de todos as divisões internas dos dois partidos hegemónicos, tendo já levado vários deputados de ambos estes partidos a formarem um terceiro agrupamento que entende não se servir da UE como pretexto para dirimir as lutas internas pelo poder no seio dos partidos privilegiados pelo inacreditável sistema eleitoral britânico: o mais desproporcional que existe!