Segunda semana de Junho. Pedro Adão e Silva vai tomar posse como ministro da propaganda – é o que se conclui da nomeação com que o governo agradece a lealdade ao comentador, e delega nele a desgraçada missão de passar cinco anos e meio a fixar no país a versão que a esquerda conta do 25 de Abril. Ainda atordoado, o Portugal das “transições” – climática, digital, sanitária, e todo o baixo calão do PS – toma conhecimento de Fernando Medina na câmara de Lisboa, deste vez no nobre papel de cúmplice, responsável por entregar a Putin os pescoços de três activistas da oposição russa. É este o partido que manda, o PS que temos. Não há nem nunca houve outro PS e tudo indica que, se mudar, é para se tornar ainda mais prepotente e esquerdista.

Novembro de 2020. Perante o resultado das eleições regionais, o novo CDS negociou um acordo nos Açores acabando com mais de vinte anos de poder socialista. Mas não acabou só com o governo do PS; essa aliança acabou também com o período de entorpecimento e impotência em que a direita ficou quando António Costa e os seus camaradas montaram a geringonça, em 2015. Foi um alívio para os açorianos, um sinal de esperança para a direita portuguesa e uma saborosa cotovelada na sobranceria do regime. Correu por essa altura um esclarecimento lateral que sugeria a impossibilidade de convivência com o Chega, um papelinho de redacção confusa que a direita dos partidos e da opinião tratou rapidamente de repudiar. Compreende-se o receio de que o Chega possa apresentar sarilhos aos velhos partidos da democracia, pela inconsistência ou estranheza da sua estrutura retórica e pelo carácter imprevisível do seu líder. Mas o grande ponto, neste caso, foi o dano simbólico e real que o acordo conseguiu contra o PS. O acordo dos Açores e a aliança entre os partidos da direita provocou um autêntico desconforto entre os senhores do regime, não pela convivência com o Chega, mas pela exclusão do PS.

Era preciso pôr uma tampa em cima deste processo para o asfixiar antes dele crescer; era preciso impedir o país de ganhar uma perspectiva nova sobre o seu governo, a sua pobreza, a banalidade preguiçosa da esquerda e a sua escuridão, e compreender que, afinal, contra o que lhe diziam, havia uma alternativa e uma certa luz. Com um presidente recém eleito no CDS, partido histórico na democracia e nuclear à formação de uma alternativa de direita, bastava calar Francisco Rodrigues dos Santos. Ou não o comentar, a ele nem aos novos dirigentes, como se o que eles dizem fosse irrelevante. A estratégia tem a sua lógica, uma espécie de profecia auto-realizável; enquanto o regime conseguir que o país veja o CDS como irrelevante, o país não entende o CDS como núcleo de uma alternativa. Sucede que o jornalismo ainda não está todo subsidiado pelo PS; algum jornalismo ainda não cedeu à indisfarçável reverência. Sucede também que esta maneira que o regime tem de lidar com a oposição, e cada vez mais, a pouco e pouco, à medida que se torna mais hegemónico, menos escrutinado, mais desesperado e autoritário, escorrega da manipulação política para a simples fraude. O CDS existe e está vibrante, atento a Portugal e empenhado no seu bem estar. A nova direcção do partido sabe que o PS é o problema e não está disposta a qualquer compreensão ou complacência. Francisco Rodrigues dos Santos e os novos dirigentes, nos quais me incluo, e cuja responsabilidade aceito, desenham a linha vermelha na fronteira do PS.

Há duas semanas deu-se a terceira convenção do MEL, e vale a pena relembrar o que esta convenção deixou exposto. Nos vários painéis, a direita trouxe à conversa uma série de assuntos, e os mais nucleares para a política portuguesa, matérias sobre as quais havia gente preparada, estudos e números, perspectivas preocupantes, caminhos de solução e propostas viáveis. Maneiras de contrariar, acima de tudo, a maldição de pobreza a que a esquerda condena o país, e que está na base de todos os limites à liberdade e criatividade.

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No fim do primeiro dia, Francisco Rodrigues dos Santos fez o discurso que a direita esperava há muitos anos. Definiu o Partido Socialista como o grande adversário. Explicou, ponto por ponto, onde estavam os erros e de que maneira estes erros agridem o país. Mostrou abertura à direita, conversa à direita, negociação à direita, e combate à esquerda.

De resto, o diagnóstico não é novo nem surpreendente. Foi Paulo Portas quem percebeu primeiro, e disse em discurso na sede do Caldas, em 2016, antes de abandonar a presidência do partido, que a direita não voltaria a ser governo se não fizesse uma grande coligação com maioria absoluta. A nova direcção do partido quer formar governo e quer tirar o poder das mãos do PS; não quer, porque não lhe basta, dar aos portugueses as sobras que o PS interessadamente concede. Compreende que existe uma direita de base social com necessidade de ser representada civilizadamente, e que o CDS tem essa obrigação. Sabe que destituir o PS é em si próprio um programa político a submeter ao país. Começar a arrancar o PS do aparelho do Estado, das instituições do regime, dos órgãos da república, mesmo aqueles que só servem a democracia se forem independentes; desincrustar o PS dos órgãos reguladores, dos grupos de comunicação social, do ensino, da academia e do mundo editorial – a que o PS só trouxe mediocridade –, e de todas as áreas da vida pública que o PS parasitou e estragou, este exercício é, neste momento, o maior serviço que a direita pode fazer a Portugal.

Existe um CDS actual, moderno, atento e capaz. Neste CDS convive a experiência e a inexperiência, sabendo que nem toda a experiência é vício e a inexperiência, com talento e orientação, só precisa de oportunidade; convive a moderação e a intransigência, no sentido em que a medida de todas as coisas vem do contacto com o humano e o possível, e a tolerância só existe quando se conhecem os limites; convive a maturidade e a juventude, o liberalismo, o conservadorismo, a democracia cristã e a doutrina social da igreja — todas essas simpatias ou inclinações conviveram bem, e continuam a conviver saudavelmente dentro do CDS. Cada uma delas dá bons contributos à interpretação do país. O que esta direcção não quer é compactuar com o PS.