Fui encontrar o Cónego Jeremias razoavelmente indignado, à conta de vários falecimentos referidos pela comunicação social. A sua indisposição decorria da forma como esses acontecimentos tinham sido comentados nas redes sociais.
– Então, Senhor Cónego, como reagiu a essas tristes notícias?
– Pois, olhe, com tristeza, como é óbvio, sobretudo em relação ao jovem forcado. Sobre este caso não me vou pronunciar, mas sim sobre a ex-governante também falecida, sobre a qual muito se disse e escreveu, mas temo que pouco se tenha rezado, que é a única coisa importante que se pode e deve fazer pelos fiéis defuntos.
– Porque o indignaram, em especial, os comentários sobre essa morte?
– Não foi tanto pela pessoa em si, que muito respeito embora não a tenha conhecido pessoalmente, mas pelo modo como a notícia foi referida e comentada nas redes sociais: é de uma frivolidade espantosa! É revoltante tanta superficialidade!
– Porquê?
– Porque a morte, seja de quem for, é sempre um acontecimento trágico que deve ser respeitado, mesmo sabendo que a vida não termina, apenas se transforma. Como diz a liturgia da Igreja, ‘vitamutatur, nontollitur’, isto é, a vida muda, mas não acaba.
– Mas não acha que os amigos e familiares mais próximos podem testemunhar os seus sentimentos, bem como o seu apreço pela pessoa falecida?
– Sim, claro, e é muito positivo que honrem a sua memória, referindo aspectos positivos dessa pessoa, desde que respeitem a sua intimidade. O que já não parece razoável é que haja quem se aproveite de um acontecimento desta natureza para se autopromover.
– Autopromover como?!
– Por exemplo, comentando as circunstâncias em que ocorreu a morte e que não têm por que ser do domínio público, ou aproveitando a morte de alguém conhecido para dizer publicamente que era amicíssimo dessa pessoa, que eram inseparáveis, que se davam muitíssimo bem, etc., etc., etc.
– Mas, não pode ser verdade?!
– Claro que sim, mas esse tipo de comentários é, muitas vezes, uma forma encapotada de autoelogio: vejam lá como eu sou tão bom que aquela pessoa, que era tão famosa, tinha-me pelo seu melhor amigo e confidente! Também há quem aproveite para pôr na boca do morto elogios que, mesmo que por ele tenham sido proferidos com sinceridade, não fica bem ao próprio reproduzir, como é óbvio. O que se escreve nas redes sociais é público e, portanto, não é a sede própria para confidências que, embora façam sentido na intimidade de uma genuína relação de amizade, são despropositadas em público. Também no âmbito das redes sociais se deve guardar o pudor, que é a privacidade devida aos sentimentos mais íntimos.
– As referências à amizade não podem ser, também, uma forma de justificar a intervenção?
– Com certeza e é legítimo invocar uma relação de amizade que foi autêntica, embora algumas ‘amizades’ post mortem sejam bastante duvidosas … Com efeito, podem ser apenas um pretexto para uma pessoa se exibir socialmente, à custa da memória de alguém que já não a pode desmentir.
– E que me diz o Senhor Cónego das Missas em homenagem do falecido?!
– Essa é outra, até porque não faltam padres que vão no engodo de converter a homilia da Missa das exéquias numa espécie de elogio fúnebre, ou mesmo numa expedita canonização da pessoa falecida! Ora a Missa, sobretudo quando celebrada pelos fiéis defuntos, é uma prece oferecida a Deus em reparação pelos seus pecados e não um ritual para sua glorificação, que só faz sentido depois da beatificação e canonização, que são actos da exclusiva competência do Santo Padre. É justo e consolador sublinhar aspectos da vida do defunto que foram exemplares, mas as suas exéquias não são a ocasião propícia, nem o lugar oportuno, para lhe fazer uma homenagem.
– Então, que devem dizer os celebrantes das Missas exequiais?
– Devem convidar as pessoas presentes a rezar pela alma desse seu familiar e amigo, e por ele oferecerem sufrágios. Neste Ano Santo, é mais fácil alcançar indulgências plenárias ou parciais pelos defuntos: ambas remetem, na sua totalidade ou em parte, respectivamente, a pena temporal devida pelos pecados do falecido.
– Mas há normas específicas sobre este particular?
– Claro que há: não é preciso inventar nada de novo! Com efeito, nos preliminares do Ritual Romano para a Celebração das Exéquias, diz-se: “Evitando as formas de exibicionismo vão, é justo que se dê a devida honra aos corpos dos fiéis defuntos, que pelo Batismo se tornaram templo do Espírito Santo; convém, portanto, que, ao menos nos momentos mais significativos entre a morte e a sepultura, se afirme a fé na vida eterna e se façam orações de sufrágio.” E, no nº 379 da Instrução Geral do Missal Romano: “A Igreja oferece pelos defuntos o sacrifício eucarístico da Páscoa de Cristo, a fim de que, pela mútua comunhão entre todos os membros do Corpo de Cristo, se alcance para uns o auxílio espiritual e para outros consolação e esperança”.
– As referências à necessidade dos sufrágios e do auxílio espiritual, que se pode e deve prestar aos fiéis defuntos, pressupõe que a salvação não é universal, não é automática, nem imediata … No entanto, a possibilidade da condenação eterna está praticamente ausente das homilias, que fazem crer que todos vão para o Céu …
– Nos Estados Unidos, quando ainda viviam João Paulo II, a Princesa Diana de Gales e a Madre Teresa de Calcutá, fizeram uma sondagem sobre a possibilidade de estas pessoas irem para o Céu. Delas, a melhor classificada foi a santa fundadora das Missionárias da Caridade, mas ficou-se por um modesto segundo lugar, porque o primeiro foi … para o próprio entrevistado!
– Uma tal atitude é apenas ignorância, ou também presunção?
– Só Deus sabe, mas tanto o desespero como a presunção são pecados contra o Espírito Santo, porque comprometem seriamente a salvação eterna, que ninguém pode alcançar por si próprio, pois é um dom de Deus. A Igreja é sempre portadora de esperança, sobretudo neste Ano Jubilar, mas sem esquecer a imperiosa necessidade de rezar pelos fiéis defuntos. Também não pode ser cúmplice do mediático cancelamento da possibilidade real da condenação, nem deixar de a todos, todos, todos, como diria o Papa Francisco, chamar à conversão, oferecendo-lhes os meios necessários para a salvação.