Desde o princípio do século passado, que a máxima “Quando os Estados Unidos espirram, a Europa constipa-se” se tornou numa das leis da economia moderna. E isso permite-nos fazer um paralelo: “Quando o consumo vacila, a indústria alimentar quebra, o emprego colapsa e o país desmorona-se.” Vem aí o diabo?

Todo o tipo de produção, seja ela dirigida a um mercado de massas ou de nicho, está dependente de um factor: a procura. A procura, e o consequente consumo, é a espinha dorsal de qualquer modelo de produção e a indústria alimentar não foge à regra. É essencial, portanto, que seja feita uma análise desprendida e séria, um diagnóstico que nos permita encarar o futuro com resoluções capazes e definitivas, de modo a garantir que o amanhã, como o desejamos, esteja assegurado.

Vamos então aos números. Que consequências trouxe a pandemia da Covid-19 para o consumo no sector alimentar?

Segundo a Sibsanalytics, no momento da declaração do estado de emergência e das medidas de confinamento (final de Março) houve uma corrida ao consumo – todos estamos recordados das imagens que percorreram o país durante esses dias – que se traduziu num gasto de 1,1 mil milhões de euros nesse mês, em super e hipermercados, em contraste com os 888 milhões de euros gastos no período homólogo do ano passado. Foi nesse momento que o consumo online disparou, crescendo 200 por cento, um aumento suportado sobretudo por consumidores que nunca haviam utilizado estes serviços. Mas enquanto as encomendas no sector alimentar aumentavam de forma exponencial, a respectiva indústria via o número de trabalhadores reduzir-se a níveis históricos, com parte significativa dos seus profissionais obrigados a ficar em casa, uns em vigilância, outros, devido à decisão de fecho das escolas, em casa com os filhos. Esta redução no número de trabalhadores efectivos, que coincidiu com um pico de procura, não foi acompanhado por um pico de produção, pelo que as encomendas foram apenas parcialmente satisfeitas, traduzindo-se em algumas prateleiras vazias e procura por satisfazer. Este foi um momento de sufoco para toda a indústria alimentar, a que nunca antes se assistira, e que viu os seus profissionais responderem de forma nobre ao desafio exigente.

Durante o mês de Abril o número de transacções em super e hipermercados foi 18 por cento menor face ao mesmo período de 2019, mas foi dispendido um valor absoluto superior – as pessoas frequentavam menos os locais de consumo (segundo a Marktest, 67% dos portugueses admitiram ir menos às compras), mas gastavam mais. Em média, os portugueses gastaram 38,5 euros por transacção, quase mais 10 euros do que no mesmo mês do ano passado.

Um pico, por definição, é sucedido por um declive negativo e todos os números relativos a Abril deste ano são inferiores aos do mês que o antecede. Fenómeno que se verifica também no mês de Junho, último mês cujos dados são conhecidos, e onde os indicadores de consumo continuam a diminuir. Reflexo disso, tem sido o abrandamento das encomendas no sector, que anteveem uma dificuldade para a indústria alimentar em cumprir os seus compromissos perante fornecedores, clientes e, principalmente, trabalhadores. A chegada do Verão pode ajudar a disfarçar este fenómeno com o surgimento dos típicos negócios sazonais, também eles, enfraquecidos pela pandemia, mas será sempre uma questão de tempo.

As contas começam a acumular-se na casa dos portugueses: há empréstimos por pagar que foram adiados através de moratórias, mas que não o serão eternamente; há milhões de portugueses em situação de lay-off, que viram o seu vencimento diminuído em um terço; há outros tantos portugueses com o emprego em risco e milhares de empresas a encerrar portas todos os dias.

O diabo não chegou, mas os indicadores apontam para que esteja a caminho. Vem sob a forma de recessão económica e chegará ao consumo, atirando milhares de portugueses para o desemprego e muitos deles para uma situação de pobreza. Vai incidir em cheio numa economia fragilizada e em famílias expostas. Seja qual for o Governo que o enfrentar, será sempre um Governo de Salvação Nacional, porque a resiliência portuguesa a isso obriga.