1 Vai ser muito interessante ver a composição da equipa que formará António José Seguro e que novos “intérpretes” da política entrarão no Palácio. A escolha de uma equipa política deste grau e deste nível de importância — sim o Presidente tem poder e poderes — pode de imediato sinalizar qualidade, experiência, critério (ou não); pode anunciar preferências e antecipar comportamentos; pode vir mais ou menos carregada de cores partidárias.
Saber escolher é um indicador precioso e de certa forma, até, a assinatura de quem escolhe. Ver-se-á. E claro, será interessante, na forma e na substância, observarmos a natureza das relações do Chefe de Estado com o país, o parlamento, os partidos. Ser um institucionalista ou repetir que “será o Presidente de todo os portugueses” deixa-nos onde já estamos. Ou mesmo onde já estávamos: do que me lembro, esta campanha eleitoral — estive em todas – foi a menos esclarecedora, interpeladora e anunciadora das que testemunhei.
Foram semanas pastosas de palavras e mortiças de política. Não houve segunda volta, houve um arremedo que quase se confundia com desinteresse, e depois houve água e tragédia. E o desinteresse passou a esquecimento.
Em resumo: qual é o pensamento de António José Seguro “doublé” de Presidente da República? Até aqui soubemos pouco. Cada coisa a seu tempo? Mas houve um “exploit”. Não a vitória certa, e não apenas meramente previsível, de António José Seguro. Houve o facto notável de, olhando para trás e conhecendo a história — a dele, a do PS, a dele “no” PS e depois o seu voluntário exílio político — Seguro ter sido capaz disto e em tão pouco tempo político!
É evidente que nunca seria Presidente da República sem a duplamente rendida generosidade do centro direita*: ninguém sabe hoje quanto vale verdadeiramente o PS e as extremas esquerdas estão pulverizadas, nunca seria por aí. Sucede que será Seguro a sentar-se no Palácio de Belém daqui a dias e não outro (e eram alguns).
O que ele vai fazer politicamente com a sua própria surpresa face a este desfecho e como irá capitalizá-lo serve-nos o cúmulo da incerteza, ou, pelo menos, uma das maiores – a maior? — incerteza de que há memória política entre nós. Achar-se-á que exagero porque justamente a personalidade do futuro Presidente parece vedar incertezas, prevenir surpresas, fugir de sustos e trapalhadas. Nunca fiando: a política é a maior fornecedora de surpresas que conheço.
Seja como for, a história desta eleição terá um dia absolutamente de ser contada e pode até — sugiro eu — começar a ser contada começando pelo PS.
2 Segunda constatação: a rejeição nacional de André Ventura foi o mais forte factor político destas eleições. Poderosíssimo: não conseguiu espevitar a abstenção com que tanto contava; obteve pouquíssimas vitórias no mapa do país; ampliou menos do que previa e necessitava o perímetro do Chega; o discurso de acusação a tudo e todos não teve o eco esperado: a “conversa de chacha”; o país como um “bar aberto” ou o “são todos iguais” são motes que enjoam mais do que impressionam. E como se fosse pouco, a ida de Ventura aos cenários das cheias nem convenceu, nem comoveu: não votaram nele.
Se tudo foi igual, previsível, esperado, sobra-me uma dúvida: aconteceu porque ele quis assim, porque ainda é cedo, porque não sabe gerir-se politicamente? Porque não foi capaz? Muito provavelmente porque mesmo agitando-se na campanha, preferiu limitar-se a estes “serviços mínimos”…
O resultado, ao contrário do que parece, não foi famoso. Não foi, não. Voltei aliás a ver nele – e há tantas maneiras de “ver” – a sombra, o peso, a surpresa de alguma boa dose de desilusão.
Arriscando-me pois a grande discordância — e a que me afoguem nos números e percentagens agora obtidos pelo Chega — fui buscar duas simples linhas a um texto aqui mesmo escrito no dia 28 de Janeiro: “André Ventura talvez já tenha percebido que nem será eleito para Belém, nem liderará direita nenhuma no país a não ser a dele”.
Na altura estas palavras foram-me ditadas pela modesta performance de Ventura no seu último debate televisivo com Seguro. Mais do mesmo, num redutor, quase asfixiante, discurso de sentido único em direcção ao seu partido.
Reponho-as hoje, porque apesar dos votos ganhos — mas há escadas que sobem e não levam a nenhum lado – persisto em considerar que há um limite para a sementeira de eleitorado: a cartilha é só uma, o discurso é de modelo exclusivo: ataques sempre mal doseados e quase sempre caricaturais ao “sistema”; ao conluio de interesses; à corrupção. Doses vitamínicas de acrimónia, acusação, deturpação, demagogia. Horror visceral aos últimos 50 anos da vida do país, metidos na mesma gaveta: cinco décadas iguais em malfeitorias, abusos de poder, compadrios, jogos de interesses. O líder do Chega acha que desses anos não resta pedra sobre pedra, sem contabilizar que diante dele há um país que discorda e veta porque não se revê nem reconhece no Portugal que ele nos atira a cara a toda a hora. Eu pedirei desculpa se me enganar.
3 Alguém devia ter aconselhado José Luís Carneiro a ser menos incauto. Mais valia que alguém lhe tivesse sussurrado ao ouvido aquela frase tão do agrado de António José Seguro — “qual é a pressa?” — quando o líder do PS se precipitou para as televisões reivindicando o seu quinhão na vitoria do candidato socialista. Uma quota parte que ele quer muito eloquente, muito farta, muito vistosa. A seguir absolutamente.
4 Não sei o que me pareceu mais confrangedor: se a reentrada no espaço público de Gouveia e Melo aproveitando – usando-a — uma tragédia nacional como meio e instrumento para voltar à cena, se a comoção com que a media o acolheu.
PS: Nem o telefonema do Presidente da República nem a hora me surpreenderam quando atendi o meu telemóvel: é-lhe costume fazer chamadas tardias, já me aconteceu recebê-las. Mas era um Marcelo irado e de fala acelerada quem me ligava, às zero e 40 minutos da manhã: o que eu tinha dito na SIC Notícias duas horas antes “nunca tinha existido”. Ah bom? Aí sim, estranhei, mas como se eu tinha lido o que contara e se o que contara me parecera tão verosímil?
O caso é que lera uma discrição – admito que apimentada mas apenas isso – de uma viagem de Falcon de Bruxelas para Estrasburgo na qual o Presidente dera “uma boleia” a António Costa que também para lá se dirigia na sua qualidade de Presidente do Conselho Europeu. Rezava a discrição que o Chefe de Estado, à saído do voo, tinha uma vez mais sublinhado a “cumplicidade entre ambos” – Presidente da República e Presidente do Conselho Europeu – referindo como tinham apreciado aquele reencontro, conversado muito e “não tendo até esquecido os ‘Luíses’, numa óbvia referência a Luís Montenegro e Luís Marques Mendes.
Pois bem, extraordinariamente nada disto acontecera. O que achara sim, verosímil – tratando-se da pública e publicitada cumplicidade entre estes dois personagens, no natural gosto que teriam naquele reencontro –, “tão felizes que tinham sido sem o saber”, na relação pouco fluida, nem sempre amistosa e as vezes tensa (a apreciação é da minha responsabilidade exclusiva responsabilidade) do Chefe de Estado com o seu primeiro ministro, tudo me pareceu não só possível, como natural.
Extraordinariamente não foi. O que me leva antes do mais e obviamente a pedir desculpa. Trata se apenas de uma simples vulgar viagem de avião onde para além dos dois passageiros citados “seguia também uma delegação governamental chefiada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros” e “onde nunca se falara de política”. Logo o que eu referira como tendo ocorrido, nunca “naquelas circunstâncias poderia ter tido lugar.” Para uma espectadora tão atenta como fui durante oito anos da relação entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa havia ali algum sentido de credulidade. Estava enganada. Volto a pedir desculpa ao Chefe do Estado, a António Costa e a quem me ouviu ontem na SIC Notícias. (nota acrescentada às 12h30)
* Não vá o diabo tecê-las, Seguro teve o óbvio bom senso de se apressar a lembrar que “a maioria presidencial que o elegera se esgotara naquela noite”. E a “área não socialista” que verdadeiramente fez dele Presidente da República? Dissolveu-se? Espera? Ambiciona?