É habitual descrever-se o ensino superior como um “elevador social”, pela sua capacidade de promover mobilidade intergeracional. Em Portugal, essa imagem continua válida, mas com um senão: o elevador funciona, sim — mas está lento e de difícil acesso para muitos.
Segundo o relatório Estado da Educação 2023, do Conselho Nacional de Educação (CNE), os trabalhadores com formação superior recebem, em média, mais 73% do que os que possuem apenas o ensino secundário. Além disso, a taxa de empregabilidade entre jovens dos 25 aos 34 anos com ensino superior é de 88,3%, contra 84,9% entre os que têm apenas o secundário. Estudar continua, claramente, a compensar. Mas será que compensa para todos?
Apesar dos progressos registados — como a redução das propinas, a expansão das bolsas e, mais recentemente, a criação do contingente prioritário para estudantes de agregados carenciados — o acesso ao ensino superior continua condicionado pela origem socioeconómica dos candidatos. Segundo um estudo da fundação EDULOG, publicado em 2025, 41% dos estudantes do escalão A só conseguiram entrar no curso pretendido através deste contingente.
A desigualdade no acesso torna-se ainda mais evidente com os dados publicados no Boletim Económico do Banco de Portugal (junho de 2024): apenas 10,9% dos filhos de pais com o 9.º ano e baixos rendimentos completam o ensino superior. Se o rendimento familiar for mais elevado, essa percentagem sobe para 31,1%, mesmo mantendo o mesmo grau de escolaridade parental. Já entre famílias em que os pais têm ensino superior, os filhos têm mais probabilidades de frequentar a universidade se o rendimento familiar for elevado (79,8% face a 74,8%). A conclusão é clara: de pouco basta o “mérito” — a condição económica continua a determinar o destino educativo.
E os obstáculos não se limitam ao acesso. Estudar no ensino superior custa, em média, 903 euros por mês, segundo um estudo do ISCTE, divulgado em agosto de 2024. Só o alojamento representa 33,5% dessas despesas, cerca de 300 euros mensais. Os estudantes bolseiros gastam, em média, 518 euros por mês, enquanto quem estuda e trabalha simultaneamente pode gastar até 1.269 euros mensais.
Esta realidade torna-se ainda mais preocupante quando confrontada com os números revelados pela Nova SBE em janeiro de 2024: sem as transferências sociais, 41,8% da população portuguesa viveria em risco de pobreza. Com as pensões, essa taxa desce para 21%, e para 16,6% após todas as transferências sociais. Ou seja, quase metade do país depende do Estado social para manter um nível mínimo de dignidade económica.
Se não corrigirmos estas desigualdades de base, estaremos a perpetuar a pobreza intergeracional. Prova disso é o crescimento da chamada “geração nem-nem” — jovens que não estudam, não trabalham nem estão em formação. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2024 existiam cerca de 206 mil jovens entre os 16 e os 34 anos nessa situação.
Se não oferecermos aos jovens um projeto de país inclusivo e mobilizador, não nos surpreendamos com a sua crescente desafeição pelo sistema democrático e pelos seus principais partidos. A ausência de um horizonte de futuro credível abre, inevitavelmente, espaço à sedução dos discursos populistas, que prometem soluções fáceis para problemas complexos.
É, por isso, urgente um pacto político e social que volte a colocar a educação no centro das prioridades nacionais. Um pacto que reconheça que o ensino superior continua a ser o principal motor da mobilidade social.
Esse pacto deve assentar em pilares como o reforço das bolsas de custo de vida (para lá das propinas), o aumento da oferta de alojamento público acessível, campanhas de informação eficazes dirigidas aos alunos do ensino secundário sobre os mecanismos de acesso e apoio, e um fortalecimento da relação entre o ensino universitário e politécnico e a economia real. Esta relação é crucial: se é certo que não haverá aumentos de produtividade sem uma injeção de conhecimento nas nossas empresas, também é verdade que não existirão empregos bem remunerados sem esses ganhos de produtividade — nem recursos fiscais que sustentem um ensino superior público robusto.
Adicionalmente, é fundamental promover uma revisão estratégica e participada do numerus clausus, adequando a oferta formativa às necessidades reais do mercado de trabalho, mas também à justiça na distribuição das oportunidades de futuro. Essa revisão deve envolver a concertação social — sindicatos, associações empresariais, Estado e instituições de ensino — garantindo que o sistema educativo responde com visão de longo prazo às exigências da economia e às aspirações dos jovens. O objetivo não deve ser restringir o acesso com base em rankings de empregabilidade imediata, mas garantir percursos com futuro.
O elevador social funciona. Mas é preciso garantir que chega a todos os pisos, permite a entrada de todos os que queiram subir e assegura uma viagem justa e segura. Se não o fizermos, estaremos não só a deixar demasiados jovens à espera, como a pôr em risco a confiança no futuro do próprio país.