Na semana passada o Observador publicou uma entrevista ao jornalista de economia Wolfgang Munchau. Alemão de origem, Munchau fez a sua carreira no mundo anglo-saxónico. Foi cedo para o Times de Londres, depois para o Financial Times e desde há cerca de vinte anos dirige o Eurointelligence sediado em Bruxelas. A entrevista centrou-se no tema a que são reconduzíveis grande parte das suas reflexões e que, bem vistas as coisas, deveriam orientar as nossas também. No fundo a entrevista apenas actualiza o curto livro que publicou no ano passado com o peremptório título “Kaput”, onde proclamava “o fim do milagre económico alemão”.

Como ele próprio demonstra no livro, o “milagre económico alemão” já terminou há alguns anos. Sucede que fora da Alemanha, ofuscados pelos desastres económicos no sul da União Europeia (Grécia, Portugal, Itália), e dentro da Alemanha, por teimosias epistémicas e obsessões políticas, não se enxergámos o declínio a seu devido tempo. Pode ser surpreendente como tudo afinal de contas se passou tão depressa. Com efeito, para os Europeus constatar a gravidade dos problemas estruturais da economia alemã não pode deixar de constituir um poderoso choque histórico. A Alemanha foi indiscutivelmente uma potência industrial da tecnologia “analógica”. A excelência alemã na indústria automóvel, na engenharia mecânica e no complexo produtivo dos processos químicos era reconhecida dentro e fora das fronteiras europeias. Foi isso que reconstruiu a Alemanha depois da guerra que a deixou em ruínas e viu a nata da sua inteligência fugir ou ser exterminada. Mais, a prosperidade europeia das décadas que se seguiram à reconstrução foi inseparável da prosperidade alemã. Até os benefícios obtidos por Portugal e outros aderentes tardios às comunidades europeias dependeram do sucesso mundial da indústria alemã, desde logo porque densificou o mercado europeu, mas também porque rendia suficientes sobras para distribuir pelos países mais pobres a título de subsídios a rodos durante 40 anos.

Foram estas bases que nos permitiram mostrar ao mundo, com orgulho justificado, como os Europeus, liderados pelos alemães, pareciam ter resolvido um dilema das sociedades humanas. A mais brilhante invenção política dos alemães do pós-1945 foi precisamente a “economia social de mercado”, prometendo a conciliação entre a actividade económica fundada no mercado livre e concorrencial, por um lado, e a assistência social ampla e permanente, por outro. Mas tudo isto dependia de pilares económicos concretos de prosperidade. Ora, diz Munchau com crueza, esses pilares desmoronaram-se. E não custa perceber que uma mudança dessas não é um drama alemão, mas uma angústia verdadeiramente europeia.

Como um exemplo acabado de senilidade política, a dada altura a Alemanha e em larga medida a Europa perderam a capacidade para interpretar correctamente o seu lugar geopolítico e geoeconómico no mundo; para confrontar com realismo e clareza as suas insuficiências e necessidades; e obstinou-se em viver num lugar fictício onde após o apogeu dos anos 90 nada de essencial mudaria no futuro. Nada mudaria: nem a sua preeminência no mundo ao lado do aliado americano, nem as tecnologias que dominara até então e que seriam gloriosamente insubstituíveis no futuro, nem a eventualidade de outras potências económicas disputarem o seu lugar de preeminência. Os Europeus, liderados pelos alemães, talvez embalados pela promessa de um mundo de conciliação dos conflitos entre os povos, onde os Europeus seriam a vanguarda política de todos e a consciência ética encarregue de tudo a que soasse a drama eventual ou injustiça passada, negaram-se a eles mesmos. Entretidos com agendas ideológicas de diversão ou com cerimónias de auto-congratulação, perderam de vista as tarefas políticas que tinham pela frente: o fortalecimento das universidades e do sistema científico, a reforma das instituições, a protecção da coesão no plano social e cultural, a aceitação dos imperativos da ordem política como prioritários relativamente à rendição às mais recentes modas políticas.

Hoje, a Europa nas suas grandes bases de força económica – a Alemanha esclerosada, mas também a França em ruptura, a Itália estagnada e o Reino Unido em pleno naufrágio – aparece-nos como radicalmente dependente e incapaz de tomar decisões existenciais. Não é só a figura de parceiro suplicante diante das exigências caprichosas do aliado americano quando negligenciou as necessidades de segurança interna e externa diante de vizinhos ameaçadores. É também o facto de qualquer tímida iniciativa de protecção da economia europeia face à expansão industrial da China recuar com temor perante as massivas retaliações chinesas que deixam bem evidente quem afinal depende realmente de quem.

Segundo Munchau, a decadência económica alemã passou um ponto de não retorno. Não sei se na história económica esses pontos de irreversibilidade existem realmente. Sabemos, é verdade, que há exemplos em que a decadência económica se apodera das nações durante décadas sem aparente fim à vista. Sabemos, por outro lado, que também há momentos felizes de inflexão histórica. Mas estes não ocorrem sem mudanças profundas na cognição pública dos problemas, nem sacrifícios que a ausência de resultados a curto-prazo sempre exigem. Seja como for, convém não ignorar que, se os sinos dobram pela economia alemã, acabarão por dobrar pela nossa também.