Incêndios, seca extrema, inundações, tal como outros fenómenos extremos, são e serão cada vez mais frequentes em regiões do globo como a nossa, não sendo mais acontecimentos em locais distantes e que apenas nos chegam pelas notícias.

Na semana passada decorreram as 24 horas de realidade – 24 hours of reality – uma transmissão mundial do Climate Reality Project promovida por Al Gore, antigo vice-presidente dos Estados Unidos e prémio Nobel da Paz. Este evento, com a participação de diferentes personalidades de todo o mundo, teve como objetivo dar a conhecer a ameaça das alterações climáticas e chamar a sociedade a responder a este problema global.

Portugal é um dos países que mais tem feito na área das energias renováveis com o investimento em produção eólica e hidráulica, mas é também um dos países mais vulneráveis na Europa às alterações climáticas. É por isso essencial as alterações climáticas serem um tema do conhecimento de toda a sociedade e parte integrante dos nossos programas de educação.

A atmosfera que rodeia a Terra permite ao nosso planeta reter algum do calor proveniente da radiação solar e manter uma temperatura estável. Este é um elemento muito frágil e essencial à vida na Terra, mas todos os dias colocamos nessa delicada camada 110 milhões de toneladas de gases poluentes, em especial CO2, provenientes de atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis por automóveis e na produção de energia. Isto leva a que cada vez mais calor seja retido por esta fina camada protetora e que o planeta, e em especial os oceanos, estejam a aquecer a um ritmo nunca antes visto.

Só realmente conhecendo a dimensão da ameaça das alterações climáticas é que poderemos efetivamente agir. Campanhas nacionais tão bem sucedidas como a da reciclagem – existe uma geração de portugueses que se lembra do Gervásio – são um bom exemplo de como se poderá transmitir de uma maneira simples e clara o que são as alterações climáticas, as suas causas e possíveis soluções.

Olhando para o histórico de temperaturas podemos ver que 16 dos 17 anos mais quentes desde que há registo ocorreram a partir de 2001 (dados: NASA/Goddard Institute for Space Studies). O mesmo calor que causa as secas que temos vivido, provoca também que cada vez mais água seja absorvida dos oceanos e que as tempestades, tal como os incêndios, sejam também cada vez mais violentas.

A vulnerabilidade às alterações climáticas é algo que cada vez mais nos definirá também como país. É por isso tempo de agir procurando ter uma posição determinada na criação e aplicação de políticas sustentáveis e na discussão de acordos globais como o de Paris. Os objetivos definidos no Acordo de Paris apesar de serem um passo importante não são suficientes para parar esta tendência de aquecimento. A cada cinco anos estes objetivos são redefinidos, sendo esta uma oportunidade para Portugal chamar a si parte da liderança da discussão com a justa razão de vir a ser um dos países mais afetados na Europa.

Em Outubro tive oportunidade de ser um dos Global Shapers convidados para o Climate Reality Leadership Training, que reuniu mais de 1.400 pessoas em Pittsburgh, onde durante três dias se discutiram ações para a mobilização com Al Gore e um conjunto de diferentes especialistas. Neste evento foi anunciada a parceria da Global Shapers Community com o Climate Reality Project para juntos trabalharem no combate às alterações climáticas. Também os Global Shapers Lisbon procuram trazer este assunto à discussão em eventos como as Shapers Talks, que decorrem todos os meses na FNAC do Chiado, procurando introduzir o tema da sustentabilidade a par da discussão de temas como a economia, tecnologia e política.

O tópico das alterações climáticas sendo uma urgência nacional é também uma oportunidade para o desenvolvimento do país. Somos um exemplo na adoção de energia de fontes renováveis – o ano passado vivemos 4 dias seguidos usando apenas energia de fontes renováveis – e estamos geograficamente muito bem posicionados para explorar tecnologias em crescimento exponencial como a solar.

Existe hoje em Portugal uma geração de pessoas altamente qualificadas e um nível de desenvolvimento científico de excelência em sectores como a biotecnologia e a engenharia dos materiais. Pelo que temos a oportunidade de criar um país mais sustentável a par de uma economia mais forte investindo na criação de tecnologias limpas. A interceção com sectores tradicionalmente fortes da economia nacional como os da fileira florestal, pasta e papel, alimentar e mar, é uma oportunidade para liderarmos o desenvolvimento de novas tecnologias limpas com um impacto global, criarmos postos de trabalho e contribuirmos para um futuro sustentável.

Esta mensagem de alerta é também uma mensagem de esperança. Resta saber, se apesar de termos a capacidade de deixar de ser uma sociedade assente em combustíveis fósseis, se o vamos realmente fazer vencendo a inação.

Simão Soares tem 31 anos e é CEO da SilicoLife, uma empresa que combina inteligência artificial com biologia para o desenho de processos biológicos sustentáveis para a produção de químicos. Tem formação em bioinformática pela Universidade do Minho, pós-graduação em gestão pela NOVA School of Business and Economics e formação em Blue Ocean Strategy pelo INSEAD. É membro da direção da P-BIO, Associação Portuguesa de Bioindústrias, e foi recentemente reconhecido como Climate Reality Leader.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, partilharão com os leitores a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas da especialidade. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.