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Não tenho nada contra o Sporting. Alguns dos meus melhores amigos são sportinguistas. Mas, até à noite de terça-feira, o único sportinguista do Porto que eu conhecia era o filho dos meus vizinhos do lado que costumava manifestar a sua frustração leonina em alta voz quando os jogos do seu clube eram transmitidos pela televisão (“Caramba [digamos assim], Liedson!”). Desde terça à noite, no entanto, sei que há muitos mais. E pior. Ao contrário dos adeptos do meu clube, que vão festejar os títulos lá longe, para a Avenida dos Aliados e a Praça da Liberdade, os sportinguistas do Porto fazem exactamente como os benfiquistas do Porto: vêm para a beira de minha casa e entretêm-se a andar às voltas na Rotunda da Boavista, a buzinar até altas horas da noite. Já deviam ser duas da manhã do dia seguinte quando finalmente desmaiei, com os ouvidos a zumbir, e umas horas mais tarde, quando acordei e à tempestade tinha sucedido a bonança, o silêncio comparativo parecia o de um domingo de manhã. Tudo tem o seu lado bom: gosto de domingos de manhã, sobretudo às quartas.

Com a idade, e com a providencial ajuda de toda a espécie de erros cometidos no passado, a forma, como dizia alguém, vai-se esvaziando, e é preciso aprender a viver com isso, caminhando no meio-ser através da miríade de coisas do mundo. É verdade que algumas deixam saudades, até as mais insignificantes e ridículas. Como, por exemplo, o contentamento com as vitórias do meu clube e a óptima alegria maligna com as derrotas do Benfica. Hoje em dia, sobra-me pouco dessas aventuras afectivas. Se o Porto ganha, mesmo com um azul céu de Primavera, não me ponho aos pulos. E, se o Benfica perde, o pérfido amarelo esverdeado da maldade desgraçadamente não toma já conta da minha alma por reacção à humilhação do sanguinário vermelho. Que Deus me perdoe, até acho graça ao Jorge Jesus. Se ele ganhar alguma coisa, tomo isso por aquilo que os filósofos chineses chamavam um Mandato do Céu. Há de resto, algo de Confúcio em Jesus (Jorge).

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