Rádio Observador

Extrema Esquerda

O ódio a Israel é uma estupidez perigosa /premium

Autor
3.177

Desde que as geringonças tornaram os esquerdistas respeitáveis, o seu ódio a Israel também se tem feito respeitável, como se vê no caso da Eurovisão. Convém dizer que é uma estupidez perigosa.

Parece que Roger Waters, nos intervalos da sua campanha a favor da ditadura chavista na Venezuela, tem andado a escrever aos cantores da Eurovisão para boicotarem o festival em Israel. Já o ano passado tinha havido um movimento para dissuadir o voto na canção israelita, sem muita eficácia: Israel ganhou. As pessoas ainda não vivem todas na cabeça do ex-Pink Floyd. Mas a conjugação entre o amor à ditadura venezuelana e o ódio a Israel não é uma excentricidade de Waters. Já a propaganda soviética tinha feito do “anti-sionismo” um elemento básico do credo do “homem de esquerda”. A ditadura venezuelana é aliada de Cuba, Israel é aliado dos EUA: para um bom esquerdista, não importa saber mais nada. Desde que as geringonças tornaram os esquerdistas respeitáveis, o seu ódio a Israel também se tem feito respeitável, como se vê pelas assinaturas para o boicote da Eurovisão. Convém dizer que é uma estupidez perigosa.

Dir-me-ão: há os palestinianos. Falemos então dos palestinianos. Sim, os árabes da Palestina nunca tiveram um Estado. Israel, porém, não tem sido o único problema a esse respeito. Entre 1948 e 1967, enquanto controlaram a Cisjordânia e Gaza, nunca o Egipto ou a Jordânia deixarem fundar o Estado árabe da Palestina. Interessou-lhes mais usar esses territórios e as suas populações para atacar Israel. Por isso, com a colaboração das Nações Unidas, mantiveram os árabes palestinianos em campos de refugiados, e impediram que fossem assimilados nas outras sociedades do Médio Oriente, como os judeus expulsos dos países árabes foram assimilados em Israel. Sempre que Israel, nos últimos anos, retirou de territórios ocupados – da Faixa de Gaza, por exemplo – logo esses territórios se tornaram base, não de um Estado palestiniano, mas de jihad contra Israel. O Estado palestiniano não é inviabilizado apenas pela ocupação israelita da Cisjordânia, mas pelas organizações terroristas que mantêm os árabes palestinianos reféns da campanha, iniciada pelo nacionalismo árabe e depois assumida pelo fundamentalismo islâmico, para destruir Israel. Devemos lamentar a política de colonatos israelitas, mas não devemos ignorar um direito de defesa que, num país que não chega a ter, em certos pontos, mais de 15 quilómetros de largura, tem passado infelizmente pela ocupação de território. A existência do Estado árabe da Palestina depende, como dependeu sempre, do reconhecimento do direito de Israel a existir como o Estado judeu da Palestina, segundo a resolução das Nações Unidas de 29 de Novembro de 1947 (que o Hamas, no poder em Gaza, embora por entre alguma confusão calculada, fundamentalmente recusa).

Nada disto, como é óbvio, é minimamente relevante para os inimigos de Israel. Para esses, o que importa é fazer de Israel a África do Sul do século XXI. Há quem diga que o problema é apenas as “políticas” de Israel. Mas como Israel é o Estado judeu do Médio Oriente, o “anti-sionismo” de tipo soviético tem sido a grande via para o restabelecimento do anti-semitismo, que, à conta da raiva contra Israel, infectou os partidos de esquerda como os Trabalhistas no Reino Unido e os Democratas nos Estados Unidos, conforme a esquerda radical neles ganhou influência. E isto, quando, através da influência do islamismo radical entre as comunidades imigrantes, a cultura de anti-judaísmo desinibido do Médio Oriente ameaça instalar-se no Ocidente.

Ora, o repúdio consensual do anti-semitismo tinha sido, desde 1945, a maior de todas as barreiras contra as extrema-direitas, incapazes de se desligarem de uma aversão que, nos anos 20 e 30, tinha sido a base popular do seu racismo e das suas teorias da conspiração. A esquerda radical diz-se hoje muito ansiosa com um eventual retorno desse tipo de extrema-direita. Deplora até todos os debates sobre temas que acha exclusivos do “populismo” (a imigração descontrolada, por exemplo). No entanto, não parece preocupada em reabrir a porta ao anti-semitismo através do ódio a Israel. Às vezes, é difícil distinguir entre o facciosismo e a estupidez.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
10 de junho

A função social da esquerda /premium

Rui Ramos
616

Talvez a direita, noutros tempos, tenha tido o papel de nos lembrar que não somos todos iguais. As reacções ao discurso de João Miguel Tavares sugerem que essa função social é hoje da esquerda.

Eleições Europeias

Populismo e eleições europeias

Ricardo Pinheiro Alves

O crescimento do populismo xenófobo é alimentado pelo aumento do populismo igualitário, conduzindo a uma progressiva radicalização da vida pública como se observa actualmente nos países desenvolvidos.

Extrema Esquerda

Os incorrigíveis /premium

Paulo Tunhas
138

Mesmo símbolólica, o desejo da morte do outro (Bolsonaro), tem ilustre e documentada tradição: representa o desprezo revolucionário pelo outro, a redução do outro ao não-humano e está nos genes do BE.

Extrema Esquerda

O desprezo pela plebe /premium

Paulo Tunhas
426

Perante o ditador Maduro, que empreendeu uma guerra contra o seu próprio povo, gente simpática como Francisco Louçã ou Joana Mortágua é tomada por um horror sagrado face... ao imperialismo americano.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)