Aquele domingo tinha sido particularmente cansativo para o Padre Bonifácio, pároco de São Pedro de Arrabaldes, pequena freguesia da zona saloia. Apesar das cinco missas que celebrava todos os santos dias do Senhor e solenidades de preceito, não era essa a principal razão da exaustão do Padre Bonifácio que, sentado no velho cadeirão da residência paroquial, depois de uma frugal refeição, propunha-se rezar as Vésperas. Nem sequer passou por água a loiça usada na ceia, que deixou suja na bancada da cozinha, ao contrário do que sempre fazia, para facilitar o trabalho da Dona Etelvina, zelosa sacristã que também fazia limpezas na casa do pároco.

Mais do que cansado fisicamente, o Padre Bonifácio sentia-se abatido e, na verdade, tinha razões para isso. Na capela de Nossa Senhora da Purificação, a Dona Ilda tinha-lhe pedido que, dado que a sua filha não podia casar pela Igreja por ser divorciada, pelo menos celebrasse uma Missa de acção de graças. Tentou explicar à piedosa senhora que não podia fazê-lo, por aquela união não ser de acordo com a lei de Deus. A Dona Ilda não ficou nada satisfeita e foi-se embora resmungando que era por culpa dos padres, como ele, que os jovens se afastavam da Igreja.

Depois, já na igreja paroquial, teve de dizer ao senhor Américo que o seu compadre não podia ser padrinho do filho, por não ser baptizado. O pai da criança não se deu por convencido, porque acha que o amigo, mesmo não sendo baptizado, é muito melhor do que muitos hipócritas que têm os sacramentos todos, ou quase, e que não faltam a uma Missa. O Américo ameaçou não baptizar o filho, se o compadre não for o padrinho.

Já ao fim do dia, teve de desmarcar a excursão de fim-de-semana dos escuteiros da paróquia, porque era incompatível com a Eucaristia dominical. O chefe do agrupamento não gostou, porque já se tinha comprometido com essa actividade e, se agora desse o dito por não dito, ficava desautorizado. O Padre Bonifácio prometeu arranjar uma solução, mas não sabia como, sem adiar ou cancelar a iniciativa.

A recordação de todos estes falhanços pastorais pesava tanto na sua cabeça que os seus olhos, pouco a pouco, fecharam-se. Não assim a sua prodigiosa imaginação…

Sonhou, então, ser padre de uma conhecida paróquia na sede da diocese, rodeado não dos aldeões com quem lidava, em São Pedro de Arrabaldes, mas da gente fina da cidade. Também já não tinha à sua volta as velhas beatas que pululavam pelas sacristias da igreja paroquial e das capelas, mas umas quantas senhoras da melhor sociedade, sempre muito amáveis nos seus elogios às suas homilias tão “comovedoras” e “tocantes”.

A verdade é que tinha deixado de falar de Deus e do diabo, do vício e da virtude, da salvação e da condenação. Naquele cenário tão culto, essas categorias eram despropositadas e, por isso, convertera-se rapidamente à linguagem pastoral pós-moderna, reduzida a uma exposição vaga de conteúdos sociais indefinidos, na suposição de que Deus é tão bom que não há inferno, nem pecado.

Aliás, tanto as suas homilias, como os seus artigos no jornal paroquial, tinham atraído a atenção de alguns meios de comunicação nacional, que começaram a convidá-lo para comentar acontecimentos religiosos. Foi um sucesso quando disse, na televisão, que o racismo era a grande chaga da sociedade portuguesa e, depois, acrescentou que a eutanásia pode ser um acto de caridade, porque é desumano obrigar alguém a um sofrimento insuportável e inútil. Quando lhe perguntaram se essa afirmação não contradizia a doutrina da Igreja e o magistério do Papa Francisco, o Padre Bonifácio saiu-se maravilhosamente bem, citando a frase de Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”. Também foi muito aplaudido por ter dito que, em caso algum, um católico coerente podia votar em Ventura, Trump ou Bolsonaro.

Benquisto de todos, apaparicado pela comunicação social mais politicamente correcta, referido até por alguns colunistas laicos e comentadores políticos, como exemplo do que, graças à sua linguagem inclusiva e à sua abertura pós-conciliar, deve ser um sacerdote, o Padre Bonifácio passou a ser também muito bem visto nos ambientes eclesiásticos. Pediu a um representante de uma organização marxista-leninista que desse um testemunho de vida, no fim da Missa dominical; proibiu terminantemente a genuflexão, antes ou no momento da comunhão; e convidou um imã muçulmano e um pastor adventista para uma liturgia inter-religiosa. As suas homilias não versavam sobre o Evangelho, nem apelavam ao aperfeiçoamento espiritual, porque preferia, para alívio dos seus paroquianos, abordar questões sociais e convidar à conversão ecológica. Plantou e benzeu uma árvore, símbolo da fraternidade universal, no adro da igreja, onde já erigira o memorial das vítimas da intolerância católica e a escultura da mãe-terra, homenagem às religiões pré-cristãs, banidas pelo fanatismo dos primitivos missionários.

Claro que, com todo este êxito social, político e eclesial, o Padre Bonifácio já não tinha tempo para confessar, nem para visitar o lar da terceira idade, nem para as problemáticas comezinhas dos seus paroquianos, entregue como estava às grandes questões mundiais, desde a imigração e os refugiados, até às alterações climáticas e o buraco do ozono. Escrevera até um lindíssimo conto, “A gota”, em que narrava a história de uma planta que estava prestes a secar, quando uma criança budista derramou sobre ela uma furtiva lágrima compassiva – a dita gota! – e a salvou de uma morte certa.

Nas antecâmaras eclesiais já se falava abertamente do Padre Bonifácio como candidato a uma diocese vacante, pela morte inesperada do seu titular, ou como próximo bispo auxiliar. Muitos já o viam arcebispo, talvez cardeal, ou até Papa…

Foi então que tocou o telefone, com insistência. O estremunhado Padre Bonifácio pensou que talvez fosse, finalmente, da Nunciatura… Mas não, afinal era a Dona Hermenegilda, a “Gilda da catequese”, a recordar-lhe a reunião mensal das Adoradoras Reparadoras dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, no terceiro domingo, em honra da Santíssima Trindade.  E o Padre Bonifácio, que já se tinha imaginado de mitra, acordou padre de província e condenado a sê-lo, decerto, por muitos e longos anos.

O breviário, que tinha aberto antes de adormecer na poltrona, caíra ao chão. Quando o apanhou, leu que “o diabo o conduziu a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: ‘Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares’” (Mt 4, 8-9). O Padre Bonifácio sorriu e depois deu graças a Deus porque, afinal, tudo não tinha sido mais do que um sonho. Na realidade, um terrível pesadelo.