Antes de mais, e para que fique claro, o plano de vacinação massivo, como se pretende, não é um plano de saúde mas um plano de operações e logística. Só é de saúde quanto chega ao braço de cada qual e, mesmo assim, tenho as minhas dúvidas. Nada tem a ver com os nossos planos de vacinação regular elogiados por vários países e entidades. Nada, a não ser o nome vacinação. Tudo o resto é diferente. O número de pessoas envolvidas, os escalões etários, o tempo, os processos, tudo é diferente. Portanto, achar-se que este plano de vacinação Covid poderá correr bem, baseando-nos num plano de vacinação de baixo volume, é apenas uma ilação que pode não dar bons resultados.

Isto dito, um plano de vacinação normal, de baixo volume, não faz emergir da forma como agora emergem temas pungentes de operações como a armazenagem, o transporte, o manuseamento, a cadeia de frio, a rastreabilidade, a continuidade, os sistemas de informação, a capacidade instalada e oferecida e as filas de espera. Tudo temas de gestão de operações. Onde, para o processo em causa, processo de elevado volume, se devem procurar criar condições de baixa variedade e de baixa variação.

Ensinam-se os alunos de gestão de operações de que existe uma dinâmica de 4 V’s num processo. Esses 4 V’s são volume, variedade, variação na procura e visibilidade. E chama-se desde logo a atenção para o facto de o volume elevado ser difícil de compatibilizar com elevada variedade (nas condições físicas de oferta) e variação na procura (na criação de condições físicas de customização, por exemplo). Sobretudo em processos físicos, como é manifestamente o caso. Ora, o que temos entre mãos é, precisamente, uma operação de elevado volume físico (número de vacinas e de pessoas a vacinar) a que se deve ajustar baixa variedade (nas condições físicas de oferta que consigamos dominar) e de baixa variação da procura (em condições que devemos estandardizar).

Assim, um processo de vacinação como o anunciado, com variedade (vinda do número de pontos de toma propostos nas mais variadas condições de oferta e, obviamente, com performances bem diferenciadas) ao que se vai acrescentar variação na procura (1ª fase com quatro patologias possíveis e uma dada idade; 2ª fase com seis patologias possíveis e dada idade), na medida em estipulamos que a procura tem de ser qualificada por bem mais do que um critério, como vamos fazer e que base de dados do SNS vamos usar para descobrir esta variação da procura? Ou melhor, onde se encontram estas pessoas? E se o SNS não sabe onde se encontram, porque não sabe, como vamos procurá-las e como vamos aceitar que tenham essas patologias e como devem fazer prova de que as têm?

Chegados aqui, é bom de ver que estamos a criar um bottleneck desnecessário através da criação de critérios que não irão fazer variar muito a altura da toma da vacina pelas várias pessoas a vacinar. Pergunta: podemos simplificar? Sim, podemos e devemos simplificar. De resto, a Ordem dos Médicos já propôs apenas o uso da idade como critério. Certamente, que antevendo problemas vários ao nível da determinação destes públicos-alvo e sua credenciação para entrarem no sistema e, adicionalmente, tendo dúvidas da eficácia clínica na escolha dos critérios (aqui não me pronuncio). Apenas uma nota de regozijo por saber que os médicos solicitam apenas a idade como critério, o que faz convergir as preocupações de gestão de operações com as preocupações clínicas.

Há que dizer que a fixação de muitos critérios torna o processo moroso e não acrescenta senão tempo para determinar onde estão as pessoas com as patologias indicadas e como fazer para chegar até elas ou as mandar vir aos pontos de toma. Dito isto, seria bem mais simples usar apenas um critério que é conhecido e comprovável rapidamente pelo cartão de cidadão: idade.

Como o SNS não sabe identificar todas as pessoas e todas as patologias associadas, porque não tem registo de todas e não tem uma base de dados central com a ficha clínica de todos os portugueses, que codificada permita extrair os referidos eleitos para as primeira e segunda fases, adivinha-se uma grande confusão.

Mais, como se sabe e de onde vem o número de 400 mil para os vacinados da primeira fase que têm mais de 50 anos e pelo menos uma das doenças referidas no plano? Serão 400 mil ou 200 mil ou 800 mil? Da mesma forma como se sabe na segunda fase que são 900 mil os que têm entre 50 e 65 anos e, pelo menos, uma de seis patologias? Onde se vai buscar essa informação para todos os portugueses? E serão 900 mil, ou 400 mil, ou 1,2 milhões? Não se sabe. E como não se sabe e como não se tem forma de saber em termos expeditos e rápidos, seria aconselhável seguir apenas um critério universal de qualificação: idade. De resto, repito, não sendo médico, o critério que a Ordem dos Médicos propõe.

Repare-se que não discuto, sequer, se devemos ou não somar capacidade ao processo. Na minha opinião, para acelerar o processo falta-nos capacidade instalada que pode vir das farmácias comunitárias e dos privados. Mas nem sequer me vou deter sobre isso e sobre o facto de ter de ser tudo feito pelo SNS, como se o SNS não estivesse sobrecarregado com tudo e mais alguma coisa e como se não tivéssemos tido em 2020 o maior número de mortes, no geral, dos últimos 100 anos.  E já nem estou a discutir estes aspectos que representam vidas humanas, muitas vidas.

Estou a discutir o porquê de tantos critérios. Porque isso apenas atrasará o Plano de Vacinação. Quando começarmos a olhar para o lado e para outros países, começaremos a ficar atrasados se insistirmos nestes critérios. E em termos de gestão de operações os critérios, criam um bottleneck tremendo de que não nos vamos ver livres tão rapidamente. Na verdade, foi dito que o plano deveria ser ajustado. Pergunta: porquê fazer finca pé numa realidade que todos parecem ver? Se é melhor para os portugueses, porque não essa abertura?  Este plano, repito, não é um plano de saúde, mas um plano de operações e logística.

Biochimestry wins the Covid 19 battle but Logistics and Supply Chain will win the war”. (Richard Wilding, Cranfield University). E como esta frase, há milhares de outras.

Deixo duas questões muito simples para que o leitor perceba do que estou a falar. Escolha o que prefere, A ou B?

A) O Sr. X vai ser vacinado. O sr. X tem mais de 50 anos e doença coronária (ou uma das quatro patologias apresentadas no plano). Como sabe o SNS, que o Sr. X, qualquer português, tem essa doença? Não tem forma de o saber para todos os portugueses que pagam impostos e mesmo para os que frequentam centros de saúde não tem informação central em base de dados que permita, com um query, extrair quem são e onde estão.

Então, o SNS vai fazer uma busca. Ou lançar o repto a que as pessoas com estas características se apresentem. Onde? E que sejam aceites como tendo uma destas patologias para serem qualificáveis para determinada fase. Quem fará essa aceitação? Como? Quem contacta quem? A pessoa a vacinar contacta o local de vacinação? Como confere o local de vacinação que esta pessoa está nas condições do plano? E podíamos andar por aqui fora.

B) O Sr.  X vai ser vacinado. O sr. X tem a idade que calha dentro de um intervalo de idades X e Y? Muito bem. Sairá uma comunicação por idade a dizer que o Sr. X tem do dia A ao dia B para se vacinar. Onde? Até pode ser no centro de saúde da sua residência, mas o critério é apenas a idade. E para isso basta levar o número de cartão de cidadão. Prova simples. Prova única.

Se preferem B a A ,é porque este processo não é um processo de saúde. É um processo de gestão de operações. Se preferem A a B, é porque não sabem que informação tem o SNS e como está estruturada. E desconhecem, também, a sobrecarga em que se encontra o SNS. E, adicionalmente, apostam em que um dia, quiçá, seremos todos vacinados.

No entanto, uma das poucas formas de combater o medo que se voltou a instalar com os novos números Covid e a emergência da terceira vaga – aprendemos de facto pouco com as anteriores –, é através deste processo que Portugal tem entre mãos. E se somos ou não capazes de fazer isto de forma rápida e a apanharmos todos.