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Tirando alguns agricultores montados em tractores ou com cisternas carregadas de leite com que lavam a polícia e meia dúzia de refugiados de guerras e conflitos relativamente ignorados, é raro haver manifestações no bairro europeu de Bruxelas, porque é raro os Europeus queixarem-se da União Europeia. Políticos e comentadores, sim, mas o povo, normalmente, não. Foi isso que mudou nos últimos dias.

O poder das instituições europeias é distante e normalmente benigno. Distribuir fundos, tornar o mundo mais verde, fazer da Europa um continente mais digital, criar a livre circulação de pessoas e bens, pagar Erasmus ou cooperar com os menos desenvolvidos do mundo pode não agradar a todos da mesma maneira e ao mesmo tempo, mas dificilmente gera ondas de descontentamento pela Europa fora. Acresce que os funcionários públicos europeus são poucos (não há corporações de professores, médicos, juízes, polícias ou militares) e não têm grandes razões de queixa ou para se manifestar.

Por outro lado, a União Europeia tem feito questão de se apresentar como uma força do bem. Há placas a dar conta dos fundos que tornaram possível uma escola ou um fontanário, há estrelas europeias nas notas e moedas do euro, mas não há muito como responsabilizar a Europa do que corre mal a todos.

Houve a troika, cá e na Grécia, claro; e há o dinheiro que volta e meia os do Norte acham que gastam a pagar os desmandos do Sul. Mas, de um modo geral, os Europeus gostam da Europa. Ou não desgostam.

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No eurobarómetro de 2020, a média dos Europeus que tinha uma opinião negativa da União Europeia era de cerca de 20%. Pelo contrário, em média, 40% tinha uma opinião positiva e outro tanto uma opinião neutra. Raros governos se podem gabar do mesmo.

Ursula von der Leyen quis que a sua comissão fosse geopolítica, quis liderar a gestão dos dinheiros do plano de recuperação e resiliência e ofereceu-se para coordenar a compra e distribuição das vacinas. Quis mais poder. Quando correu bem, foi bom. Mas quando corre mal, há um preço a pagar. E tem corrido mal algumas vezes.

A questão dos fundos, ultrapassada a dificuldade das negociações, que foram, correctamente, atribuídas aos Estados, ainda não está em curso. Mas quando começar, é provável que levante alguns problemas se Bruxelas aproveitar para, de facto, exigir reformas em troca das sucessivas tranches. Veremos. Por enquanto, prometida a “bazuca”, a economia é um problema nacional.

A política externa é uma coisa longínqua para o comum dos mortais, e a ida de Josep Borrell, o chefe da política externa europeia, a Moscovo foi feita mais com o chapéu de Alto Representante da União Europeia, ao serviço do Conselho e dos Estados-membros, do que de vice-presidente da Comissão Europeia. Tanto faz. Borrell foi rasteirado por Sergei Lavrov, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, desmentido e embaraçado. E tudo isto caiu em cima de Bruxelas e, portanto, da Comissão. Não nas ruas, mas onde se discute política internacional.

É verdade que Borrell dificilmente podia ter feito melhor, porque não tinha mandato dos governos para dizer ou fazer o que fosse. Mas, então, mais valia não ter ido. Poupava-se ao embaraço pessoal e, sobretudo, à exibição de como a geopolítica é mais difícil de fazer do que de anunciar. O poder não se declara, exerce-se. E a Europa não tem opinião comum sobre a Rússia, tal como sobre a China, porque está indecisa entre ser uma potência comercial e querer portar-se como uma potência global, com interesses, estratégia e valores. A saída de cena dos Estados Unidos desta parte do mundo tem um custo que a Europa ainda não sabe como pagar. Ou não quer.

Por último, a desilusão das vacinas.

Tirando, eventualmente, a Alemanha ou a França, é óbvio que nenhum país europeu teria conseguido negociar mais ou melhor com as multinacionais farmacêuticas. E também pode ser verdade que as empresas tenham mais culpa do que a Comissão. Ou, pelo contrário, que a Comissão foi curta a investir e fraca a negociar. Em bom rigor, e como muitas vezes acontece na política, tanto faz.

Aquilo que os Europeus viram foi a Comissão dar a cara pelo anúncio da chegada das vacinas. Agora, que chegam menos do que esperado e, sobretudo, mais devagar do que no Reino Unido e nos Estados Unidos (já para não falar de Israel), a Comissão carrega as culpas. Justa ou injustamente, isso é o menos relevante.

Bruxelas não está acostumada a ter manifestações e raras vezes vê o seu povo, mas quanto mais poder tem, ou quer ter, mais a Europa se expõe à crítica. A unanimidade costuma ser a virtude dos irrelevantes.

Henrique Burnay (no twitter: @HBurnay), consultor em assuntos europeus, é um dos comentadores residentes do Café Europa na Rádio Observador, juntamente com Madalena Meyer Resende, João Diogo Barbosa e Bruno Cardoso Reis. O programa vai para o ar todas as segundas-feiras às 14h00 e às 22h00. 

As opiniões aqui expressas apenas vinculam o seu autor.

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