De repente, sem que ninguém estivesse verdadeiramente à espera, a campanha eleitoral abriu as portas pesadas do Grande Museu das Conquistas da Direita Portuguesa. João Cotrim Figueiredo, que vem da Iniciativa Liberal e, por isso, só poderá, eventualmente, chegar a Presidente da República com os votos dos laranjinhas, foi o primeiro a entrar no mausoléu: com o fervor religioso de um vendedor de velinhas, invocou a “maneira de estar na política” de Francisco Sá Carneiro, o “reformismo” de Aníbal Cavaco Silva e a “coragem política extraordinária” de Pedro Passos Coelho. André Ventura, que lidera um partido que nasceu anteontem, explicou a um país perplexo que, apesar das aparências, Sá Carneiro é o seu “modelo político”. Luís Marques Mendes, que pertence à agremiação social-democrata, apressou-se, naturalmente, a fazer o mesmo — e levou atrás de si meio PSD, que se apoquentou com esta súbita devoção das variadas figuras da direita pelo seu fundador, como se tivesse receio de que ele pudesse ser sequestrado pelos adversários numa noite de Inverno.
À primeira vista, parece estranho ver os candidatos da direita de 2026 a procurarem banhar-se nas águas do Plioceno político, buscando inspiração nas brumas do passado — mas, quando pensamos melhor, percebemos que isso é normalíssimo. A evocação de Sá Carneiro, de Cavaco Silva e de Passos Coelho não acontece porque os atuais candidatos da direita cultivam um especial gosto pela arqueologia ou pela História. Acontece porque até eles reconhecem que o povo da direita tem votos, tem influência e tem poder; mas não tem um chefe, e muito menos um líder. Naquele que devia ser um dos seus momentos de força, a direita está dispersa e perdida. Precisava de um Sá Carneiro, mas só tem um Cotrim Figueiredo; precisava de um Cavaco Silva, mas só tem um Marques Mendes; precisava de um Passos Coelho, mas só tem um André Ventura. Como os eleitores de direita não têm um líder à frente deles, vão inevitavelmente procurá-lo no retrovisor.
Já existiram situações tristemente semelhantes noutros hemisférios. Nos anos 80, Ronald Reagan ressuscitou a direita nos Estados Unidos e no mundo ocidental com a promessa de “uma cidade luminosa no topo de uma colina”. Quando chegou à presidência, liderou essa direita ao mostrar um caminho claro para a liberdade, para a prosperidade e, usando a expressão da Declaração de Independência, para a “busca da felicidade”. Já o seu sucessor, George Bush pai, atolou-se em hesitações e em indefinições e nem conseguiu ser reeleito. A dada altura, confessou que lhe faltava “essa coisa da visão”.
É assim que estamos em Portugal. Se Cotrim Figueiredo não tem “essa coisa da visão”, precisa de pedir emprestada a “visão” de Sá Carneiro; se Marques Mendes não tem “essa coisa da visão”, precisa de pedir emprestada a “visão” de Cavaco Silva; se André Ventura não tem “essa coisa da visão”, precisa de pedir emprestada a “visão” de Passos Coelho. É por isso que, numa das campanhas mais renhidas de sempre, nos encontramos subitamente a perder horas a falar sobre o passado.
O problema quando alguém se tenta aspergir com a água benta de terceiros é a credibilidade. Uma pessoa ouve Cotrim, Mendes e Ventura a falarem sobre Sá Carneiro, Cavaco e Passos e, inevitavelmente, lembra-se do debate entre os dois candidatos a vice-Presidente dos Estados Unidos em 1988. Quando lhe fizeram uma pergunta sobre a sua falta de experiência política, o republicano Dan Quayle comparou-se a John Kennedy. Na resposta, o seu opositor, Lloyd Bentsen, espetou a faca com implacável frieza: “Eu servi com John Kennedy. Eu conheci John Kennedy. John Kennedy era meu amigo. O senhor não é nenhum John Kennedy.” Realmente, não era.