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Foi com esta fórmula – «O problema de Orwell» – que o célebre linguista e activista político Noam Chomsky caracterizou um dia a dificuldade de se reconhecer a efectividade da propaganda no mundo e na cultura contemporâneos [1]. Em 1946, quatro anos antes de morrer vítima de tuberculose, e num ensaio em que procurou analisar as razões políticas do declínio da língua inglesa, a falada como a escrita, George Orwell pôs a nu a existência de uma íntima e perversa conexão entre o conformismo político e o aviltamento da língua. De acordo com o autor de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, a prosa e a oratória política modernas, para além da fealdade e monstruosidade próprias de uma língua de pau, caracterizam-se sobretudo pela insipidez das suas imagens e pela vagueza e falta de precisão dos seus termos. Que o leitor escute agora com atenção as seguintes palavras de George Orwell tendo sempre presente na sua memória o esdrúxulo e bizarro discurso político contemporâneo, o escrito como o falado:

Ou o escritor quer dizer alguma coisa e não sabe como expressá-lo, ou, inadvertidamente, diz algo mais do que aquilo que quer dizer, ou então é-lhe praticamente indiferente que as suas palavras signifiquem algo ou não. A mistura de vagueza e de pura incompetência é a característica mais marcada da prosa inglesa moderna e, em especial, a de qualquer tipo de escrito político. Mal certos tópicos são levantados, o concreto mistura-se com o abstracto e ninguém parece ser capaz de pensar com modos de falar que não sejam lugares-comuns: a prosa consiste cada vez menos em palavras escolhidas por causa do seu significado, e cada vez mais em frases justapostas como as secções de uma casa pré-fabricada [2].

Numa boa medida, podemos também nós afirmar que a narrativa oficial construída hoje em torno do omnipresente e omnisciente termo «populismo» é uma destas horrendas e frágeis casas pré-fabricadas a seu tempo denunciadas por George Orwell. Com efeito, o «populismo», hoje invocado na esfera mediática de modo insistente e obsessivo, longe de ser um conceito político estabilizado do ponto de vista semântico e constitucional, funciona antes como uma muleta verbal ou como um slogan político ao serviço dos diferentes combates partidários do momento.  E como é próprio de todo o slogan autenticamente político, que para impressionar e convencer o público tem necessariamente de ser apelativo e judicativo, também o «populismo» ganhou ao longo dos últimos anos uma potencialidade expressiva que talvez não pudesse estar sequer nas previsões dos mais cautos. Na realidade, o modo como num relativamente curto espaço de tempo o termo «populismo» assentou arraiais no cânone do linguajar político contemporâneo mereceria por si mesmo uma análise mais fina que aqui não podemos fazer. Que baste por ora dizer que a sua condição de operador verbal e de slogan recorrente na discussão pública do actual momento político, que a súbita, desproporcionada e, em última análise, inesperada «expressividade» do «populismo», que o cunho, enfim, paradoxal do seu polémico «prestígio» negativo na retórica política contemporânea, se devem, em parte – como oportunamente sugeriu Pier Paolo Pasolini numa brilhante análise linguística de um slogan comercial[3] – ao facto de uma tal «expressividade», por definição aberta à pluralidade e variação de uma interpretação potencialmente infinita, se ter entretanto transformado num puro estereótipo, e de, precisamente nessa condição, o estereótipo do «populismo» exigir uma rigidez que constitui todo o contrário da «expressividade».

É pois com uma grande lucidez que em Writers and Leviathan (1948) George Orwell afirma: «Eu diria mesmo que qualquer palavra terminada em “-ismo” cheira logo a propaganda». Por aqui pode já o leitor adivinhar o extremo cuidado de Orwell pela língua, em geral, e pela linguagem da política, em particular. Nele, o escrúpulo de manter as palavras com que se faz a escrita política imunes à corrupção moral e à falsificação histórica é um instinto primordial. É, aliás, um instinto decisivo, tendo em conta que no combate político contemporâneo – travado num mundo “pós-verdadeiro” fertilizado com «factos alternativos» e «notícias falsas» – uma das perspectivas sob as quais se poderá voltar a olhar de novo e de modo mais fundo para a obra de Orwell é a do pertinente foco que ele pôs no significado prático do revisionismo político da história. De facto, só assim se compreende que o pânico pelo obscurecimento e pela falsificação da linguagem política seja uma obsessão permanente em George Orwell, que deste modo pretendeu conservar o seu prodigioso instrumento de trabalho sempre limpo, manejável e efectivo. Não por acaso, ao longo de toda a sua breve mas atribulada vida o cidadão Eric Arthur Blair deu prova constante de uns extraordinários pruridos morais que sistematicamente o impediram de tentar compatibilizar a integridade cívica e literária com qualquer espécie de ortodoxia, disciplina ou programa partidário.

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Ora, temos actualmente todas as razões para pensar que também o «-ismo» do referente «popul-ismo» não pode hoje cheirar senão a propaganda. Dir-se-ia, aliás, que um tal «-ismo» chega nos nossos dias aos ouvidos do grande público na precária e indigente condição de um slogan posto na boca daquela marioneta política a que se chama «povo» e à qual se pretende sempre agradar.

Vendo na língua um instrumento que o homem molda em função dos seus propósitos, um instrumento que deve servir para expressar – e não para ocultar – o pensamento, George Orwell considera que se o pensamento corrompe muitas vezes a linguagem, a linguagem – mormente a linguagem política – não corrompe menos o pensamento. Assim, no recurso sistemático a metáforas gastas ou tecnicamente “mortas”; no uso generalizado de palavras sem significado; na colagem de longas cadeias de frases prontas-a-usar; no palavreado mecânico,; no estilo enfatuado e na dicção pretensiosa – em tudo isto vê Orwell sinais claros de um aviltamento político da língua que não pode levar senão ao conformismo e à passividade, e, em última análise, à escravidão.

A ortodoxia, seja ela de que cor for, parece exigir um estilo de escrita sem vida e imitativo. Os dialectos políticos que se encontram em panfletos, editoriais, manifestos e nos discursos dos subsecretários, variam, evidentemente, de partido para partido, mas são todos semelhantes no facto de quase nunca encontrarmos neles um modo de falar limpo, vívido, pessoal. No caso dos oradores políticos que repetem mecanicamente as frases familiares, é como se tivéssemos a sensação de estarmos diante não de um ser humano vivo, mas perante uma espécie de manequim. O orador que usa este tipo de fraseologia está muito perto de se tornar numa máquina. Os ruídos apropriados saem da sua laringe, mas o seu cérebro não está envolvido neles como estaria se ele tivesse escolhido as palavras por si mesmo. Se o discurso que ele está a fazer é um daqueles discursos que ele está habituado a proferir uma e outra vez, pode permanecer praticamente inconsciente daquilo que está a dizer, tal como acontece quando damos as nossas respostas na igreja. E este reduzido estado de consciência é, em qualquer caso, favorável ao conformismo político [4].

Se o orador político contemporâneo pode muito bem actuar como uma “marioneta” que debita slogans atrás de slogans, já ao escritor político consequente cabe um outro tipo de responsabilidade. Recusando tanto as frases pré-fabricadas como as imagens insípidas e confusas, recusando tanto as chapas consagradas como o cliché estafado e trivial, recusando, enfim, tanto as abstracções vazias de conteúdo quanto os eufemismos e as vaguezas de sentido que hoje predominam nos usos político e mediático da língua, George Orwell considera que o primeiro passo para travar o declínio político da língua nada tem que ver – ao contrário do que alguns poderiam eventualmente crer – com o resgate de arcaísmos, com a recuperação de palavras e de figuras de estilo obsoletas, ou ainda com a criação de um “inglês-padrão”, do qual o escritor jamais se deveria afastar. Em suma, o que acima de tudo se impunha a Orwell no seu tempo, e o que se impõe a nós ainda hoje ao escrutinarmos os passos de Orwell, é que na escrita política consciente seja sempre o significado a escolher a palavra – e nunca o contrário. Esta é uma das várias lições políticas que Orwell nos legou.

Quando avaliou os efeitos dos crimes perpetrados sobre a língua inglesa na prosa e na oratória políticas do seu tempo, Orwell fê-lo de maneira profunda e clarividente. O seu principal argumento é muito claro. Na verdade, diz-nos Orwell, sempre que um escritor político claudica diante do dialecto bastardo disponível, sempre que ele baixa a vigilância e permite que acudam à sua mente todo o tipo de frases prontas-a-usar, serão, nessa altura, exactamente essas frases que começarão imediatamente a escrever por ele, serão elas que pensarão os seus pensamentos – e jamais será ele, o escritor político, a fazê-lo por sua própria conta e risco. E é precisamente neste ponto que, segundo George Orwell, a conexão entre a manipulação política e a degradação da língua se torna mais evidente e obscena. Por conseguinte, a inversão do declínio político da língua exige que o escritor tenha a coragem de se desfazer de toda a palavra vaga ou eufemística, de toda a expressão idiomática consagrada que entretanto tenha esgotado a sua serventia: «slogans», «soundbites», «metáforas moribundas», «operadores ou falsas muletas verbais», «palavreado mecânico», ««enfatuação», «dicção pretensiosa», «palavras sem significado», «frases pré-fabricadas» e… «treta em geral». Sim, «treta em geral» precisamente porque o tom dominante no linguajar político da nossa época, acompanhado nisto por um jornalismo demasiadas vezes acéfalo e subserviente, é, efectivamente, «treta em geral», e quase sempre e nada mais do que «treta em geral». Orwell explica-se em Why I write (1946):

O que mais desejei fazer ao longo dos últimos dez anos foi tornar a escrita política uma arte. O meu ponto de partida é sempre um sentimento de militantismo, um sentido de injustiça. Quando me sento para escrever não digo a mim mesmo: “vou produzir uma obra de arte”. Escrevo porque há uma mentira qualquer que quero denunciar, um facto qualquer para o qual quero chamar a atenção, e a minha preocupação inicial é ser ouvido… Olhando para o meu trabalho, vejo que foi, invariavelmente, quando não tive um projecto político, que escrevi livros sem vida, caindo em passagens empoladas, frases sem significado, adjectivos decorativos e treta em geral [5].

Orwell sente, portanto, que a linguagem política necessita de um cuidado vigilante e de uma permanente limpeza dos seus materiais, uma tarefa cívica que está sempre em falta. Foi de resto este cuidado pela língua materna que determinou a sua carreira literária e o seu próprio destino de escritor político, e foi também ele que, num ensaio sobre Charles Dickens, levou Orwell a afirmar que «não se pode afirmar categoricamente que uma crítica apenas moral à sociedade não possa ser tão revolucionária como a crítica político-económica tão em moda hoje em dia»[6]. Finalmente, foi ainda este escrúpulo que, de um ponto de vista político e literário, caracterizou sempre a escrita política, propriamente dita, de George Orwell, e consequentemente o tipo de intervenção pública e cívica que dela decorreu. George Orwell, que detectou e denunciou como poucos escritores da sua época os abusos cometidos sobre as palavras políticas, acreditava que é sempre num trabalho rigoroso de observação e de vigilância da linguagem política que se deve fundar toda a resistência esclarecida e consequente ao terror, à violência e à censura políticas. No entanto, do seu ponto de vista, não se trata tanto de cumprir com as regras de uma gramática e de uma sintaxe correctas, as quais – desde que o que queremos dizer tenha um sentido claro – têm sempre uma importância relativa, mas de pensar e escrever de maneira tão clara, tão limpa, tão vívida, quanto possível. É isso que constitui, para George Orwell, o primeiro e o necessário passo de uma regeneração política da língua, cujo esforço passa por travar o permanente «abuso das palavras políticas», por travar, enfim, o odioso tráfico daquele género de palavras – como «democracia», como «populismo» – muitas vezes usadas de uma maneira conscientemente desonesta. Podemos chamar-lhe o “escrúpulo linguístico e cívico de Orwell”:

A palavra fascismo não tem agora significado, excepto na medida em que signifique “algo não desejável”. Cada uma das palavras democracia, socialismo, liberdade, patriótico, realista, justiça, tem vários significados diferentes, irreconciliáveis entre si. No caso de uma palavra como democracia, não apenas não existe acordo sobre a sua definição, como todos resistem à tentativa para chegar a uma. De um modo quase universal, sente-se que quando chamamos a um país democrático estamos a louvá-lo: consequentemente, os defensores de qualquer espécie de regime alegam que ele é uma democracia, e receiam que possam ter de deixar de usar a palavra se ela estiver vinculada a apenas um significado. Palavras deste género são muitas vezes usadas de uma maneira conscientemente desonesta. Ou seja, a pessoa que as utiliza tem a sua própria definição privada, mas permite que o seu interlocutor pense que ele quer dizer uma coisa muito diferente [7].

Numa época como aquela em que vivemos, assediada que está pelos fantasmas políticos dos chamados «populismos», talvez, afinal, a nossa confiança na «democracia» não seja nem tão grande, nem tão segura, nem tão cega quanto porventura gostaríamos que fosse. Seja como for, sob a perspectiva de George Orwell, uma língua política degradada e rebaixada a frases feitas, a palavreado mecânico, a slogans e a palavras de ordem prontas a usar, como aquela que diariamente nos é entregue pelos media, serve, objectivamente, o propósito de um empobrecimento e de um atrofiamento da experiência cívica e política mais elementar.

Na esteira do extraordinário trabalho sobre a língua levado a cabo por George Orwell no seu tempo, estamos porventura agora em melhores condições para podermos compreender que com a actual inflação, desmando e arbitrariedade no uso do termo «populismo» na esfera pública, nos vemos, uma vez mais, confrontados com… “o problema de Orwell”: O escritor político consciente deve, por isso, precaver-se. Sob o risco de ela poder incorrer numa pura mistificação, na escrita política nunca se deve facilitar. Bem vistas as coisas, a escrita política não tem necessariamente de ser uma escrita indigesta e intelectualmente desonesta, e, sobretudo, a escrita política não tem de ser uma escrita ideologicamente poluída. Ela pode e deve ser algo distinto, algo que aspire, no fundo, à dignidade do que Orwell chamou a «decência comum».

[1] Cf. Noam Chomsky, O conhecimento da língua. Sua natureza, origem e uso. Lisboa: Editorial Caminho, 1994, p. 271.
[2] Cf. George Orwell, “Politics and the English Language”, in Why I Write. London: Penguin Books, 2004, p. 105.

[3] Cf. Pier Paolo Pasolini, “17 de Maio de 1973 – Análise linguística de um slogan”, in Escritos corsários e cartas luteranas – uma antologia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, pp. 23-28.

[4] Cf. George Orwell, “Politics and the English Language”, in Why I Write. London: Penguin Books, 2004, p. 114.

[5] Cf. George Orwell, Why I Write. London: Penguin Books, 2004, p. 10.

[6] Cf. George Orwell, “Charles Dickens”, in Ensaios, organização, prefácio e tradução de Jacinta Maria Matos. Lisboa, Edições 70, 2021, p. 156.

[7] Cf. George Orwell, “Politics and the English Language”, in Why I Write. London: Penguin Books, 2004, p. 109.