Contrariamente ao que seria de esperar há alguns meses atrás, a preparação das presidenciais por parte do PS vai de mal a pior. Face à avalanche de movimentações, declarações de apoio e manifestações de repúdio relativas a pré-candidatos na área do PS, o partido sentiu a necessidade de vir a público – sintomaticamente pela voz de Ferro Rodrigues – declarar que só apoiará um candidato presidencial depois das eleições legislativas. Um posicionamento que, à partida, parece também ser contrário às possibilidades de sucesso de qualquer candidato presidencial que não tenha elevados níveis de notoriedade.

Mais ou menos ao mesmo tempo, António Costa declarou que a escolha do novo Governo não deve depender da vontade do Presidente da República. Uma posição que pode ser lida como um apelo ao voto útil no PS à esquerda, mas que constitui também objectivamente uma tentativa de desvalorizar o papel constitucionalmente consagrado da Presidência da República (qualquer que seja a pessoa a ocupar o cargo) neste domínio.

Juntando todas as declarações e a agitação das últimas semanas na área do PS, torna-se legítimo equacionar a hipótese levantada por Rui Ramos de a candidatura de Sampaio da Nóvoa estar a ser encarada com simpatia por alguns dentro do PS precisamente por ter o potencial de facilitar a vitória de um candidato presidencial apoiado pelo PSD. Note-se que a hipótese colocada não implica necessariamente uma avaliação negativa do pré-candidato em causa.

Sampaio da Nóvoa não é um incapaz. Mesmo sem considerar outras das suas realizações, chegar a Reitor da Universidade de Lisboa exige certamente substancial traquejo institucional e habilidade política. Mas isso não invalida que alguns dos grandes impulsionadores e arquitectos da candidatura de Nóvoa possam ter em vista, mais do que um plano de vitória traçado a régua e esquadro, um compasso de espera face a uma situação interna difícil à esquerda. E que possam até não estar excessivamente preocupados com a possibilidade de a referida candidatura não ser bem sucedida.

A confirmação da auto-exclusão de António Guterres, amplamente reconhecido como o candidato com mais potencial à partida, vem deixar tudo indefinido à esquerda. Soma-se o facto de aqueles que seriam dois candidatos alternativos plausíveis do PS a Presidente da República estarem indisponíveis: um, António Costa, por ocupar actualmente a liderança do partido, onde tem tido até ao momento um desempenho decepcionante (que sugere que avançar para uma candidatura a Presidente poderia ter sido uma opção mais adequada); outro, José Sócrates, sem dúvida a mais marcante e carismática figura do PS nas últimas duas décadas, por se encontrar indiciado por vários crimes e preso preventivamente.

Adicionalmente, com as notórias dificuldades de afirmação de António Costa, as sondagens a darem conta da dificuldade do PS em descolar do PSD e uma derrota eleitoral calamitosa nas eleições regionais da Madeira, é perfeitamente racional que todos os esforços dos socialistas se concentrem nas legislativas. Nesse aspecto, adiar a decisão para depois das legislativas e alimentar até lá um namoro com Sampaio da Nóvoa pode servir instrumentalmente para conter o crescimento da extrema-esquerda (a quem o discurso de Nóvoa agrada), mesmo que à custa de algum indisfarçável desconforto interno nos sectores mais centristas do PS.

Não é crível que o PS, no seu todo, desista em absoluto das presidenciais nem que aposte inequivocamente numa derrota, mas as indisponibilidades e a passagem das presidenciais para segundo plano mudam radicalmente o panorama. De um cenário – vigente há alguns meses atrás – em que a eleição do candidato apoiado pelo PS se apresentava como muito provável, passamos para uma situação em que tudo está em aberto. Ainda que não esteja em marcha um plano do PS para perder as presidenciais, os acontecimentos dos últimos dias serviram pelo menos para tornar esse desfecho bem mais provável.

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa