No dia 8 de Fevereiro há umas eleições para escolher um Presidente da República.

No nosso sistema, é um cargo sem grande relevância, em que o maior valor decorre da autoridade moral do presidente, mais que dos poderes que tem.

Há dois candidatos, um que pretende referendar o “regime” e o “sistema” (não me peçam para definir o que isso quer dizer, não sei, mas percebe-se a ideia geral) e outro que pretende simplesmente ocupar o cargo, ou seja, nada de essencial está em causa com esta eleição.

De resto, quer o primeiro ministro em exercício, quer o principal activo político do país, Passos Coelho, têm exactamente a mesma posição sobre esta eleição, estão calados e recusam-se a tomar partido.

Curiosamente, isto é uma nota lateral, há bastante gente que se indigna com a neutralidade do primeiro ministro, mas pouca gente nota que é exactamente a mesma posição de Passos Coelho, ou seja, os dois reconhecem que o que está em causa não justifica que se empenhem na eleição de um ou de outro candidato (e eu estou de acordo com os dois).

Bem sei que o contexto dos dois é muito diferente, um é um político no activo, ou outro é um activo político fora do activo, mas o que me interessa reter é esta tranquilidade que os dois manifestam em relação a cada um dos candidatos.

E foi a partir de uma tranquilidade semelhante que decidi o meu voto na primeira volta e que vou repetir na segunda, havia onze candidatos, mais três de brinde no boletim de voto, e deixei de lado os que não tinham grandes possibilidades de passar à segunda volta (enganei-me em relação a Cotrim, que nunca achei que poderia passar à segunda volta, mas afinal talvez tivesse essa possibilidade).

Decidi não votar no Almirante, rodeado de náufragos da política, por não ver qualquer utilidade nisso.

Decidi não votar Cotrim (quando admiti que poderia ir à segunda volta) porque sei o que ele fez na Iniciativa Liberal e vi a forma indigna, para um liberal como eu, como tratou a carreira profissional de Marques Mendes, com insinuações que não tinham por base qualquer indício de ilegalidade.

Decidi não votar em Ventura por não ter qualquer interesse nas suas propostas políticas, quer na forma, quer na substância, para além de estar convencido de que Ventura iria votar em Seguro, pelo menos na primeira volta, até por não ter qualquer interesse em ser Presidente da República.

Sobravam Marques Mendes e Seguro, e entre um homem que sente a necessidade de estar sempre a falar, mesmo que não tenha nada para dizer, e um homem habituado ao silêncio, pareceu-me melhor que na Presidência estivesse um homem habituado a estar calado, razão pela qual, desde cedo, decidi votar em Seguro.

Agora estamos perante uma escolha dicotómica.

Ou se vota num candidato que pretende referendar o regime, prometendo coisas que sabe perfeitamente que não pode cumprir, dizendo da corrupção, dos malandros, das decisões de prender este e aquele exactamente o mesmo que dizia Marcelo da sua vontade de acabar com os sem-abrigo, isto é, o que as pessoas querem ouvir sabendo que não está na sua mão resolver nada do que diz que vai resolver.

Ou votamos num homem que provavelmente estará calado a maior parte do tempo, recuperando, pelo silêncio, um bocadinho da dignidade institucional que Marcelo resolveu torpedear agindo como se o Presidente da República fosse mais um entre iguais, e não a válvula de escape do regime.

Montenegro e Passos Coelho têm razão, não há nada de essencial em jogo nestas eleições, eu é que prefiro votar na possibilidade, não na certeza, mas na possibilidade, de ter alguém que se cala quase sempre, para que as pessoas o ouçam das poucas vezes em que será útil falar, a votar num espalha brasas igual ao anterior presidente que, de tanto falar, já ninguém lhe liga.