Na passada sexta-feira, o semanário Nascer do Sol noticiava: «Serviços Públicos colapsam com aumento de imigrantes. Número de alunos estrangeiros passou de 42 mil para 172 mil em todos os níveis de ensino. Consultas de imigrantes no SNS aumentaram de 326 mil para 1 milhão e 400 mil.».

Faltarão aqui dados, porque em Portugal parece existir sempre uma relação difícil com os dados quando se trata de imigração, mas seria interessante perceber que consequências trouxe ao mercado da habitação a mudança demográfica a que assistimos nos últimos anos, como seria igualmente interessante saber quanto dinheiro arrecadou o Estado nos últimos dez anos em impostos directos e indirectos vindos de quem escolheu este país para viver e investir.

Em todo o caso, o que fica sempre claro é que o Estado achou que podia ter políticas de atracção de imigração, fosse de que género fosse, sem alterar a sua estrutura e o conteúdo dos serviços que se propõe prestar. E sobre isto, permanece a discussão no mais elevado grau a que a intelectualidade lisboeta consegue chegar («precisamos muito de milhões de imigrantes vindos do outro lado do mundo que, a troco de más condições e salários baixos, nos levem o sushi a casa, e não precisamos nada desses ricalhaços que vêm para cá roubar-nos as casas e mostrar-nos no espelho os parolos que somos») e, por outro lado, o sinal contrário desta conversa («não precisamos cá de ninguém, sobretudo se forem portadores de tez mais escura»).

Suspirará o pascácio que afinal há casas, mas só para ricos, milionários e gente famosa além de Badajoz, jorrando pelas páginas de um jornal falido uma torrente de frases que só não são consideradas racismo porque o racismo é algo que só existe mediaticamente quando o alvo não é rico ou de direita ou não constitui objecto susceptível de suportar a superioridade moral do Portuguesinho da Silva.

É curioso que tanta gente que andou anos a pedir um país aberto ao mundo, multicultural, cosmopolita, esteja agora tão incomodada por ver o país repleto de gente oriunda de várias proveniências (França, Alemanha, Estados Unidos, Emirados, Brasil, Turquia…), sem precisar do Estado para nada, sem vergonha dos seus luxos, e sem pedir licença à autoridade moral e aduaneira frequentadora dos idos do Frágil. Essa gente, outrora cosmopolita, vive agora incomodada perante o estrangeiro que lhe expõe o ridículo. Supõe mesmo que a outra gente, estranha, estrangeira e rica (ah, o nojo!) compra casas como quem compra relógios que não usa, não anda sequer por cá, porque não os vê na rua a ler o que escrevem sobre eles os nativos auto-promovidos a intelectuais. Azar do diabo, vivem, usam, frequentam, mas não o espaço que o pascácio julga.

O cosmopolita português andou durante anos a pedir um país aberto ao mundo, e não contava que, quando o país se abrisse, as elites que viessem de fora não quisessem saber da pelintragem burguesa que passa recibo por ir à televisão. Da mesma forma que outros se voltam contra os imigrantes mais pobres, os alegados cosmopolitas portugueses abominam os imigrantes mais ricos. No fundo, a sociedade aberta sempre foi uma hipocrisia, ninguém a queria verdadeiramente. Suspiram agora pelos «habitantes» da Lisboa onde se sentiam reis e senhores, pelos «lisboetas verdadeiros», talvez desdentados, de ceroula estendida na janela, eventualmente atirando as sobras do penico pelo rego da rua, bem lembrando que aquilo de que a elite lisboeta sente falta, de facto, é da Lisboa pobre que a fazia sentir superior – claro, sempre dando os bons dias à porteira e ao senhorio, esse capitalista, a quem se pagavam dois euritos de renda, e a quem se reclamavam umas obritas no prédio.

Toda esta conversa da habitação é extraordinária, de facto, num país pequeníssimo e que está repleto de casas sem moradores, a preços baixos e por reabilitar assim que se passa Vila Franca de Xira; num país sem uma rede de transportes aceitável, que faça com que Santarém esteja a uma distância física maior de Lisboa do que qualquer ponta de uma grande cidade à outra; num país onde o Estado concentra poder exclusivamente na capital e é incapaz de dispersar pelo interior os seus centros de decisão; num país onde a legislação do arrendamento é uma confusão sem explicação, que vive de constantes alterações e regimes transitórios, onde um inquilino incumpridor é praticamente inimputável, e onde as rendas são tributadas como se se tratassem de roubo cometido por opressores sobre oprimidos, fazendo com que seja mais tranquilo manter uma casa fechada à chave do que no mercado de arrendamento; num país onde se pagam fortunas ao Estado para construir, para comprar, para vender e para possuir, entre IVA, IMT, IMI, AIMI, Imposto de Selo, IRS, IRC; num país onde ninguém pergunta ao Estado e aos responsáveis pelas políticas públicas o que se fez com toda a receita fiscal que lhe foi gerada pelo dinamismo imobiliário dos últimos dez anos; ninguém lhes pergunta o que fizeram para construir ou reabilitar a infinitude de edifícios decrépitos que o Estado detém; ninguém lhes pergunta por que razão tivémos de esperar por fundos comunitários, gerando mais burocracia, custos e confusão, para reabilitar edifícios, tantos em sítios onde nem falta faziam; ninguém lhes pergunta o que fizeram para preparar o SNS, o sistema de ensino, os serviços públicos fronteiriços, a oferta de habitação, para acolher imigrantes que carecem destes serviços. Nada.

É mais fácil dizer que temos imigração a mais, como fazem uns; ou dizer que não temos imigração a mais, o que temos é uns ricalhaços estrangeiros a mais, como fazem outros. A única coisa que sei é que a melhor coisa que aconteceu a este país nos últimos dez anos foram os estrangeiros, em geral, e em particular os mais ricos e mais independentes e alheados do portugalinho jornaleiro, e os que de facto escolheram Portugal para viver, e não como porta de entrada e acesso fácil a um passaporte que lhes permitirá deslocar-se posteriormente para paragens mais condignas. Aliás, se há coisa de que Portugal ainda se pode queixar não é de excesso de imigrantes ou excesso de ricos. É de excesso de portugueses. Sobretudo dos que têm direito a espaço público e mediático.