Este texto é sobre um tema tabu. Será que Passos Coelho se tornou tão conservador que está hoje mais próximo do Chega que do PSD, ou até mesmo da Iniciativa Liberal? A questão coloca-se porque Pedro Passos Coelho tem aparecido mais vezes no espaço público e falado muito de imigração. Se deseja ou não voltar, se acha que isso pode acontecer nos tempos mais próximos, não sei. Mas sabemos que foi o melhor primeiro-ministro que Portugal teve na democracia, que a sua determinação e coragem política tiraram Portugal de uma situação aflitiva e que os portugueses, principalmente aqueles que mais o criticam, lhe devem isso mesmo.

Mas a questão coloca-se ainda por mais dois motivos: primeiro, porque o CH, com a sua verborreia, se colou de tal forma a Passos Coelho que os mais distraídos ficam com a ideia de que o ex-primeiro-ministro está como que refém da agenda do Chega. Segundo, porque há dias, o Chega e o PS votaram e aprovaram o fim das portagens em várias auto-estradas e isso fez-nos recordar um tempo antigo. É que se há tema em que Pedro Passos Coelho foi inflexível foi na recusa da isenção de portagens. Até na campanha eleitoral de 2015, o que prometeu foi reduzi-las em certas zonas do interior; não as isentar de pagamento.

As portagens podem parecer um pormenor, mas não são. Na época foi um tema importante no interior do país e ainda hoje constituem um trunfo eleitoral. Por alguma razão, Chega e PS juntaram-se em 2024 para isentar as ex-SCUTS de portagens e agora repetem o feito para um número alargado de auto-estradas. Na mesma linha de raciocínio, Chega e PS uniram-se ainda para travar o aumento das propinas. Ora, estas tomadas de posição não são apenas simbólicas; são sintomáticas e reveladoras. As duas estão directamente relacionadas com o rigor das contas públicas, com o fim do despesismo, com a justiça que deve conduzir o gasto público. Tudo bandeiras eleitorais de Passos Coelho em 2015 e parte integrante do seu património político. Foi Passos Coelho o primeiro governante português a salientar a necessidade de excedentes orçamentais. Foi Passos Coelho o primeiro governante português a referir que as tão necessárias reformas estruturais implicam sacrifícios, uma reestruturação do Estado e políticos que consigam convencer a maioria da população a aceitar que sejam postas em prática. Compreende-se que Passos Coelho não critique as opções do Chega. Não é militante deste partido e o que o Chega faz ou deixa de fazer não é da sua conta. Mas há aqui um ponto que pode ser relevante no futuro e a que regresso daqui a dois parágrafos.

Por enquanto é de salientar que o património político de Passos Coelho é o oposto ao posicionamento político do Chega. Dir-me-ão que a questão das contas públicas está ultrapassada. Não está. Nenhum Estado com uma dívida pública de 97% do PIB, e com despesa pública em crescendo, pode dizer que é uma questão ultrapassada. Dir-me-ão depois que na imigração Passos Coelho está em sintonia com o Chega. Não está. E não está porque, sobre imigração, Passos Coelho não tem dito mais do que a maioria dos portugueses vê todos os dias.

Mais: alerta para o perigo de os portugueses se sentirem estrangeiros em Portugal. Mas nesse sentido, e como o próprio referiu, “o mínimo de bom senso faz qualquer pessoa perceber isso”. Passos Coelho disse-o à saída da apresentação do livro de Miguel Morgado sobre o liberalismo, porque para o liberalismo o Estado é indispensável enquanto agregador dos cidadãos. Aliás, foi com o estado liberal que surgiu e se desenvolveu o sentimento de unidade nacional. Foi o liberalismo um dos motores para o surgimento de estados nacionais na Europa, fosse por via da desagregação dos impérios (como do Império Austro-húngaro) fosse por via da união dos cidadãos, até então separados por entidades governadas por linhagens antigas, em novos estados nacionais (como aconteceu com a unificação da Itália e da Alemanha). No momento actual, com o envelhecimento da população e uma economia em quase pleno emprego que precisa de quem esteja disposto a trabalhar no turismo e na agricultura, a discussão deve focar-se na integração e não em impedir a chegada de quem quer trabalhar. Um país próspero atrai pessoas: sejam estrangeiros, sejam nacionais que podem finalmente regressar porque há empregos para eles. Esse é o objectivo e foi isso que, em 2015, Passos Coelho disse quando o país saiu do programa de austeridade da troika.

Como referi no início deste texto desconheço se Passos Coelho quer ou não regressar à política. Uma coisa é certa: se o fizer é porque Luís Montenegro se desgraçou politicamente. E se o fizer é muito provável que tenha o eleitorado do Chega no bolso. Passos Coelho recusou navegar na onda dos que acusaram o Chega de ser de extrema-direita. Não é e nunca foi, como já escrevi neste espaço. Passos Coelho não o fez porque sabia que tinha condições para ir buscar esse eleitorado. E porque não o fez, se regressar tem condições para pôr um ponto final numa deriva partidária que se iniciou com a geringonça de António Costa. Se regressar, Passos Coelho pode neutralizar o Chega e acabar com o discurso populista à direita que caracteriza o partido de André Ventura.