Milhares de livros espalhados pelo mundo anunciam fórmulas infalíveis para que os relacionamentos funcionem bem ao longo do tempo. Cumplicidade, parceria, tolerância e amizade são algumas das características que mais aparecem nesse cenário. Mas eu ouso discordar. O segredo para um relacionamento dar certo, a meu ver- e digo por experiência própria- é não entender boa parte do que o outro diz. Isso tem dado muito certo por aqui.

Sou uma brasileira casada com um português e outro dia me perguntaram se eu entendia tudo o que ele dizia. Respondi naturalmente “claro que não, por isso que nós nos casamos”. Talvez se eu fosse coreana e ele do Turcomenistão a coisa funcionasse ainda melhor. Digo isso porque boa parte das brigas entre casais derivam de mal entendidos. No nosso caso, nós sempre presumimos que não entendemos nada do que o outro disse, por isso a briga nem mesmo se inicia.

Alguns podem pensar “ah, mas ambos falam português, impossível não se entenderem”. Eu atesto: não entendemos no mínimo 30% do que o outro diz. Eu falo um português paulistano que resulta em frases como “mano do céu, cê num tá ligado no toró que caiu quando eu vim da padoca” ou “foi daora o rolê de busão com aquela mina firmeza do trampo”. Ele observa a minha expressão enquanto falo, apenas para ver se estou feliz ou triste, e diz as frases correspondentes a cada expressão: “que bom querida” ou “que pena querida”.

Ao mesmo tempo, ele tem aquela impressionante habilidade portuguesa de dizer 25 palavras em menos de dois segundos como, por exemplo, transformar a frase “vê se não te esqueces de enviar aquele mail ao condomínio perguntando quando é que vão corrigir a fuga de gás” em “vesnãotsquecs dnviaraqlmail aocdminprprgtar quandéq vãcurrgir afugdgás”. No fim do dia ele nunca espera que eu tenha enviado mail nenhum ao condomínio porque ele já sabe que eu não faço a menor ideia do que ele me pediu para fazer. Eu apenas sorrio para tudo o que ele diz, enquanto concordo balançando a cabeça afirmativamente, mesmo que ele possa estar me convidando para morar em Bagdá.

Quando é realmente importante, deixamos por escrito. Ainda assim acontecem problemas, porque achávamos que a dificuldade era só a pronúncia, mas vamos descobrindo, equívoco após equívoco, que as próprias palavras têm sentidos diferentes ou que elas nem sequer são compreensíveis para o outro. Mas tudo bem, segue o jogo, ninguém fica ofendido e tocamos em frente.

E quando a conversa é mesmo séria, falamos pausadamente, com calma, um tratando o outro como se fosse retardado. EN-TEN-DEU A-MOR? PER-CE-BES-TE QUE-RI-DA? Pronto, fica tudo bem. O mais importante é sorrir, trocar uns beijos, tomar umas taças de vinho, assistir umas séries e dormir abraçado.

Frequentemente eu peço para que ele coloque a louça na máquina de lavar, ele entende, mas finge que achou que eu estava falando da louca do quinto andar, não coloca nada na máquina e eu nem me chateio. Por outro lado, ele me pede para levar o carro para lavar, eu simplesmente não levo, e digo que tinha entendido que ele falou sobre barro de modelar, ele também não se aborrece. E assim vamos levando a vida. Se for um leve problema de surdez também deve funcionar. Não entender o que o outro fala tem dado muito certo aqui em casa. Recomendo a todos.