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Tanto quanto sei, nenhum dos nossos grandes pregadores, nem Santo António, nem o Padre António Vieira, pregaram aos ladrões. Aos peixes, sim. Mas aos ladrões, não. Foi preciso, ao fim de muitos séculos, um engenhoso agente da Polícia de Segurança Pública do Porto para os ladrões poderem finalmente disfrutar da distinção concedida aos peixes. O sermão foi filmado, como hoje parece que acontece a quase tudo, e passou logo às redes sociais, como também é costume com tudo o que é filmado. Mas acontece que não estamos no século XII, nem no século XVII. O Estado actual tem superstições, mas não tem religião. Por isso, o comando da PSP decidiu proceder ao proverbial inquérito. O polícia já notou entretanto que não tentara converter ninguém. Fora apenas um ardil (“estratégia”) para forçar os ladrões a revelar o esconderijo dos objectos furtados.

Não sabemos se o estratagema impressionou os detidos. Mas alarmou as redes sociais, sobretudo as rondas da noite do velho laicismo. Sem razão. A PSP do Porto não é um foco de missionação. O que se passou na esquadra correspondeu muito bem à ideia que da religião faziam as elites mais secularistas do século XIX, depois das revoluções liberais. Havia quem quisesse simplesmente substituir a religião pela ciência, mas até alguns livre-pensadores, por mais urticária que lhes suscitasse o clero, eram capazes de valorizar as velhas crenças como instrumento para inspirar temor e reverência. Sabiam que nem toda a população conseguiria chegar à moral apenas por via da “razão”. Isso era para os cavalheiros ilustrados. Os outros – pobres, crianças e, claro, mulheres – precisavam supostamente do estímulo do sobrenatural para se portarem bem, como terá pressentido o polícia portuense.

O sermão policial não é, portanto, prova de uma qualquer invasão religiosa do Estado, como temeram os fariseus do secularismo, mas, ao contrário, um sinal de como a ideia de religião ainda não recuperou da sua degradação laicista desde o século XIX. Tolerada como simples disciplina social para espíritos considerados fracos, a religião foi logicamente imaginada como uma ausência de dúvidas, uma anestesia para as incertezas (o “ópio do povo”). Por isso, a palavra religião é utilizada hoje para descrever tudo aquilo que é vivido ou em que se acredita com excesso e cegueira, sem admitir discussão, como o clubismo do futebol. Como se a religião consistisse necessariamente em fanatismo ou sectarismo. Não por acaso, aliás, o polícia pregador teve de desmentir que pertencesse a alguma “seita”.

É verdade que muitos regimes religiosos tiveram — e têm — aspectos de ritualismo e de intolerância. Isso, porém, também aconteceu — e acontece — com muitos regimes laicistas. No entanto, uma tradição religiosa como o cristianismo incluiu igualmente dúvida, análise e debate. Não foi só “inquisição”, como queria a mais ingénua propaganda anti-clerical. A religião, até na medida em que remetia para a revelação divina e a transcendência da humanidade, sugeriu sempre interrogação, mistério e perplexidade. Sim, foi consolação e conforto, mas foi também a via para algumas das mais desassombradas reflexões sobre o mal e os limites da humanidade, sem as ilusões das ideologias do progresso sobre a possibilidade de restaurar o paraíso terrestre por mera vontade humana. Na época contemporânea, parece termos perdido essa noção. Mas num tempo em que Boa Páscoa tende a significar apenas boas férias, não devemos esperar que a religião, sobretudo numa esquadra de polícia, signifique mais do que uma “estratégia” para recuperar objectos furtados.

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