Era esperado e está a acontecer. O mundo como o conhecíamos mudou de forma drástica. O dramático no atual cenário de tensões geopolíticas globais, porventura a pior e seguramente a maior ameaça está a acontecer, desde há 3 anos a esta parte no continente europeu. Com o regresso de Trump à Casa Branca, mais uma variável se junta à complexa equação de equilíbrio político, económico e social num contexto já instável. Desde a promessa de resolver a guerra na Ucrânia num dia até à incerteza sobre uma solução no curto prazo ou a garantia de uma paz duradoura, tudo permanece em aberto.

Para a Europa, surgem três cenários possíveis:

  1. Cenário mais provável: O território ocupado permanecerá sob controlo russo de facto, com eventuais trocas territoriais limitadas na região de Kursk, mas sem a possibilidade de adesão da Ucrânia à NATO. Neste caso, a Europa terá que assumir a maior parte do apoio à Ucrânia, com os EUA focados no reforço da sua política externa e interesse comercial.
  2. Melhor cenário: Um forte compromisso dos EUA e da UE em aumentar significativamente o apoio militar à Ucrânia e reforçar as sanções à Rússia em caso de nova ofensiva. A indústria de defesa e a reconstrução ucraniana receberiam um apoio substancial, e a Ucrânia teria um caminho aberto para adesão à UE, reforçando o flanco leste da Europa.
  3. Pior cenário: Trump perde o interesse na Ucrânia antes de qualquer acordo ser alcançado, deixando a Europa sozinha no apoio a Kyiv. A Rússia, fortalecida, poderia preparar um ataque maior, desta vez contra um membro da NATO, explorando o desinteresse de Washington pela aliança e pela proteção europeia.

À luz destas hipóteses ou até pior, o facto incontornável é que a tranquilidade europeia acabou e agora, ou a Europa se agiganta ou arrisca-se a ser engolida pelo Kremlin. A guerra, sendo a continuidade da política por outros meios, baseia-se em números, no chamado potencial de combate. E os números são avassaladores. Sem os EUA, a Europa tem apenas 80 brigadas ativas, enquanto a Rússia possui 220. Sem as 110 brigadas ucranianas, a relação é de 3:1 a favor da Rússia, um rácio que, segundo a tática militar, garante o sucesso de qualquer ofensiva.

Os exércitos são compostos por meios militares e meios humanos, e, se a questão do orçamento resolverá parte das limitações em sistemas de armas, no recrutamento dos cidadãos, homens e mulheres, o problema europeu é bem mais complexo. Uma fábrica de munições leva mais de 2 anos a instalar, e ao fim de 4 anos pode estar resolvido o problema das reservas de guerra em munições, mas quando passamos para o elemento Soldado, o assunto tem outras unidades de medida. Primeiro, há que reverter a pirâmide demográfica e uma década não basta, depois há que mudar pela educação e cidadania a mentalidade dos jovens das “facilidades instaladas”, ou se quiserem da “geração mais bem preparada de sempre”, e outra década será curta, e por fim ainda é necessário treinar e capacitar o combatente. Quanto tempo leva a formar um Oficial ou Sargento, os quadros das Forças Armadas (FFAA)? 10 anos para chegar a Capitão! O tempo para preparar a Europa para um conflito em grande escala passou, ou no mínimo já é escasso.

Atentemos no caso de Portugal, onde o plano “Defesa 2020” estabelecia um redimensionamento dos efetivos militares para um total entre 30.000 e 32.000 para os três ramos das FFAA, incluindo aqueles na reserva em efetividade de serviço, números nunca atingidos e de acordo com os dados mais recentes disponíveis, no final de 2023, do total de 23.425 militares, aproximadamente 54% (cerca de 12.650) pertencem ao Exército, 26% à Marinha e 20% à Força Aérea. Entre 2015 e 2023, as Forças Armadas Portuguesas registaram uma redução de efetivos de aproximadamente 20%, fruto de vários fatores, incluindo a abolição do serviço militar obrigatório, desafios no recrutamento, retenção de pessoal e total abandono por parte dos governos socialistas de então. Para inverter esta tendência, o novo governo da Aliança Democrática, anunciou, em Julho de 2024, um conjunto de medidas destinadas à valorização e dignificação da carreira militar, com o objetivo de captar e reter efetivos nas FFAA.

Sem conhecer os números finais, é facto que se verifica um ligeiro crescimento do número de candidaturas, mas numa expressão ainda humilde quando comparada com as necessidades de recuperação do efetivo. É também facto que a sangria das saídas precoces não estando estancada, mas melhorou-se a retenção, em 2024 a serem já sentidos um aumento da permanência média do RC de 2 para 3 anos (num máximo de 6 anos), porém, nas Forças Especiais a atrição na formação ainda é grande e das medidas anunciadas, não se dúvida que o aumento dos vencimentos terá sido aquela que mais positivamente contribuiu para melhorar a situação em efectivos no Exército, e igual cenário se aplicará aos outros Ramos. A reserva de disponibilidade e recrutamento tende a reduzir e a geração dos primeiros contratados, a mais numerosa, está a atingir a idade limite. Presentemente Portugal dispõe de cerca de 35.000 efetivos na reserva de disponibilidade (i.e. elementos que tiveram experiência de serviço militar e que já saíram das fileiras), mas como é referido acima, sendo a idade limite os 35 anos, e tendo o efetivo vindo a ser reduzido ao longo dos anos, as classes de convocação serão cada vez menos numerosas. Em Julho de 2025, um ano depois de implementadas os novos incentivos para as FFAA a nova vaga de candidaturas permitirá afirmar que se inverteu o ciclo de decréscimo de efetivos?

O Exército, na questão da retenção de efectivos e no fortalecer a sua capacidade psicológica tem feito a sua parte e desde Julho de 2024, pela primeira vez no Curso de Formação Geral Comum de Praças, tem aplicado um Programa de Promoção da Robustez Mental (PPRM), desenvolvido pelo CPAE, que tem como destinatários os formandos dos Cursos de Formação Inicial (Praças, Sargentos e Oficiais). O objetivo é diminuir o número de desistências durante os Cursos de Formação Inicial e em simultâneo identificar os jovens com elevado potencial de liderança para os cativar para os Quadros Permanentes. Com isto, já é possível afirmar que a tomada de decisão impulsiva e emocional habitual nos jovens está a ser substituída por uma tomada de decisão consciente e racional, o que em termos efetivos significa menos desistências e as que acontecem são mais próximas da data do Juramento de Bandeira, ao invés de ser na primeira/segunda semana do curso. Ora, e se o Exército instrui e se pode funcionar como “laboratório” para a geração em idade recrutável, a formação destes pilares da Robustez Mental – controlo, compromisso, e desafio – tem de estar na família e na escola.

A cultura “woke”, associada a um foco nos direitos individuais sem deveres associados, a desconstrução de estruturas hierárquicas e a promoção desregrada da inclusão, entra em choque com os valores tradicionais das Forças Armadas, como disciplina, hierarquia e dever patriótico. Os jovens são incentivados a dar importância máxima ao bem-estar individual rejeitando o compromisso com qualquer estrutura ou desafio que exige sacrifício pessoal. A perceção dos jovens portugueses sobre o serviço militar atualmente é, em grande parte, marcada por desinteresse e ceticismo, muitos por o entenderem como uma opção pouco atrativa e a grande maioria por desconhecimento. Os desafios da vida militar, como disciplina rígida, deslocações frequentes, exigências físicas e psicológicas, são vistos como barreiras para os jovens, com as famílias a desencorajarem os jovens da carreira militar, considerando-a arriscada e pouco recompensadora financeiramente e o sistema educativo raramente aborda a importância da Defesa Nacional, sem a preocupação de integrar valores de cidadania e serviço público. Putin conhece isso e na sua avaliação do potencial de combate este aspeto pesa na sua avaliação. As informações ocidentais apontam para que o Kremlin planeia neste ano criar 15 novas divisões este ano, com um total de 150 mil soldados — mais do que os exércitos nacionais da maioria dos países europeus e a Ucrânia em 2024 mobilizou por mês cerca de 30.000 soldados. Como vai Portugal mobilizar 10.000 jovens para o Exército para colmatar as falhas existentes que seja e que não são sequer reforço adicional, que não desejam cumprir com os seus deveres? Numa estrutura demográfica cujos valores entre os 18 e os 30 anos de idade rondarão os 10% isto significará 1 milhão de jovens, pelo que estamos a falar também de 10% desse milhão. E o que nos diz a realidade? Perante o cenário atual e sendo um cálculo difícil de fazer por que não existem dados estatísticos que permitam aquilatar de ritmos de crescimento (até ao momento, nas FFAA só tem acontecido o contrário) e apesar de se reconhecer que MDN e Ramos estão apostados em crescer o máximo possível no ritmo possível, existem dois fatores condicionadores do crescimento: a capacidade de incrementar a percentagem demográfica de motivações militares, e as disponibilidades financeiras para incorporar novos elementos. No primeiro aspeto é necessário que esta “cultura de serviço militar” seja uma política nacional, governo, escolas, família e FFAA numa linguagem alinhada com a realidade da Europa e dos desafios geopolíticos atuais. O segundo aspeto implica mais investimento. De que serve ter o soldado disponível se depois não existe o aquartelamento para o acolher, a arma e uniforme para treinar, as munições em reserva de guerra para qualquer eventualidade e a estrutura hierárquica para os liderar? Os 31 milhões de euros para alojamentos e escolas do Exército no âmbito do PRR é um bom prenúncio, mas pelo estado da arte não cobrirá senão, porventura, 10% das necessidades. E, mais uma vez com Lisboa e Porto nas prioridades. E os Açores, a Madeira e o interior, onde está a maioria dos jovens que ainda colocam a hipótese de integrar o serviço militar?

Considerando a necessidade de alinhar o crescimento dos efetivos com a intenção política de atingir os 2% do PIB até 2029, o Exército tendo como objetivo estruturante alcançar os 22.000 efetivos, entre militares e civis, número que terá que ser ajustado a eventual novo Sistema de Forças, tendo atualmente cerca de 12.600, incluindo nestes os cerca de 5.000 militares em RV/RC/RCE nas diversas categorias, incluindo os que estão em formação inicial, para atingir essa meta, será necessário duplicar de imediato o esforço de recrutamento, garantindo um crescimento superior a 1.800 efetivos por ano. Este desafio sem mais medidas concretas e sustentáveis para atrair, formar e reter pessoal, assegurando a operacionalidade e a modernização do Exército dentro do quadro estratégico definido será uma utopia.

Num momento em que a discussão do Conceito Estratégico de Defesa Nacional voltará, por força das circunstâncias a dominar a agenda dos políticos, o que fica claro é que o tempo em que estas decisões sobre as FFAA deveriam ter sido tomadas já passou e que resta agora o “timing” certo para o fazer com foco em medidas concretas, eficazes e urgentes. Será que ainda vamos a tempo? É a questão que fica! Será que no timing certo os políticos vão tomar as necessárias decisões? A resposta aqui é mais previsível.

A defesa nacional é uma área onde a gestão do tempo é crítica, e onde o “timing” pode significar a diferença entre segurança e vulnerabilidade. As decisões estratégicas tomadas hoje moldam a capacidade militar de um país nas próximas décadas. Conhecem o ditado da Santa Bárbara, não conhecem? Na guerra, o tempo é um recurso tão valioso quanto armas e soldados. A preparação militar não se faz de um dia para o outro. A formação de um soldado, e mais ainda de um oficial ou sargento, exige anos. O desenvolvimento de capacidades industriais, logísticas e tecnológicas leva décadas. E, num mundo em constante mudança, o timing da tomada de decisões estratégicas pode determinar se uma nação está preparada ou vulnerável quando a crise chega. Atrasos na modernização, adiamentos na contratação de efetivos e uma cultura política que, durante décadas, tratou a defesa como uma área secundária, resultaram numa situação em que o tempo que pode não existir em caso de um conflito inesperado. O tempo perdido não se recupera, e na defesa, como na guerra, quem espera demasiado pode descobrir que já perdeu antes mesmo de lutar. O timing para evitar isto é agora. O ontem já passou e o amanhã pode ser tarde!