Quem aparece na televisão? E que espécie de pessoas aparece na televisão? Tirando as ficções e os concursos, onde temos pessoas a fazer de outras pessoas, e os documentários, em que temos outros animais, seríamos tentados a pensar que a resposta razoável é: quase sempre pessoas muito parecidas connosco, embora com o indicador erecto. Há razões para pensar no entanto que quem aparece na televisão pertence a uma espécie que se confunde com a nossa, e ocasionalmente, segundo a imprensa, acasalará com a nossa, mas que no demais é muito diferente; quando falam não estão bem a falar; e não temos razões para pensar que sejam capazes de raciocínio, ou daquilo a que os cientistas chamam modos inferenciais básicos.

Tal como uma actriz que faz de dama antiga não é necessariamente uma dama antiga, assim não se deve confundir o que se ouve na televisão com raciocínios. Sinal disso é as conclusões aparecerem sempre no princípio das frases, que no demais se limitam a veicular sentimentos poderosos como por exemplo o de enorme indignação. Não se pode censurar quem sente vontade de tirar o som às cerimónias. O rancor é porém mau conselheiro; televisão sem som não é bem televisão. Como lidar então com a espécie que aparece na televisão e parece estar a falar, ou até a pensar?

A maior parte das pessoas acaba por se habituar, e tenta até perceber. Não há porém nada para perceber; é melhor em vez disso prestar atenção à música. Com efeito, o que é característico daquilo que a maior parte das pessoas dizem na televisão não é o que dizem; nem o facto de o dizerem; é antes um certo tom reconhecível dos barulhos que fazem. O tom é produzido mediante uma elevação deliberada da voz antes do final de cada frase, que dá a entender que aquilo que se segue, ou seja o fim da frase, é universalmente evidente. O mesmo tom ocorre em todas as frases, grandes ou pequenas; isto leva a supor que para quem aparece na televisão aquilo que é universalmente evidente precisa de ser repetido muitas vezes.

O tom tem assim duas funções. A primeira é servir para dizer aquilo que se acha que os outros já sabem; a segunda é servir para explicar repetidamente aos outros aquilo que se acha que eles já deviam saber. À conjunção destas duas actividades, de onde está afastada qualquer suspeita de raciocínio ou de frivolidade, chama-se consoante os casos comentário apocalíptico, debate político, humor hilariante ou discussão técnica. Pouco importa: todas estas actividades são o resultado de um único tom. O lema de quem o frequenta é: satisfação em relação a si próprio, e condescendência em relação aos outros. Embora continuemos sem saber exactamente quem aparece na televisão, podemos imaginar sem dificuldade que espécie de pessoas gosta de lá aparecer.